Lição em ?m de festa

Do tanto que se falou sobre recursos hídricos, para celebrar o Dia da Água, na quinta-feira passada, restou, entre as advertências mais sentidas e oportunas, a de que a defesa e a preservação daqueles recursos não dispensam, mas determinam como necessidade absoluta o tratamento dos resíduos, tanto domésticos como industriais; o lixo, soberano entre as coisas verdadeiramente fartas deste país.

Confessemos, ainda que corados diante do mundo civilizado, que temos muito que aprender e praticar nesse campo, através da adoção de medidas, algumas imediatas, outras que exigirão maturação, dada a sua complexidade. 

Os grandes centros urbanos descuidaram disso, e nesse particular são raríssimas as exceções. A desordenada ocupação do solo, para uma população em rápido crescimento, revelou-se fenômeno incapaz de evitar o aparecimento de montanhas de lixo, quase sempre à custa de graves riscos para a saúde pública. Para se salvar de tão evidente problema, outro endereço não há, além dos projetos de tratamento, compactação e reaproveitamento, o que envolve volumosos ônus orçamentários. É um problema em permanente desafio, até porque os governos, mesmo que bem intencionados, não sabem exatamente por onde começar.

Mas há outra particularidade de grande desafio ambiental, que caberia atacar logo, quando o sacrifício decorrente ainda permite ser mensurado. Trata-se dos resíduos produzidos em pequenas e médias cidades, que, pelo menos por hora, mantêm-se nos limites em que podem ter soluções encaminhadas, para resultados rápidos e menos onerosos. O exemplo não está distante. No estado do Rio de Janeiro, 55% dos municípios podem ser enquadrados numa expectativa menos preocupante. 

Valeria cuidar logo disso, como se cuida das enfermidades em estágio inicial; enquanto podem ser tratadas como receitas de baixo custo, começando por tentar salvar os rios fluminenses do destino de muitos de seus irmãos, hoje com capacidade limitada e que pouco representam, condenados que estão a transportar imprestáveis. Naqueles municípios, as condições mostram-se menos desfavoráveis, diferentemente quando as preocupações se transferem para a cidade do Rio de Janeiro, onde tudo se complica, porque boa parte do que não serve vai para o mar. Aí então os problemas que se estendem da terra à nossa baía, bela e sacrificada. Toneladas de despejos descem ou flutuam. 

Sem perder vaga na linha das preocupações ambientais, o destino dos detritos precisa sair das palavras e das reportagens, para ganhar foros de educação popular. É romper esse estranho sentimento das populações ribeirinhas, que amam e, ao mesmo tempo, odeiam os cursos de água vizinhos. Amam, quando cantam suas antigas maravilhas; odeiam, ao  sufocá-los com lixos dos mais diversos tipos não degradáveis. 

Conveniente não esquecer, também, que educar é declarar guerra sem tréguas ao desperdício, assunto que quase passou em branco nas recentes comemorações. Perde-se irresponsavelmente, começando pelo esbanjamento das águas tratadas. Não menos entristecedor, a comida atirada fora; a mesma que, paradoxalmente, falta na mesa de milhares. 

O universo das perdas debita em torno de 23% à construção civil, subindo para 31%, quando se fala do tratamento dos gêneros alimentícios. Caberia lembrar que turistas chegados de países que viveram a experiência da fome nas guerras geralmente escandalizam-se com o que se joga fora dos rodízios das churrascadas. Também aqui, o luxo do lixo incomoda consciências bem formadas, mas é preciso que essa preocupação se projete mais, muito mais, em defesa desse útero generoso e pródigo que a natureza implantou nas entranhas do Brasil.