Mercado financeiro usa fake news e eleições para turbinar especulação com ações, juro e dólar

Quem não é afeito ao mercado de capitais não entende a importância dos calendários nestes tempos de economia global em que os mercados funcionam interligados em todas as praças financeiras do mundo 24 horas por dia. Se você tem parente ou amigo que opere no mercado, bata um papo com ele para entender um pouquinho só porque todos os operadores daqui ficam ligados num feriado em Nova Iorque ou nas reuniões do Federal Reserve Bank. 

O Fed, como é tratado o Banco Central dos Estados Unidos, tem um colegiado (o FOMC), o comitê de open market, que se reúne a cada 45 dias (inspirou nosso Copom) para decidir sobre as taxas de juros dos EUA (e do mundo). Desde a crise financeira mundial, surgida em Wall Street, em agosto de 2008, os juros despencaram no mundo pela ação conjunta dos BCs para tentar salvar os bancos (e evitar que sua quebra transformasse em geleia o dinheiro das empresas e pessoas depositadas e aplicadas através do sistema financeiro). 

Desde meados do governo Obama fala-se que, a qualquer momento, o Fed elevaria os juros e isso motiva imediata fuga de capitais para os mercados americanos. Uma mexida de juros nos EUA afeta o câmbio e leva dos BCs apertar ou afrouxar a liquidez e a defenderem suas moedas para evitar pressões inflacionárias via manejo das taxas de juros. Nas bolsas de valores, de commodities e nos mercados de títulos, onde o grande giro dos negócios está atrelado ao nível dos juros, as apostas no futuro é que condicionam os negócios no mercado à vista – mero centro de liquidez. 

Um dia de feriado significa ganho ou perda de rendimento dos juros. No passado hiperinflacionário do open market no Brasil, quando o Rio era o centro financeiro do país, janeiro, com feriado dia 20, no Rio, e dia 25, em São Paulo, proporcionava grandes lucros aos bancos e corretoras da época. Muitos aproveitavam o feriado de São Sebastião para lastrear operações em cheques e levar, de avião executivo, o montante para compensar em Sampa, ganhando um dia de juros no overnight. Dia 25, aniversário da fundação de São Paulo, a operação era inversa. Ronaldo Cezar Coelho, um dos sócios da corretora Multiplic, que depois virou banco, acabou comprando jatinho no final dos anos 80 para fazer isso. Depois, entrou na política e seu avião andou a serviço de campanhas, e a cessão do jatinho está sendo investigada na Lava Jato. Isso é outra história. 

Estamos em ano eleitoral. Os juros estão mais baixos do que nunca (6,50% ao ano é a taxa Selic), mas os especuladores, que fazem operações estruturadas, casando operações futuras do mercado de índices de ações (Ibovespa) com juros futuros, câmbio e ações, tudo tendo como pano de fundo as ações do Fed, estão à espreita para escalpelar patos novos. Nos EUA este predador é chamado de scalper. 

A turbulência das três últimas semanas tem tudo a ver com o calendário do mercado financeiro global, que encontrou na próxima semana, no Brasil, ótima oportunidade para os scalpers lavarem a égua com champanhe (estamos em dia de GP Brasil...). O mercado futuro do Ibovespa (refl ete a valorização ou queda combinada das ações de empresas que o integram) tem vencimento na quarta–feira mais próxima do dia 15 dos meses pares. O último foi em 18 de abril. O próximo será a 13 de junho. Mesmo dia da reunião do Fed, quando a taxa do Fed deve subir finalmente 0,25%. Nos últimos dois meses, só essa expectativa, provocou dança no câmbio e nos mercados globais. Com o temor que o Banco Central europeu também mexa no juro ou na liquidez. 

Greve dos caminhoneiros. Um governo fraco, em fim de mandato. Argentina à beira da quebra (que não veio, pois houve socorro do FMI, com US$ 50 bilhões, bem acima dos US$ 30 bilhões pedidos). O FMI deve ter concluído que seria melhor debelar o incêndio na Argentina que atuar de bombeiro em vários países apanhados por crise sistêmica. Mas esse era um dos cenários de apostas dos especuladores, em especial no Brasil.

Nos últimos cinco meses houve uma forte mudança de percepção dos investidores estrangeiros diante do Brasil. Em fevereiro, o saldo das aplicações dos investidores estrangeiros na B3 era superior a US$ 10 bilhões. Dia 5 de junho tinha um déficit de US$ 6 bilhões. Uma saída de quase US$ 8 bilhões em 50 dias. Neste clima, os boatos e fake news e bizus sobre revelações de novas pesquisas eleitorais valem tanto quanto as inside informations sobre o IPA, da FGV, que permitia antecipar a correção monetária dos papéis negociados no open market brasileiro nos anos de 1970... 

Para entender como é importante para uma boa mesa de operação estar a par de tudo, a XP Investimentos (que teve 49% do capital comprado pelo Itaú, em operação que ainda depende do crivo do Cade) contratou pesquisas eleitorais do instituto do cientista político Jorge Lavareda. Não é caso único. Mas pesquisa contratada precisa ser registrada no TSE e ter metodologia reconhecida. Senão, pode gerar fake news. Mais volatilidade. E lucros gordos. 

Por isso, a partir de 20 de julho (a campanha começa na TV em agosto para valer a partir do dia 5, quando encerra o prazo de registro dos candidatos), o TSE proibiu enquetes não registradas e com metodologia auditada e pré-aprovada no TSE. O 1º turno da eleição é dia 7 de outubro; o 2º turno fica para 28 de outubro. O Fed decide dias 13.06; 31.08; 26.09 e 08.11. O Copom, dias 20.06; 01.08; 19.09 e 31.10 (com novo presidente eleito). 

O calendário mostra as datas cruciais para os operadores do mercado. Todo fim de mês (último dia útil) tem vencimento  de contratos de câmbio (dólar é o mais relevante) e juros (DIs). Todos se guiam pelas reuniões do Fed, do BCE e do Copom. Juros influenciam a curto e médio prazos as operações estruturadas nos mercados futuros de ações, juros, câmbio e commodities. Sem falar que os juros afetam a economia e o emprego com intervalo de seis a nove meses das alterações do Copom. 

Para entender a labaredas do dólar (com o fole soprando dos pampas) vale saber que, no vencimento de 18 de abril, quando o Ibovespa fechou em alta de 2%, o índice era de 85.776,46 pontos. Dia 8 de junho, tinha caído para 72.942,07 pontos, queda de 15%. Os contratos são feitos em pontos. Uma baixa de 12.34 pontos gera ganhos e perdas exponenciais. Um ágil especulador nunca fica numa ponta só (comprado ou vendido num único ativo). Quem está vendido (apostando na baixa do índice, está comprando juros futuros. E derruba as ações à vista. Um pesadelo para quem insatisfeito com o baixo rendimento dos fundos DIs optou pelos multimercados... 

Experiente, Álvaro Bandeira, diretor da Modal Mais, lembra que os investidores estrangeiros andaram vendendo índices e comprando ações (aproveitando a queda do real diante do dólar que tinha deixado os preços das ações no Brasil mais atraentes que os ADRs , em Nova Iorque). Ou seja, tudo pode mudar até quarta feira e um novo movimento especulativo ou fake news agitar o mercado. Na semana que passou o Banco Central entrou pesadamente em campo e desarmou parte da bolha especulativa no dólar e nos juros futuros e afetou as empresas exportadoras. Se você não quer ter infarto. Fique na poupança. Não tem taxa de administração, é mais rentável e tranquilo.