'WSJ': Para Trump, aumento no déficit fiscal é perigo claro e presente

Fed prevê uma taxa de crescimento de longo prazo de apenas 1,8%

Matéria publicada nesta terça-feira (7) pelo The Wall Street Journal observa que para uma economia que não está em recessão, os Estados Unidos estão enfrentando uma dos cenários fiscais mais sombrios desde a Segunda Guerra Mundial. Uma questão que o presidente Donald Trump terá de resolver em breve: Até que ponto ele está disposto a adotar déficits ainda maiores?

Journal afirma que a resposta determinará se a agenda doméstica de Trump atende às expectativas ambiciosas dos mercados e suas próprias.

De acordo com o noticiário, antes que Trump faça qualquer coisa, déficits orçamentários crescentes já se encaminham para elevar a dívida federal americana, como parte do produto interno bruto, a níveis recordes. Isso tornará o cumprimento das promessas de cortar impostos e aumentar os gastos sem piorar o déficit extremamente difícil. Ao contrário de períodos passados, os déficits estão inchando não por causa de uma crise econômica ou por um impulso de curto prazo nos gastos supérfluos, mas por causa dos custos de cuidar de uma população que envelhece. Medicare, o seguro médico oferecido pelo governo aos aposentados americanos, e o Seguro Social, o sistema de previdência do país, são os maiores propulsores dos gastos projetados. Dez anos atrás, cerca de 6.700 americanos completavam 65 anos, a idade da aposentadoria, todos os dias. O número hoje é 9.800 americanos por dia, e ele deve subir para 11.700 em 2026.

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O envelhecimento da população não só impulsiona os gastos federais em saúde e aposentadoria, mas também diminui a base tributária e pode levar a taxas mais lentas de crescimento da renda pessoal e dos gastos domésticos. Um crescimento econômico mais rápido resolveria muitos problemas de Trump. Mas duplicar a taxa de crescimento para 4%, objetivo declarado do presidente, seria difícil quando a produtividade e a força de trabalho estão crescendo lentamente. Outro obstáculo é que o desemprego já está baixo. O Federal Reserve, o banco central americano, pode se transformar em um obstáculo ao crescimento acelerado se ele ameaçar uma queda ainda maior do desemprego e gerar o risco de disparar a inflação. O Fed prevê uma taxa de crescimento de longo prazo de apenas 1,8%, destaca Wall Street Journal.

“Não será possível usar o crescimento para sair dessa [situação]. É muito grande”, diz o deputado do Partido Republicano Tom Cole. Ele expressa preocupação em relação a depender de projeções de crescimento favoráveis através do uso da chamada pontuação dinâmica, e presumir que os cortes de impostos estimulariam a economia o suficiente para compensar materialmente as perdas imediatas de receita. “Eu me preocupo [com o risco de] que estamos muito obcecados com a pontuação dinâmica, e ela nunca funciona da maneira como os gurus dos impostos nos dizem que irá”, diz Cole.

Duas tendências mantiveram os déficits abaixo das previsões nos últimos anos. Primeiro, a baixa inflação e o fraco crescimento global mantiveram os juros e os custos de empréstimos federais baixos. Em segundo lugar, a inflação diretamente ligada aos serviços de saúde tem sido mais lenta do que o esperado. Não está claro quanto tempo esses dois cenários durarão.

O CBO, Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA espera que, sob a legislação atual e presumindo que a economia continue a se expandir modestamente, os déficits aumentarão de 2,4% no ano fiscal que começa em outubro para 4,2% gradualmente ao longo dos quatro anos seguintes.

Segundo a reportagem as duas últimas vezes que os republicanos recuperaram a Casa Branca dos democratas, em 1981 e 2001, eles conseguiram grandes cortes de impostos. O presidente Ronald Reagan herdou déficits em queda, e George W. Bush herdou superávits orçamentários com projeções para crescer. A dívida pública também era muito mais baixa, em 25% e 31% do PIB, respectivamente, em comparação com os 77% de hoje. Confrontado com um agravamento das perspectivas de déficit quando assumiu o poder em 1993, o presidente Bill Clinton renegou a promessa de campanha de cortar os impostos da classe média. Trump e sua equipe ainda não detalharam o escopo de sua agenda fiscal e os déficits que ela poderá exigir.

Uma questão preponderante: será que o novo presidente projetará mudanças tributárias que não aumentam os déficits, uma meta dos republicanos da Câmara, ou manterá os planos esboçados durante a campanha, que dependiam fortemente do crescimento para compensar acentuadas perdas de receita?

Trump demonstrou inclinação para uma maior tolerância aos déficits. “Um orçamento equilibrado é bom, mas às vezes você tem que abastecer o poço, a fim de realmente fazer a economia deslanchar”, disse Trump à rede de TV Fox News no mês passado. “Nosso exército é mais importante para mim do que um orçamento equilibrado.”

Ele poderia enfrentar a resistência dos falcões econômicos de seu próprio partido, que são mais conservadores e preferem uma política monetária mais estrita. Os legisladores republicanos racharam fortemente ao longo dos últimos dois anos em relação à possibilidade de aumentar os gastos militares sem aumentar o déficit.

Os legisladores estão ainda mais preocupados em aumentar os déficits com gastos com infraestrutura, uma iniciativa na qual o apetite de Trump parece ainda mais desconectado de outras autoridades em exercício do Partido Republicano. Membros do governo estão procurando maneiras criativas de financiar tais gastos.

Grandes cortes podem ser populares em resoluções simbólicas do orçamento oferecidas em meados do ano fiscal. Mas analistas da Beacon Policy Advisors, uma consultoria de políticas públicas, disseram em um relatório que, quando se trata de realmente aprovar as contas de gastos no fim do ano fiscal, os legisladores republicanos vão se opor a reduções específicas que afetem diretamente seus próprios eleitores.