IPCA, entre o forno e o freezer

O ex-ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, costumava definir a taxa de inflação de maneira quase grotesta: “Se você tem os pés no forno e a cabeça no freezer, a temperatura média do corpo fica razoável”. Assim é o cálculo da inflação. O IPCA, o índice oficial, apurado pelo IBGE nas 13 maiores capitais do país, compila os preços de produtos e serviços que impactam as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos (R$ 37.480 até dezembro). Já o INPC acompanha os gastos das famílias até cinco salários mínimos (R$ 4.685). 

No INPC os alimentos representam mais de 30% das despesas das famílias. Já no IPCA, fica ligeiramente abaixo de 25%. Com a queda de 2,70% nos alimentos (alta de 9,15% em 2016), o INPC subiu apenas 2,07%, contra 2,95% do IPCA, em cujo cálculo os alimentos tiveram queda de 1,87%, após alta de 8,62% em 2016. A baixa inflação de 2017 ficou na conta da supersafra agrícola que derrubou os preços dos principais alimentos. Mesmo com a pressão, a partir de julho, quando a Petrobras passou a adotar reajustes (para cima e para baixo) quase diários dos combustíveis, o 2º semestre ainda teve a menor inflação (1,74%) dos últimos quatro anos (1,76% em 2016; 4,24% em 2015 e 2,57% em 2014), segundo os dados do IBGE.

A comparação entre 2016 e 2017 pode ser feita à mesa, em torno de um bife com fritas, arroz e feijão. Em 2016, o arroz estava 16,16% mais caro que em 2015, o feijão mulatinho +101,59% (o preto +78,05%); o alho, encarecido em 19,33%, o óleo de soja foi onerado em 13,51%, e as carnes ficaram 3,01% mais caras. Em conta, naquele ano, só a batata-inglesa, que teve baixa de 29,03%. Pois em 2017, tudo ficou mais barato: o arroz caiu 10,86%, o feijão preto baixou 36,09% e o mulatinho 44,62%, o alho teve nova queda de 22,50%, as carnes ficaram 2,50% mais em conta, sendo que o filé mignon barateou 18%. O óleo de soja reduziu em 5,40% no preço e a batata-inglesa ficou 3,91% mais leve no bolso.

O fenômeno foi sentido na alimentação em domicílio, cujo custo caiu 4,85%, contrabalançando a alta de 3,83% na alimentação fora de casa (na média, a alimentação ficou 1,87% mais barata). O fenômeno da produção de quentinhas para venda nas ruas da cidade foi o jeitinho de muitas famílias para reforçar a renda quando o desemprego atingiu um ou dois membros do clã. A questão é que o GLP (gás de bujão) ficou 16% mais caro e a energia elétrica residencial 11,77% mais elevada. No Rio, servido pela Light, a conta encareceu 12,24% e o bujão aumentou 12,12% (sem contar o pedágio das milícias e dos chefões das comunidades).

O Banco Central procurou desculpar seu erro de ter chegado ao fim do ano de 2017, ao administrar o sistema de metas de inflação, com um resultado de 2,95%, abaixo, pela 1ª vez, do piso mínimo (3%) da meta que era de 4,5%, lembrando que não pode fazer política monetária nem quando os preços dos alimentos disparam nem quando caem. Está certo, idem com relação aos preços administrados pelos governos (tarifas de energia, planos de saúde, pedágio, combustíveis, transportes etc). 

No 2º semestre a Petrobras quis seguir um irreal acompanhamento realista dos preços dos combustíveis no mercado mundial. A questão é que até março vigora o inverno no Hemisfério Norte, que mais consome combustíveis para calefação e aquecimento das casas. Aqui, 95% dos lares usam o GLP e o gás natural para aquecer as panelas. O que pode anular a queda dos preços dos alimentos. Taí mais um tema para o Banco Central estudar mais e errar menos em 2018. Em 2017, a queda da inflação teve pouco a ver com a ação do Banco Central. Que ainda deixou a desejar em forçar os oligopólios bancários a baixar os juros para as empresas e os consumidores (dos quais já cobram tarifas que subiram acima de 8% em 2017). Pelo menos, que os juros bancários acompanhassem a queda de 60% na taxa Selic, o piso de captação do sistema. Será que foi esse o motivo de Ilan Goldfajn ter sido eleito “o banqueiro central do ano” pela revista The Banker?