'WSJ': Retorno baixo se espalha para títulos de empresas e de países emergentes

Matéria publicada nesta segunda-feira (11) no The Wall Street Journal, conta que a queda livre dos rendimentos da dívida soberana dos mercados desenvolvidos está empurrando para baixo os juros de títulos no mundo todo, desde os emitidos pelos governos de Taiwan e Lituânia até os das empresas americanas, num momento em que os investidores vão cada vez mais longe em busca de retornos mais altos. A corrida crescente por rendimentos maiores pode virar um problema se as taxas de juros voltarem a subir — provocando uma queda no valor dos títulos atuais e perdas aos investidores — ou se a qualidade do crédito piorar. Os rendimentos nos Estados Unidos, Europa e Japão estão despencando conforme os investidores migram em massa para os títulos dos governos desses mercados em face do crescimento lento, inflação baixa, incertezas econômicas e dos juros negativos agora vigentes em vários países. (O rendimento dos títulos cai quando a demanda, e portando o preço, sobe.). Mesmo na sexta-feira, apesar dos dados fortes de criação de emprego divulgados nos EUA, que ajudaram a alçar o índice de ações S&P 500 para perto de um pico recorde, o rendimento da nota do Tesouro americano, o chamado Treasury, com vencimento em dez anos recuou para a mínima histórica de 1,366% ao ano. Isso aconteceu porque os investidores aproveitaram para comprar mais títulos em meio à breve alta nos rendimentos que se seguiu à divulgação dos dados de emprego.

Segundo a reportagem do Journal, à medida que os rendimentos (ou “yields”, em inglês) continuam caindo nos mercados desenvolvidos, os investidores começam a procurar rentabilidade em outros lugares, derrubando os juros dos papéis com vencimentos cada vez mais longos, nos mercados emergentes e também nos títulos corporativos de maior risco. A decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia deu o impulso mais recente à atual queda nos juros. Em consequência das incertezas políticas e econômicas provocadas pelo referendo de junho, os economistas estão reduzindo suas previsões de crescimento econômico e antevendo mais medidas de estímulo dos bancos centrais. Há agora US$ 13 trilhões em títulos com juros negativos no mercado global, segundo o Bank of America Merrill Lynch, comparado com US$ 11 trilhões antes do referendo e quase zero em meados de 2014. Os títulos do governo da Suíça, por exemplo, inclusive aqueles com o vencimento mais longo, de quase 50 anos, hoje pagam juros abaixo de zero. E quase 80% dos bônus soberanos do Japão e da Alemanha estão com rendimento negativo, segundo o banco Citigroup Inc. Agora, a corrida por rentabilidade se espalha para os títulos de maior risco. E quanto mais os investidores buscam retornos, mais os rendimentos caem. A Itália, que está à beira de uma crise bancária, emitiu cerca de US$ 1,6 trilhão em títulos soberanos com juros negativos. O rendimento dos títulos de dez anos da Lituânia caiu a menos da metade neste ano, para cerca de 0,5% ao ano, segundo a firma de serviços financeiros Tradeweb. Outras regiões do mundo desenvolvido mostram a mesma tendência.

O texto do jornal norte-americano, diz que Rashique Rahman, responsável por mercados emergentes na Invesco, diz que a gestora americana tem recebido um fluxo contínuo de capital de clientes institucionais da Europa Ocidental e da Ásia. Eles estão interessados em dívida com grau de investimento de mercados emergentes que “imitem os rendimentos que eles costumavam obter” em seus mercados domésticos, diz. Os clientes não querem saber se é México, Polônia ou Coreia do Sul, acrescenta. “Eles só querem rendimento mais alto.” Os fundos de mercados emergentes receberam um volume recorde de capital na semana encerrada em 6 de julho, segundo o Bank of America Merrill Lynch. Esse interesse renovado ocorre depois de dois anos de queda nessa classe de ativos, causada, em parte, pelo recuo nos preços das commodities e a valorização do dólar. Outro mercado a que os investidores estão recorrendo é o de dívida corporativa. Cerca de 250 bilhões de euros (US$ 276 bilhões) de títulos em euro emitidos por empresas agora estão sendo negociados com rendimentos negativos, segundo o Bank of America Merrill Lynch. Na quinta-feira (7), a Walt Disney Co., cuja nota de crédito está na faixa de grau de investimento, fez uma emissão de bônus com o menor custo de captação já obtido até hoje por uma empresa americana. Os papéis de dez anos ofereceram juros de 1,85% ao ano e os de 30 anos, de 3%, segundo a LCD, uma unidade da S&P Global Intelligence. Mas a corrida por retornos de hoje pode ser a semente dos problemas de amanhã. A qualidade do crédito nos mercados emergentes, por exemplo, está caindo juntamente com o rendimento dos títulos. Os bônus soberanos desses países devem registrar um número recorde de rebaixamentos de notas de crédito em 2016, segundo a Fitch Ratings. No primeiro semestre, ela e outras agências de classificação já rebaixaram as notas de 15 países, inclusive o Brasil, ante 20 rebaixamentos em todo o ano de 2011, no auge da crise de dívida europeia. Alterações nas políticas monetárias dos grandes bancos centrais, como até uma pequena alta de juros, também poderiam provocar prejuízos nos mercados de dívida soberana. Algo semelhante ocorreu em 2013, quando o banco central dos EUA, o Federal Reserve, cogitou reduzir suas medidas de estímulo econômico. Além disso, dizem analistas, os juros baixos também estão distorcendo os sinais que costumam orientar o mercado de renda fixa. A queda recente nos rendimentos dos Treasuries, por exemplo, seria um evento geralmente associado a uma retração econômica, algo que não parece estar acontecendo nos EUA.