Dólar bate recorde com tensão na Argentina pela rolagem de US$ 25 bilhões em Lebacs

Um dia de quase tempestade perfeita levou ontem o dólar a bater sua maior cotação em 25 meses, ao fechar em  R$ 3,6267, com alta de 0,74%. Foi o maior valor do dólar desde os R$ 3,6855 de 7 de abril de 2016. O dólar já subiu 3,57% em maio e 9,48% no ano. Ontem, o Banco Central antecipou a venda de dólar à vista, para dar mais liquidez ao mercado, mas o efeito durou pouco. A maior cotação anterior, estava ligada ao temor de que o impeachment de Dilma não avançaria - a presidente preparava a nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil, que não se consumou - e o impeachment avançou. 

Agora, o mercado cambial da Argentina está à beira de um ataque de nervos com o temor de que o mega resgate de US$ 25 bilhões, em Letras do Banco Central (Lebac) não consiga ser rolado hoje pelo BCRA. Isso aumentou a pressão local sobre o dólar que  subiu a 24,999 pesos, acumulando alta de 33% no ano.  Na Argentina, já há economistas temendo que o empréstimo de US$ 30 bilhões, semi aprovado pelo FMI e  encorajado ontem pelo presidente Donald Trump, seja insuficiente se a rolagem falhar. Ao contrário do Brasil, que caminha para saldo comercial de US$ 67 bilhões e tem US$ 380 bilhões em reservas, a Argentina deve ter déficit comercial de US$ 10 bilhões este ano e já queimou US# 10 bilhões das reservas, hoje abaixo de US$ 54 bilhões. No Brasil, situações super especiais se refletiram diretamente no câmbio. À pressão vizinha se somaram as incertezas do panorama eleitoral (pesquisa CNT/MDA mantém as chances da ida de Lula ao segundo turno, com Bolsonaro, caso consiga manter a candidatura).

 Outro fator é que parece ter chegado ao fim o grande diferencial de juros que atraía capitais ao mercado brasileiro. Hoje começa o primeiro de dois dias de reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central que decide amanhã se baixa a Selic (piso dos juros no país) em mais 0,25 ponto percentual, a 6,25% ao ano. 

Como chama a atenção o Bradesco, que prevê juros de 6,25% em dezembro, mas alta para 8% da Selic até dezembro de 2019, o último lance do longo ciclo de baixa da Selic (iniciado em novembro de 2016, quando estava em 14,25% ao ano e caiu para 14% ao ano) está ocorrendo quando a presidente Federal Reserve de Cleveland (Ohio), Loretta Mester, que integra o Federal Open Market Comitee (FOMC), a fonte de inspiração do Copom, lembrou ontem que as mudanças na perspectiva da economia (pressão inflacionária vinda do petróleo e maior aquecimento do PIB) podem levar a uma alta nos juros americanos maior do que a esperada inicialmente. Ou seja, se houver uma subida de 0,25 p.p. (simultânea à queda de 0,25 p.p. da Selic), o diferencial cai 0,50 p.p. Uma escalada de altas previstas por Loretta (outro salto de 0,25p.p. ou um duplo 0,25 p.p.) reduziria o diferença em 0,75 p.p. ou até a 1 ponto percentual. 

As dúvidas no mercado financeiro brasileiro são grandes, a ponto de o BC antecipar ontem a rolagem integral de contratos de swap cambial que venceriam em junho, agosto novembro e janeiro de 2019 e de injetar dinheiro novo no mercado lançando hoje até o fi m do mês US$ 200 milhões elevando a colocação líquida de swaps de US$ 2,805 bilhões para US$ 3 bilhões. Em 1º de junho, haveria um total de 113.000 contratos de swap, mas a BC já renovou 62.300.