Feira realizada há 23 anos no 1º de Maio recebeu 30 mil em busca de vaga; em 2017 foram 4 mil

Saem as camisas e bandeiras, entram em campo currículos e documentos. Foi assim que uma multidão de desempregados chegou ao estádio Nilton Santos (Engenhão) em busca de 5 mil vagas de empregos oferecidas por mais de 30 empresas em uma feira organizada pela Comunidade Católica Gerando Vidas, ontem, no Dia do Trabalhador. De acordo com a direção do projeto, que chega a sua 23ª edição, mais de 30 mil pessoas foram ao estádio, duas vezes o público do primeiro jogo da final do Campeonato Carioca entre Vasco e Botafogo. 

Os portões foram abertos por volta das 8h da manhã, mas, na segunda-feira (30), véspera do evento, uma grande fila já se formava no entorno do estádio. A procura assustou os organizadores, que iniciaram a divulgação três dias antes, apenas 72 horas antes da feira. Realizada anualmente desde 1996, a “Festa do Trabalhador” recebe entre três e quatro mil pessoas a cada 1º de Maio. Dessa vez, a demanda anormal causou tumulto e muita gente não foi atendida. “Trabalhamos com ordem de chegada e encaminhamos apenas uma pessoa por vaga, para empregar, de fato, quem nos procura. Então, infelizmente, cerca de 25 mil ficaram sem atendimento”, lamenta Paulo Vasconcellos, um dos coordenadores e fundador do projeto. “A essas pessoas, peço que acompanhem as nossas redes, porque quase toda semana organizamos feiras menores em paróquias espalhadas pela cidade”. A cada evento, o grupo oferece pelo menos 200 vagas. Quem se candidata, preenche um formulário e recebe um documento com nome da empresa, endereço e data da entrevista. 

O pedreiro Márcio de Souza, 38, foi um dos que não conseguiu a sonhada entrevista. Ele procura um emprego de carteira assinada há dois anos, desde que deixou a transportadora ZiranLog. “Enquanto não consigo nada, vou fazendo uns biscates, uma obra ali e outra aqui. Esse é o pior momento pra mim. Sou do Rio, já morei em Minas e São Paulo, mas nunca vi uma crise dessas”, conta. Márcio sempre conseguiu emprego em grandes empresas, na maioria das vezes, empreiteiras. “Há alguns anos a gente vinha se acostumando com um conforto razoável. Eu sempre viajava para visitar meus filhos, mas agora falta até para pagar as contas”, reclama. Hoje, a renda mensal tem vindo do pagamento parcelado de um trabalho antigo. 

O coordenador Paulo Vasconcellos conta que, desde meados do ano passado, não recebe nenhuma vaga da Construção Civil, setor importante na história do projeto. O perfil das vagas oferecidas mudou drasticamente. A organização atribui essa mudança à crise econômica nacional, que afetou em cheio as empreiteiras e o setor de óleo e gás. Nessa conta também entra a crise nas contas do governo do Rio, igualmente responsável por um grande número de postos de trabalho, que surgiam por meio da contratação de empresas terceirizadas, sobretudo de manutenção e limpeza. “O maior contratante sempre foi o poder público, mesmo que indiretamente. Com o governo quebrado, essas vagas ‘tampa buraco’, que pagam um salário mínimo, estão sumindo”. Demitidos nesses setores, muitos trabalhadores estão migrando para o setor terciário. “A metade das vagas que oferecemos hoje vieram do comércio. São para vendedores, caixas e estoquistas”, explica Paulo. Redes de supermercados, farmácias e fast food, além de cadeias de varejo como as Lojas Americanas, têm sido os principais empregadores. 

A remuneração baixa e as condições de trabalho nada fáceis do terceiro setor não foram impeditivos, sobretudo para jovens que buscam a primeira renda. Era o caso de Jaqueline da Silva, 19, e duas outras amigas, que foram ao Engenhão em busca de uma oportunidade em qualquer área. Recém formada no Ensino Médio, Jaqueline fez um curso de Departamento Pessoal no Senac e gostaria de trabalhar na área. Não têm sido fácil. “Sinto que sem experiência é praticamente impossível”, conta ela, que mora em Inhaúma com uma tia aposentada e quer um salário mínimo para ajudar nas contas da casa. Sua mãe, que sempre trabalhou de carteira assinada, está na mesma situação e agora vive de bicos como doméstica e cuidadora de idosos. “Amigos dedicados que se formaram comigo na escola também não conseguem o primeiro emprego”, explica a jovem, que levava nas mãos um envelope pardo com uma dezena de currículos. Vamos continuar a procurar. Agora vamos ao Norte Shopping atrás de vagas de vendedora. Aproveita e leva o meu currículo lá para o seu jornal”, se despede sorridente.