'WSJ': Castigada pela Brexit, libra esterlina desce ao nível mais baixo em 31 anos

Matéria publicada nesta quarta-feira (5) pelo The Wall Street Journal fala que a libra esterlina caiu nesta terça-feira (4) para a sua menor cotação em relação ao dólar em três décadas, mas a bolsa britânica fechou perto de uma marca recorde, ressaltando os cálculos complexos que os mercados estão fazendo à medida que o Reino Unido planeja sua saída da União Europeia. Os investidores temem que a saída possa prejudicar o comércio e o investimento no Reino Unido e danificar o importante setor financeiro do país, considerações que vêm pesando sobre a libra. A moeda caiu drasticamente nos dois primeiros dias da semana, recuando para até US$ 1,2729 ontem, 14% abaixo do nível em que foi negociada em 23 de junho, dia da votação histórica que decidiu pela saída da Grã-Bretanha da UE, que foi batizada de “Brexit”.

Segundo a reportagem o recuo mais recente da libra foi desencadeada pelo anúncio, domingo, feito pela primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, que seu governo começará a deixar a UE em março, acrescentando que a manutenção do acesso privilegiado do país ao seu maior parceiro comercial estava abaixo da necessidade de controlar a imigração em sua lista de prioridades. Mas em um dia de reviravoltas nos mercados britânicos, o principal índice de ações do país, o FTSE 100, fechou perto de um recorde. O disparo foi impulsionado em parte pela crença dos investidores que uma moeda mais fraca pode ajudar as empresas maiores a elevar suas receitas com exportações. Essas empresas são fortemente representadas no FTSE 100, que, como grupo, gera 70% de seus lucros em outros países. De forma mais notável, o índice FTSE 250, que representa empresas menores e mais vulneráveis a choques na economia doméstica, fechou com recorde. Isso ocorre em meio a uma série recente de dados econômicos melhores que o esperado. A desvalorização da libra é uma das razões, já que as exportações britânicas se tornaram mais competitivas. Na segunda-feira, o índice de gerentes de compra do país alcançou seu nível mais alto em dois anos.

O Journal diz que estrategistas de câmbio esperam mais volatilidade para a libra enquanto Londres e Bruxelas negociam os termos da saída britânica. “O tom da primeira-ministra May tem sido intransigente e sugere a possibilidade de uma Brexit dura, sem a manutenção de boas relações comerciais com a UE”, diz Robert Wood, economista do Bank of America Merrill Lynch no Reino Unido. “Esse foi o foco [da queda] da libra nos últimos dois dias”, acrescenta. A libra praticamente não passou de US$ 1,34 desde a votação da Brexit, devido à apreensão dos investidores com os possíveis danos à economia britânica e a probabilidade de novas medidas do Banco da Inglaterra para estimular o crescimento.

Este ano, de acordo com o WSJ, a libra esterlina exibe o pior desempenho em relação ao dólar entre as principais moedas. A maioria das moedas das dez economias mais industrializadas do mundo registra alta em relação ao dólar. A libra, no entanto, caiu 13,6% no ano até agora, mais até que o abatido peso mexicano, que recuou 10,6% por temores dos investidores em relação ao resultado da eleição presidencial nos Estados Unidos. A libra, que já foi a moeda mais importante para o comércio mundial, percorreu um longo caminho de declínio desde que valia US$ 4, em 1945. Ainda assim, os dados econômicos nos meses seguintes à votação da Brexit, em grande parte, superaram as expectativas.

O noticiário afirma que a queda ameaça agravar a divisão entre vencedores e perdedores entre as empresas britânicas, com grandes multinacionais e exportadores se beneficiando e as importadoras — e possivelmente os consumidores — sofrendo com os custos mais elevados. A libra mais fraca ajudou a impulsionar o crescimento do lucro operacional dos principais negócios da farmacêutica GlaxoSmithKline PLC, de 15% no segundo trimestre para 36% no terceiro trimestre.

De acordo com o texto exportadores menores também estão sendo beneficiados. O recuo da libra adicionou “entre 12% e 13% no faturamento” da fabricante de componentes plásticos Osprey Ltd, diz o diretor-gerente Geoff Smith. As vendas em euros da empresa britânica agora valem mais, e a Osprey está oferecendo preços mais baixos em novos contratos. A situação não é tão boa para as empresas que importam materiais ou produtos. O efeito da libra fraca elevou os custos de matérias-primas para as empresas britânicas em agosto ao ritmo anual mais veloz em quase cinco anos. No geral, os preços dos importados subiram 9,3% em relação a agosto de 2015.

O Wall Street Journal fala que ao mesmo tempo, a inflação mais alta, resultante do declínio da libra, poderia tornar mais difícil para o Banco da Inglaterra apoiar a economia com novos cortes de juros e estímulos, enquanto o custo de vida sobe para os britânicos. Muitos analistas dizem que a recente série de dados econômicos favoráveis não vai durar, especialmente porque o investimento está diminuindo em meio às incertezas sobre como ficará o acordo comercial da Grã-Bretanha com a Europa. Essa incerteza exporia a libra a novas quedas.

The Wall Street Journal conclui que muitos legisladores britânicos que apoiaram a Brexit não se abalaram com o recuo da libra. Graham Brady, um parlamentar conservador, disse que haverá reações de curto prazo à votação, mas que a libra esterlina se estabilizaria no longo prazo. Enquanto isso, até 75 mil empregos e 10 bilhões de libras (US$ 12,89 bilhões) de receitas fiscais anuais poderiam ser perdidos se, na esteira da Brexit, o Reino Unido não garantir o acesso à União Europeia para a sua indústria de serviços financeiros, de acordo com um grupo de lobby que representa o setor financeiro.