Uma década para o idoso

A se tomar por base o que avaliam especialistas, uma década, nada além disso, é o que resta ao país para formular políticas objetivas de proteção e promoção da população anciã, que vem se ampliando no campo e nas cidades, por força de razões diversas. Elaborada tal previsão, que nada tem para ser desconsiderada, ficam sobre os costados dos dois próximos governos assumir a responsabilidade, que de forma alguma se inclui entre as menos desafiadoras, dada a complexidade e amplitude das tarefas a empreender. Os candidatos à presidência e os que almejam chegar ao Congresso Nacional precisam considerar tão pesado fardo que lhes será transferido pelo voto de outubro. 

Mãos à obra, haveria de sentenciar a consciência da sociedade; esta, assim como os governos, longe de compreender, culturalmente, os desafios de uma população que envelhece. 

As ações ditas conscientes principiariam por relegar ao passado certas ideias inadequadas, que emprestam aos programas de atendimento aos idosos uma conotação meramente assistencialista, quando não misericordiosa. Porém, o que a eles devemos é a valorização da vida que conseguiram ampliar sobre muitos anos, sem faltarem casos, muitos casos em que a existência foi resultado de sacrifícios heroicamente superados. Para esses, viver foi realmente muito perigoso, como nos lembra a experiência roseana das veredas de Minas. 

Mas por onde começar? Talvez, já que o tempo urge, o primeiro passo deva ser confiado à Câmara e ao Senado, para filtrar e unificar as muitas propostas, que há anos ali tramitam em relação à ancianidade e sua presença no Brasil contemporâneo. Sabendo-se, de antemão, que os direitos que lhe são devidos exigirão especiais recursos do Tesouro;  sim, direitos, quando já não é mais possível cobrar deveres. É imperativo, portanto, que as duas casas legislativas se dediquem a remover entulhos  superados, não mais aplicáveis, assim facilitando um debate útil em torno das questões que realmente se impuserem como essenciais. 

No bojo de tais iniciativas, queira Deus que o parlamento também crie coragem de encarar a reforma da Previdência, porque, se ela chegar à exaustão total de seus recursos, serão os velhos os primeiros condenados à miséria. Nenhuma outra preocupação será capaz de se revelar tão aguda como a relação da população idosa com a ameaça de empobrecimento dos orçamentos da Previdência, que, ao ser criada, tão diferentemente dos nossos dias, aposentava o trabalhador que tinha expectativa de 48 anos de vida. Hoje, essa expectativa saltou para 78! 

Na pauta dos dez anos fixados para o Brasil avançar na grande missão, inscreve-se, igualmente, uma campanha educativa junto à sociedade, sem que nisso estejam isentas as famílias; campanha ampla e persistente, para a remoção de atitudes e tratamentos retrógrados e desumanos, que condenam os idosos a serem peças de estorvo, pingentes incômodos da organização social. Não faltam bons exemplos a seguir, que estão exatamente nos países mais desenvolvidos, como o Japão  e os nórdicos. Alguém ousaria dizer que se trata de mera coincidência? 

Longa a jornada a ser cumprida para se alcançar o máximo possível desse conjunto de desafios. E, exatamente por isso, é preciso começar logo, pois o tempo tem intimidade com a intolerância, cobra com rigor e é fatal no castigo que aplica aos relapsos.