Crise política na Itália e Espanha gera onda vendedora de ações na Europa

Os mercados acionários europeus encerraram o pregão desta terça-feira, 29, em forte baixa, à medida que os agentes continuaram a monitorar a turbulência política na Itália e na Espanha, o que formou um cenário de aversão a ativos considerados mais arriscados.

O índice pan-europeu Stoxx-600 fechou em queda de 1,38% (-5,38 pontos), aos 384,44 pontos. O subíndice de bancos apresentou perda de 3,20%, encerrando o dia cotado a 164,52 pontos.

A onda vendedora de ações em solo europeu segue a decisão do presidente da Itália, Sergio Mattarella, de bloquear a formação de um governo eurocético, revivendo preocupações sobre a estabilidade na zona do euro e sobre uma crise política na terceira maior economia da zona do euro. Já no domingo, o populista Movimento 5 Estrelas (M5S) estudava pedir o impeachment de Mattarella, enquanto o partido de extrema-direita Liga procurava antecipar as eleições gerais. Na segunda-feira, o presidente italiano convidou o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) Carlo Cottarelli para tentar formar um governo, mas a Liga, o M5S e o Forza Italia já afirmaram que não votarão a favor de um governo comandado por Cottarelli.

Nesse sentido, cresceram as apostas de que eleições antecipadas se aproximam em solo italiano. De acordo com a agência Ansa, o novo pleito pode ocorrer em 29 de julho. No entanto, crescem as expectativas de que tanto a Liga quanto o M5S possam ser favorecidos à medida que, nas mais recentes pesquisas de opinião, as duas siglas eurocéticas aparecem com ainda mais fôlego do que nas eleições gerais realizadas em março. "A ascensão do sentimento contrário ao euro na Itália é a força motriz por trás da pressão vendedora. A Liga e o M5S estão inclinados a ganhar ainda mais terreno no país, o que não é bom para a zona do euro e para a União Europeia", disse o analista de mercados David Madden, da CMC Markets UK.

Com o forte noticiário político na Itália monitorado pelos investidores, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, afirmou que o destino da Itália "não está nas mãos dos mercados financeiros". Ele disse, ainda, que, independentemente do partido no poder, os italianos são membros fundadores da UE, "que tem contribuído imensamente para a integração europeia". Já o presidente do Banco da Itália, Ignazio Visco, que também integra o conselho diretivo do Banco Central Europeu (BCE), disse que os movimentos dos mercados nos últimos dias "só podem ser explicados por razões emocionais", mas ressaltou que a Itália ainda está um pouco distante de perder a credibilidade internacional.

Além disso, a Espanha também viu suas ações serem castigadas enquanto o primeiro-ministro Mariano Rajoy enfrenta, na sexta-feira, uma moção de desconfiança. "Também existe a possibilidade de vermos uma eleição geral na Espanha nos próximos meses, e os investidores estão usando isso como uma desculpa para desfazer posições em ações", comentou Madden em nota a clientes.

O setor bancário nos dois países foi o mais penalizado. O índice FTSE-MIB, da bolsa de Milão, sofreu tombo de 2,65%, a 21.350,88 pontos. Intesa Sanpaolo (-4,09%), Banco BPM (-6,73%), UniCredit (-5,61%) e Banca Carige (-3,90%) contribuíram para a forte queda no setor bancário. Em solo espanhol, o índice Ibex-35, de Madri, fechou em baixa de 2,49%, aos 9.521,30 pontos. Entre os bancos, o BBVA caiu 4,17%, o Banco de Sabadell despencou 6,82% e o Santander cedeu 5,43%.

Todas as outras praças europeias foram afetadas pela crise política na Itália e na Espanha. O índice FTSE-100, da bolsa de Londres, fechou em queda de 1,26%, aos 7.632,64 pontos. Já em Paris, o CAC-40 perdeu 1,29%, aos 5.438,06 pontos. Na bolsa de Lisboa, o PSI-20 cedeu 2,61%, aos 5.369,19 pontos, enquanto o índice DAX, da bolsa de Frankfurt, recuou 1,53%, aos 12.666,51 pontos.

Outros indicadores mostraram a profundidade da crise italiana. O risco Itália medido pelo Credit Default Swap (CDS), derivativo que protege contra um possível calote da dívida soberana, apresentou forte avanço. O papel de cinco anos italiano subiu para 276 pontos-base, no maior nível em mais de quatro anos, ficando acima do risco Turquia, cujo papel do mesmo prazo estava em 261 pontos-base, de acordo com dados da IHS Markit que circularam entre os operadores. Já o CDS da Espanha saltou 20 pontos-base, fechando em 95 pontos, no maior nível em 22 meses.