'WSJ': Brexit torna fusões e aquisições de empresas britânicas mais complexas

Matéria publicada nesta terça-feira (19) no The Wall Street Journal conta que a forte queda da libra esterlina deflagrada pela decisão britânica de sair da União Europeia deixou muitos conselhos de empresas do Reino Unido na expectativa de receber ofertas de compra oportunistas vindas de empresas estrangeiras. Mas, embora várias fusões e aquisições já tenham sido fechadas desde o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido, também conhecida como Brexit, em 23 de junho, as negociações estão se revelando muito mais complexas do que uma simples corrida por acordos com bons preços. Na semana passada, o conglomerado chinês Dalian Wanda Group Co. informou que sua operadora americana de cinema, a AMC Entertainment Holdings Inc., concordou em comprar a maior rede de cinemas da Europa, o Odeon & UCI Cinemas Group, com sede no Reino Unido, por 500 milhões de libras (US$ 650 milhões). A AMC informou que a libra desvalorizada foi o fator mais importante para o acordo, e seu diretor-presidente, Adam Aron, alertou que “pode haver uma explosão de compradores dos Estados Unidos interessados em [empresas] do Reino Unido”. Na mesma semana, a varejista britânica de descontos Poundland Group PLC informou que concordou em ser vendida por 600 milhões de libras para a varejista Steinhoff International Holdings NV, que tem sede na África do Sul e negocia suas ações na Alemanha. Um porta-voz da empresa preferiu não comentar se a Brexit desempenhou um papel no fechamento do negócio, mas disse que as discussões estavam sendo realizadas muito antes do referendo.

Segundo a reportagem, o primeiro acordo internacional fechado depois do referendo foi, na verdade, uma aquisição feita por uma empresa britânica no exterior: no início de julho, a atacadista de decoração Melrose Industries PLC informou que iria comprar a fabricante americana de sistemas de ventilação e segurança Nortek Inc., que negocia suas ações na bolsa de Nova York, por US$ 1,44 bilhão em dinheiro. Segundo executivos, a negociação também já vinha sendo feita antes da Brexit e o câmbio já estava fixado para uma captação de recursos em Londres que financiou a compra. O acordo de US$ 32 bilhões fechado ontem, pelo qual o conglomerado japonês de internet e telecomunicações SoftBank Group Corp. vai comprar a britânica ARM Holdings PLC, empresa responsável pelo design de microprocessadores que fazem funcionar 95% dos smartphones produzidos no mundo, destaca a complexidade dessas negociações. Quase toda a receita da ARM vem de fora do Reino Unido e o preço de sua ação explodiu desde o referendo. No fechamento de sexta-feira, a cotação estava 17% acima da registrada no dia da votação. A alta mais do que compensou a desvalorização de 13% da libra ante o iene no mesmo período, o que significa que o SoftBank provavelmente teria pago menos pela ARM se tivesse feito o negócio antes do referendo de 23 de junho. O diretor-presidente do SoftBank, Masayoshi Son, disse durante uma coletiva de imprensa, depois de anunciar a compra da ARM, que ele não foi influenciado pela ocorrência da Brexit e que se encontrou com o presidente do conselho da ARM, Stuart Chambers, pela primeira vez há duas semanas — depois da votação da Brexit.

A Brexit “não afetou minha decisão” de comprar a ARM, disse ele. Son acrescentou que a recente desvalorização da libra depois do referendo britânico não propiciou nenhuma redução no preço pago.

O Journal diz que os executivos de bancos e de empresas compradoras têm feito frequentemente uma outra pergunta sobre os alvos potenciais no Reino Unido: como o novo governo da primeira-ministra Theresa May vai reagir? No discurso que fez na semana passada, antes de tomar posse, ela adotou um tom de cautela em relação às aquisições de empresas britânicas importantes, esboçando uma política que permitiria que o governo ajudasse a defender setores estrategicamente importantes de investidas estrangeiras. No discurso, ela criticou governos anteriores por permitir que a Kraft Foods Inc.comprasse a fabricante de chocolates Cadbury, em 2010, e “quase” permitir que a PfizerInc. comprasse a AstraZeneca PLC, em uma oferta hostil gigantesca de US$ 160 bilhões feita em 2014. A Pfizer encerrou a negociação depois de a AstraZeneca rejeitar suas várias ofertas. Nesta segunda-feira (18), autoridades britânicas viram com bons olhos a compra do SoftBank. A empresa japonesa prometeu manter a sede da ARM na Inglaterra e dobrar o número de funcionários. As autoridades inglesas disseram que o acordo mostra que as empresas britânicas ainda são atraentes para investidores estrangeiros, apesar da Brexit.

O WSJ finaliza o texto falando que nem todo mundo concorda. Daniel Zeichner, um parlamentar do Partido Trabalhista, de oposição, que representa Cambridge, onde está a sede da ARM, disse ontem que o acordo significa que o Reino Unido está “perdendo o controle de uma de suas empresas mais inovadoras e bem-sucedidas, e pediu ao governo para buscar uma garantia do SoftBank para sua promessa de criação de empregos. No geral, a realização de negócios no Reino Unido caiu este ano, pressionada por obstáculos econômicos, preços maiores dos ativos e incertezas sobre o referendo, segundo executivos de bancos e advogados. O volume de fusões e aquisições que teve empresas britânicas como alvo caiu 40% até o momento, ante o mesmo período do ano passado, segundo a Dealogic.

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