Henrique Meirelles: arrocho de um lado, mais credibilidade de outro

Economistas analisam cenário com provável novo ministro da Fazenda

A confirmação do nome do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda, num eventual governo Michel Temer - caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff seja aprovado - divide opiniões entre economistas. Se por um lado sua gestão no BC durante o governo Lula não é vista com bons olhos, principalmente em função da política de juros altos, por outro seu nome traria credibilidade para a economia, num momento de grande instabilidade.

A economista Maryse Farhi, da Unicamp, não acredita que Meirelles possa "resolver os problemas do país". "Ainda lembro sua passagem pelo governo Lula, como presidente do Banco Central. Henrique Meirelles sempre foi associado com juros altos demais, porque esse é o histórico dele nos oito anos de governo Lula. Ele deixou os juros altos demais, o país despencando e chovendo dinheiro especulativo. Estou convencida de que não é uma boa receita para o país voltar a crescer. O que ele pode herdar de positivo de Joaquim Levy [ex-ministro da Fazenda do governo Dilma] é a possibilidade de recuperação, considerando que a inflação está caindo. Lembro da inflação caindo e ele não abaixando os juros. Tenho certeza que se ele tentar isso agora, não vai conseguir”, afirmou Maryse.

Ela lembra que a economia do país ficou travada no governo Dilma, e não acredita que Michel Temer consiga resolver esta questão. “A situação ficou travada desde o começo de 2015. Havendo uma relação mais harmoniosa com o Congresso, as coisas destravam, mas não dá para afirmar que ele vai conseguir ter maioria", disse.

A economista também criticou as tendências do governo Temer, que para ela poderá se distanciar das causas trabalhistas. “Ele não se preocupa nenhum pouquinho. A coisa pode ficar muito preta. Eu vivi o golpe de 1964, a ditadura, e jamais pensei que nessa idade viveria alguma coisa parecida. Se ele não tentar governar para todos, vai ficar politicamente frágil. Vai ter que pisar em ovos”, analisou Marise Farhi.

Já a também economista da Unicamp Daniela Prates acredita que o provável futuro ministro da Fazenda Henrique Meirelles pode dar um choque de credibilidade e melhorar a economia a partir do ano que vem. Daniela também mostrou-se a favor das privatizações, mas alertou para perigos.

“A situação continua não favorável, como foi antes da crise financeira global durante o governo Lula. Então, do lado internacional, a gente não vai ter muita ajuda. Com a mudança no governo, Temer assumindo a presidência e Meirelles o Ministério da Fazenda, vai haver uma melhora no mercado. Meirelles mostrou como presidente do Banco Central, no governo Lula, uma postura. Ele vai conduzir de forma ortodoxa a política e a economia, como fez quando era do Banco Central. Vai ter um foco positivo de credibilidade”, avaliou Daniela

Ela analisou o processo de normalização da política monetária americana, e relembrou os relatórios divulgados pelo FMI, que mostravam o baixo crescimento brasileiro.

“Temos uma situação na economia internacional, mais geral, que condiciona a economia brasileira. O FMI divulgou em abril os relatórios sobre o panorama mundial, e o Brasil está numa situação de baixo crescimento internacional com riscos. Aumentaram os riscos, segundo o FMI, que o cenário básico não se concretize. Estamos num processo de normalização da política monetária americana, que agora vai ser mais lenta. Há também o fator da economia chinesa e a queda no preço das commodities”, enumerou.

Daniela Prates reforçou que não basta trocar o presidente do Brasil para o país sair da crise. Contudo, ela acredita que haverá um pequeno crescimento caso Meirelles se torne ministro da Fazenda. Daniela avaliou ainda que Meireles poderá minimizar a queda do PIB. “Não basta só trocar a equipe, pois a situação não está favorável. A gente tem problemas estruturais na economia brasileira que não vão ser resolvidos com um passe de mágica. O máximo que pode acontecer é o PIB cair menos por causa do choque de credibilidade. Podemos esperar um crescimento ano que vem”, avaliou Daniela.

Daniela também comentou o plano de  privatizações proposto por Temer. A economista acredita que pode haver um efeito positivo, mas alerta que não vai ser fácil. “A privatização, agenda do governo FHC, é outra questão que está sendo retomada. Se você consegue atrair investimentos, eles vão ter impacto positivo na demanda agregada e podem contribuir para retomada do crescimento. Mas também não vai ser imediato. Tem um período para conseguir estruturar esses leilões. Acho que são medidas de médio e longo prazo que podem ter efeito positivo, mas tem que ter muito cuidado”, explicou Daniela, alertando ainda que com a parceria público-privado, o governo pode acabar gastando mais do que imaginava. “Não são todos os setores que vão gerar interesse do setor privado. Há atividades que, mesmo com a parceria público-privada, exigem muitas garantias. O custo pode acabar ficando maior para o setor público. Não é uma varinha de condão que privatiza e dá tudo certo. Tem que tomar cuidado. Quem está comprando essa ideia pode ficar frustrado”, destacou Daniela.