'WSJ': Criado há 120 anos, índice Dow Jones deveria ser atualizado

Artigo de James Mackintosh  diz que é hora de abandonar o Dow

Artigo publicado nesta quinta-feira (26) pelo The Wall Street Journal analisa que depois de 120 anos, a venerável Média Industrial Dow Jones é um anacronismo embaraçoso, abandonado por profissionais e amado apenas por uma mídia, que na maior parte, não o conhece profundamente. O índice precisa ser atualizado ou, melhor, substituído. O Dow foi inventado por um fundador deste jornal. Editores do The Wall Street Journal participam do comitê que decide sobre as 30 empresas que compõem o índice. E as notícias na TV há muito apontam o Dow como o indicador da atividade de Wall Street.

Mas o trabalho de um colunista não é adular. É apresentar fatos. E o fato é que a Média Dow é profundamente falha, afirma o autor do texto para The Wall Street Journal. Ela não é um barômetro eficaz do mercado mais amplo — na verdade, ela sequer foi projetada para ocupar esse papel. Não é um bom guia para investir. Não é calculada de forma sensata. E não é nem mesmo correta.

> > The Wall Street Journal We’re Already at Dow 30000, You Just Don’t Know It

Comecemos pelo último ponto, continua o autor. Se erros que datam dos dias do papel e da régua de cálculos forem corrigidos, a Média Dow, que ontem atingiu oficialmente pela primeira vez os 20 mil pontos, de fato superou os 30 mil pontos pela primeira vez no mês passado, de acordo com cálculos da firma de serviços financeiros Birinyi Associates.

O maior erro veio do recálculo simplista da média quando o número de ações que a compõem passou de 12 para 20. O registro oficial da Dow mostra uma queda de 24% — o pior dia de sua história — quando o mercado reabriu em 1914, após uma pausa de quatro meses por causa do início da Primeira Guerra Mundial. Na verdade, o mercado e a Dow subiram naquele dia, mas o registro foi recalculado sem nenhum ajuste quando o índice se expandiu de 12 para 20 ações dois anos mais tarde. Como algumas das novas ações adicionadas tinham cotações mais baixas, a nova versão da média caiu. Então, não há realmente nenhuma razão para se empolgar com o índice superando 20 mil pontos.

Mais importante do que o nível do índice é o método usado para calculá-lo. A Dow é uma média de preços da ação, o que era rápido e fácil de calcular nos dias do papel e régua de cálculos. Mas os preços das ações são arbitrários, pois dependem de quantas ações são emitidas; algumas empresas têm preços muito altos, o que lhes dá mais influência sobre a Dow, mesmo que elas possam ser menos valiosas em geral. Os índices modernos são ponderados pelo valor de mercado, muitas vezes ajustado pelas ações em circulação disponíveis, dando uma melhor representação do mercado geral ou das ações que podem ser compradas.

O resultado é que o índice Dow pode se comportar de forma muito diferente do mercado mais amplo, como tem ocorrido nos últimos três meses. Desde o início de novembro, a Média Dow subiu 10%, em comparação com 7% para o S&P 500, um índice mais amplo.

Um grande motivo é o Goldman Sachs Group Inc. O estranho foco da Dow no preço das ações dá muito mais peso ao Goldman do que o valor de mercado do banco merece. Ao preço de US$ 236,59 por ação, é o papel mais caro do índice, o que significa que ele tem o dobro de efeito sobre a média do que a Apple Inc., que tem um valor de mercado mais de seis vezes superior que o do Goldman.

A Dow também tem sido beneficiada recentemente por ter excluído os tediosos papéis de empresas de serviços públicos ou grupos imobiliários. As empresas de serviços públicos, juntamente com as de transporte, são excluídas com base no fato de a Dow ser uma média industrial. No entanto, o índice deixou de ser exclusivamente industrial quando a varejista Sears, Roebuck foi incluída, em 1924.

As mesmas razões explicam o porquê de o índice Dow ter ficado atrás do mercado na alta iniciada em março de 2009. É verdade que a Dow e o S&P tenderam a se mover em sintonia e nos últimos 20 anos seus retornos foram notavelmente semelhantes.

Mas, em outros períodos, os dois indicadores divergiram significativamente. Por exemplo, a Média Dow Jones fica atrás em mais de 30 pontos percentuais do ganho de 234% acumulado pelo S&P 500 desde seu nível mais baixo depois da quebra do banco Lehman Brothers.

Tudo isso faz com que o Dow seja um indicador ruim do que os investidores estão fazendo, uma das grandes razões para a existência de um índice. A outra grande justificativa para qualquer índice de mercado existir — ou mesmo uma média — é fazer o dinheiro trabalhar. Aqui, a Dow também é uma perdedora, à medida que Wall Street reconhece seus inconvenientes. Howard Silverblatt, da S&P Dow Jones Indices, diz que apenas US$ 35,9 bilhões em fundos seguem a Média Dow, em comparação com os US$ 2,1 trilhões que são indexados ao S&P 500.

O único aspecto favorável da Média Dow é sua longa história, o que significa que as pessoas sabem o que ela é, ajudada pela seleção das grandes empresas que a compõem. É indiscutivelmente um ícone. Mas até a familiaridade do índice se tornou uma desvantagem. À medida que subia ao longo dos anos, movimentos de 100 pontos, algo que empolga a mídia, que representavam uma variação de 2% no índice há 20 anos, passaram hoje a valer apenas 0,5%.

O Dow já não é propriedade da Dow Jones. Ele foi vendido para uma joint venture da S&P Global e da CME Group Inc. em 2012. Mas é uma marca muito importante para ser aniquilada. Em vez disso, ela poderia se tornar um indicador adequado do mercado se seu nome fosse aplicado a algo do tipo Índice Total Dow Jones do Mercado de Ações dos EUA.

Este é um indicador excelente, mas amplamente ignorado, do que realmente está acontecendo no mercado e ele ampliaria a Dow de 30 ações para 3.850. Após mais de um século de serviços, a Média Dow merece ser atualizada, finaliza WSJ.