'The Economist': Temer deve se esforçar para ser o próximo Itamar e não Sarney

Reportagem destaca Lula como primeiro operário a se tornar presidente e Dilma a 1° mulher

Matéria publicada neste sábado (3) pela revista The Economist conta que  a polícia esperava encontrar milhares de manifestantes no último dia do processo de impeachment da presidente do Brasil Dilma Rousseff, mas a esplanada estava estranhamente vazia, decepcionando também os vendedores ambulantes.  Seu ex-vice-presidente, Michel Temer, que foi presidente interino desde maio, foi empossado horas mais tarde e deve terminar seu mandato em 2018.

A reportagem diz que foi um final silencioso após uma era de turbulências. Durante os últimos 13 anos o Partido dos Trabalhadores de Dilma Rousseff manteve-se na presidência. O PT quebrou barreiras. Luiz Inácio Lula da Silva, antecessor e patrono de Rousseff, se tornou o primeiro operário presidente em 2003; ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo. O boom global das commodities ajudou a pagar programas sociais responsáveis por retirar mais 40 milhões de brasileiros da miséria. Muitos brasileiros continuam agradecidos ao PT.

The Economist diz que a sua defesa apaixonada de Rousseff perante o Senado em 29 de agosto mexeu com alguns eleitores e parlamentares. A acusação contra ela, que teria adulterado contas do governo para esconder o tamanho do déficit do orçamento não era uma ofensa passível de impeachment, ela insistiu. Ela comparou situação com a injustiça e tortura que sofreu quando era uma guerrilheiro de esquerda durante a ditadura militar no Brasil de 1964-1985. As elites políticas conservadoras e empresariais estavam perseguindo Dilma novamente, desta vez para sabotar sua política a favor dos pobres, ela sustentou.

> > The Economist Time for Temer

The Economist afirma que sua queda foi provocada pela pior recessão do Brasil, ocasionada em parte pelo escândalo da Petrobrás, envolvendo bilhões de dólares e por último por sua inaptidão política. As pessoas mais afetadas pelas suas políticas foram aqueles que ela mais procurou proteger. Cerca de 12 milhões de brasileiros ou um trabalhador em nove, estão desempregados, um terço a mais do que ha um ano atrás. A economia encolheu 3,8% no segundo trimestre de 2016. Mas com a inflação perto de 10%, o banco central tinha pouca escolha a não ser manter a sua taxa de juros inalterada em 14,25%. Isso, também, é em grande parte culpa de Dilma. Durante seu primeiro mandato, entre 2011-14 ela pressionou o banco para aliviar a política monetária.

Agora Michel Temer promete reanimar a economia, em grande parte, invertendo suas políticas. Sua narrativa sobre privatização, desregulamentação e disciplina fiscal tem animado os investidores, analisa o texto da revista The Economist. 

"O nosso lema é gastar apenas o que nós coletamos", disse ele em seu primeiro discurso na televisão como presidente. Sua equipe econômica, liderada pelo ministro das Finanças, Henrique Meirelles, inspira confiança. 

Entre os eleitores comuns, no entanto, o novo presidente tem pouco apoio, analisa The Economist. Sua taxa de aprovação é inferior a 20%, de acordo com pesquisas recentes. Seu Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) está tão envolvido no escândalo Petrobras quanto o PT, seu aliado por mais de uma década. 

Metade dos brasileiros querem uma chance para escolher um novo presidente em uma nova eleição, relata The Economist. Isso pode curar as feridas abertas pelo falho processo de impeachment, diz João Castro Neves da consultoria Eurasia Group.

Agora a confusão é responsabilidade de Michel Temer

O novo presidente vai começar a hercúlea tarefa de equilibrar as finanças públicas caóticas do Brasil. Dilma Rousseff iniciou sua presidência com um superávit primário (antes do pagamento de juros) de 3,1% do PIB e terminou com um déficit de 2,7%. A deterioração elevou os custos dos empréstimos, o que tornou a situação fiscal ainda pior. O déficit global é um alarmante 10% do PIB.

Se nada for feito, alerta Vilma Pinto da FGV, a dívida pública vai ultrapassar 110% do PIB em 2022, o dobro do valor de quando Dilma tomou posse, e vai continuar a subir. Isso poderia levar a um padrão, ou a um retorno da hiperinflação que arruinou a década de 1990. Essa situação passada foi bravamente coordenada por Itamar Franco, o último vice-presidente, que tomou posse após o impeachment de Fernando Collor, acusado de corrupção, lembra The Economist.

A publicação analisa que uma redução mais rápida do déficit será politicamente doloroso. Os brasileiros querem mais serviços públicos, não menos. Uma pesquisa realizada em julho constatou que um terço dos brasileiros deixou de ter seu seguro de saúde privado em relação ao ano passado por causa de dificuldades econômicas; agora eles dependem de clínicas públicas. Cerca de 14% de crianças estão retirando seus filhos de escolas particulares. As despesas dobraram mais rápido que a economia sob a gestão do PT. 

The Economist concluiu que o congelamento de gastos e a proposta de aumentar a idade de aposentadoria precisa de três quintos maioria em ambas as casas do Congresso para passar. O PMDB de Temer quer delimitar os gastos públicos de saúde e educação, que representam juntos um terço do orçamento federal. 

The Economist avalia que Temer deve se esforçar para ser o próximo Itamar Franco, ao invés de ser visto como José Sarney, um vice-presidente que chegou ao poder inesperadamente em 1985, após o fim do regime militar. Sr. Sarney propôs uma série de planos de combate à inflação que só pioraram as coisas.