'WSJ': Ajuste fiscal de Trump pode elevar déficit comercial dos EUA

Matéria publicada nesta quinta-feira (6) pelo The wall Street Journal conta que das incontáveis posições políticas que o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, adotou com o passar do tempo, a mais duradoura é sua crença de que uma concorrência estrangeira injusta sobrecarregou os EUA com um pernicioso déficit comercial. Reduzir esse déficit reescrevendo acordos comerciais e impondo tarifas é, agora, a base de sua plataforma. Por isso, é irônico que o resto de suas promessas, se cumpridas, irá produzir o oposto: um déficit comercial maior ainda. A economia convencional prevê que os cortes de impostos financiados por déficit propostos pelo candidato elevaria os juros, atraindo capital estrangeiro e valorizando o dólar. O resultado seria importações mais caras, exportações menores e uma dívida externa maior, eventos que provavelmente intensificariam os instintos protecionistas de Trump.

Segundo a reportagem os conselheiros econômicos de Trump discordam. Um estudo preparado por Peter Navarro, economista da Universidade da Califórnia em Irvine, e pelo investidor Wilbur Ross prevê que o plano econômico de Trump eliminará o déficit comercial ao adotar uma postura mais dura na negociação com parceiros comerciais estrangeiros. Mas isso está fora de sincronia com a economia tradicional, que prevê que a balança comercial de um país é determinada pela diferença entre o que o país investe e o que poupa, e não por impostos. O prognóstico também contraria a experiência. No início dos anos 80, os cortes de impostos e os gastos militares promovidos por Ronald Reagan sugaram a poupança nacional, enquanto o Federal Reserve, o banco central americano, determinado a reduzir a inflação, elevava os juros repetidamente. O déficit orçamentário e os juros elevados atraíram capital estrangeiro e valorizaram o dólar em 49% entre 1980 e 1985. O déficit comercial saltou de 0,5% do produto interno bruto, em 1980, para 2,6% em 1985. O republicano Reagan era adepto do livre comércio, mas, sob a intensa pressão dos democratas no Congresso e das empresas, lançou uma série de medidas protecionistas, como restrições voluntárias às exportações de carros japoneses. Não funcionou: o déficit comercial continuou crescendo.

O Journal analisa que talvez os juros não subam porque Janet Yellen, a atual presidente do Fed, ou quem Trump indicar para substituí-la, não está preocupada com a inflação. Ou como o grupo de estudos Tax Foundation afirma: os estrangeiros vão emprestar alegremente tudo o que os EUA precisarem sob os juros atuais (uma visão que a agência orçamentária do Congresso não compartilha). Neste caso, conclui a análise da Tax Foundation, o ajuste fiscal de Trump é bom para o investimento e o crescimento, e reduziria o déficit orçamentário resultante entre 33% a 40%. Mas esse cenário também exige mais empréstimos estrangeiros e um déficit comercial maior. “Obviamente, haveria necessidade de importação” substancial de investimentos em resposta aos cortes dos impostos corporativos, diz Alan Cole, que realizou a análise. Navarro e Ross afirmam que o plano de Trump de acabar com a regulação e liberar mais áreas federais para exploração de petróleo, gás e carvão vão estimular o crescimento o suficiente para neutralizar o impacto da redução dos impostos no déficit. Mas isso se baseia em suposições tênues.

O jornal norte-americano observa que por exemplo, eles assumem que menos gastos regulatórios, como com equipamento para reduzir a poluição, elevaria o PIB (no longo prazo, e não no curto), que as petrolíferas iriam correr para explorar as áreas federais recém-abertas, apesar dos atuais preços deprimidos, e que há grandes reservas ocultas de trabalhadores desempregados. Reagan foi um protecionista relutante; Trump não. Seu primeiro instinto, se confrontado com o aprofundamento do déficit comercial, seriam tarifas ou outros impostos. Ainda assim, experiência e teoria indicam que tais ações não reduziriam o déficit e podem até fazer o oposto. A julgar pela oscilação do peso mexicano em função da possibilidade de uma vitória de Trump, a moeda provavelmente despencaria se ele se tornar presidente, ao mesmo tempo em que uma guerra comercial poderia mergulhar o México em uma recessão, acontecimentos que são inequivocamente ruins para as empresas americanas tentando vender para o país vizinho.

Trump, assim, quase certamente teria um grande impacto no comércio. Apenas pode não ser o impacto pretendido por ele, finaliza The Wall Street Journal.