Entrevista - Larissa Riberti: ‘Só cortar impostos pode ser tiro no pé’

Mesmo após o governo ter fechado um acordo definitivo com os caminhoneiros que iniciaram uma greve há 10 dias, motoristas autônomos ainda resistem e continuam bloqueando rodovias, insatisfeitos com as condições estabelecidas domingo. Para a historiadora e jornalista especializada em transporte rodoviário de cargas, Larissa Riberti, o ponto central da crise é a política de reajuste de preços adotada pela Petrobras que fez o diesel disparar cerca de 60% em um ano.

Ainda há caminhoneiros parados? Por que?

Sim, sobretudo profissionais autônomos. Tenho conversado com alguns deles que se queixam, sobretudo, do caráter provisório da medidas anunciadas pelo governo. Michel Temer prometeu a redução do preço por 60 dias e, passado o período, disse que fará reajustes mensais, previamente anunciados para dar previsibilidade à categoria. Na cabeça deles, isso é trocar sei por meia dúzia. o problema não é só a periodicidade do anúncio, mas o reajuste em si. Além disso, alguns não acreditam que o governo vá cumprir as promessas ou reclamam porque descontos oferecidos só visam o diesel. Querem reduções na gasolina e no gás de cozinha.

Todos os dias surgem novas demandas…

Isso acontece porque os autônomos não têm, de fato, uma liderança que possa formalizar uma petição contemplando todas as suas demandas. Há, por exemplo, uma insatisfação generalizada com as condições de trabalho, que não foi formalizada como reivindicação. também há um pedido muito forte por uma tabela do preço mínimo do frete, que hoje é sugerida por grandes transportadoras. Hoje os caminhoneiros autônomos não têm tabela própria e praticam valores inferiores para driblar a concorrência, quase sempre abaixo das transportadoras para se manterem no mercado.

O governo ignorou as demandas dos representantes lá atrás?

Não é possível dizer que não houve resposta do governo, mas acredito que tenha tentado ganhar tempo porque não tem mais condições de congelar o preço do óleo desde que chancelou a política de preços internacionalizados da Petrobras. Voltar atrás implicaria em um ônus político. Depois, passaram a se fiar na ideia de que se tratava de um locaute, o que não aconteceu.

Por que certeza de que não houve locaute?

Quando o governo insistiu na tese do locaute, foi uma tentativa clara de deslegitimar o movimento dos caminhoneiros autônomos junto à população. Em dado momento, as reivindicações das transportadoras já haviam sido contempladas pelas propostas feitas pelo governo e a paralisação seguiu. O desenrolar dos fatos desmente essa versão. Não vejo porque essas empresas ainda teriam interesse em ficar paradas. Existe uma enorme demanda por carga, então imagino que as transportadoras queiram os caminhões rodando para ganhar dinheiro.

Qual sua opinião sobre rumores de infiltração político-partidária?

Mais uma vez, se encaixa na tentativa do governo de deslegitimar este movimento. Por outro lado é inegável que há grupos tentando cooptar a mobilização para fazer política partidária. Ontem, o Movimento Brasil Livre (MBL) esteve entre os caminhoneiros na Régis Bittencourt, em São Paulo. Grupos que pedem uma intervenção militar fazem o mesmo e encontram alguma aceitação entre os motoristas, que não são todos. Essas investidas são facilitadas pela natureza heterogênea e volátil da categoria.

Para onde vai o movimento?

Não é possível fazer previsões, mas sei que, pelo menos em São paulo e Minas (Gerais), já existe diá- logo entre grupos de caminhoneiros e petroleiros, que podem entrar em greve a qualquer momento. Isso não significa que todo o movimento vai comprar a pauta dos petroleiros, mas alguns grupos estão incorporando as críticas da outra categoria. De acordo com os petroleiros, a administração Parente prioriza a importação de derivados de petróleo, deixando o parque de refino da empresa ocioso, o que impacta no preço final. Alguns caminhoneiros já fazem essa associação.

Todas as pautas giram em torno do preço do diesel. Na sua opinião, qual é a solução?

Acredito que a solução tem que passar pela discussão da política de preços da Petrobras. Só diminuir a tributação pode gerar um impacto social muito mais profundo. Sabemos que o PIS-Cofins são impostos direcionados para a seguridade social. A isenção total desses tributos vai causar um desequilíbrio no recolhimento da União, que será repassado para a sociedade em geral, inclusive, os caminhoneiros. É fato que houve um aumento das alíquotas sobre os combustíveis e isso pode ser colocado em perspectiva, mas a solução não pode ser proibir o recolhimento. Até porque porque, enquanto a política de preços da Petrobras estiver atrelada ao mercado internacional, os preços podem continuar subindo de maneira imprevisível. Focar só os impostos pode ser um tiro no próprio pé para governo e caminhoneiros.

Como jornalista, qual sua análise sobre a cobertura das mobilizações?

Está todo mundo pisando em ovos. A cobertura serve aos fatos, mas não analisa, que mostra efeitos e não as causas. Mas isso se explica, em parte, pela falta de referências, por haver grupos de caminhoneiros tão heterogêneos sem uma liderança clara e as pautas evoluírem a cada dia. Ainda assim, alguns veículos têm simplesmente reproduzido o discurso do governo de suspeição. Aliás, há uma ironia no fato de esse governo se servir da acusação de locaute, historicamente um apontamento de organizações como sindicatos e partidos de esquerda.