'Project Syndicate': Em defesa de Varoufakis

O Project Syndicate publicou um artigo de Mohamed A. El-Erian, presidente do Conselho de Desenvolvimento Global do governo Obama em que defende o ex-ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis.

“Virou moda menosprezar Varoufakis: desde culpá-lo pelo novo colapso da economia grega até acusá-lo de tramar ilegalmente a saída da Grécia da zona do euro”, diz El-Erian, que é Assessor Econômico e Chefe do grupo  Allianz. “Ainda que eu não o tenha conhecido nem falado com ele, creio que está recebendo uma reprimenda (cada vez mais forte) que não merece. Nesse processo, se está desviando a atenção das questões fundamentais relativas à capacidade da Grécia para recuperar-se e prosperar, tanto se permanece na zona do euro quanto se decidir sair dela”, prossegue ele.

“Essa é a razão pela qual é importante tomar nota das ideias que Varoufakis segue encarnando. Os gregos e outros podem criticá-lo por aplicar seu programa com pouquíssima cortesia enquanto ocupou seu cargo, mas a essência desse programa era – e segue sendo – em grande medida correta.

Depois de uma impressionante vitória nas eleições de seu partido Syriza no último mês de janeiro, o Primeiro Ministro da Grécia, Alexis Tsipras, nomeou Varoufakis para que dirigisse as delicadas negociações com os credores do país. Sua missão era de renovar totalmente a relação de duas formas importantes: voltar suas condições mais favoráveis para o crescimento econômico e a criação de emprego e restabelecer o equilíbrio e a dignidade no trato com a Grécia por parte de seus sócios europeus e o Fundo Monetário Internacional.

Esses objetivos refletiam a frustração e a decepção experimentadas pela Grécia com dois planos de resgate administrados pelas “instituições” (a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI). Em sua aplicação, Varoufakis se sentiu respaldado pela magnitude da vitória eleitoral do Syriza e obrigado pela lógica econômica a insistir em três questões que, como muitos economistas acreditam, devem ser abordadas, caso se deseje restabelecer um crescimento sustentável: uma austeridade menor e mais inteligente, reformas estruturais que estejam mais a serviço de objetivos sociais e redução da dívida.

Essas questões seguem sendo pertinentes hoje, quando Varoufakis não está mais no governo, como eram quando as apresentava durante suas visitas às capitais europeias e em negociações tensas até madrugada em Bruxelas. De fato, muitos observadores consideram o acordo para um terceiro programa de resgate a que a Grécia chegou com seus credores –apenas una semana depois que Varoufakis pediu demissão – como mais do mesmo simplesmente. Na melhor das hipóteses, o acordo dará um suspiro, que provavelmente será curto e vazio.

Em parte, as críticas a Varoufakis refletem menos a substância de suas propostas do que a forma como se dirigiu a seus interlocutores. Evitando a tradicional dualidade de franqueza nos debates privados e contenção nos comentários públicos, expôs energicamente suas posições às claras e o fez de um modo cada vez mais pessoal.

Ya se la considere ingênua ou beligerante, não cabe dúvida de que essa atitude perturbou e irritou os políticos europeus. Em vez de modificar um marco normativo que durante cinco anos não havia cumprido seus objetivos declarados, se reafirmaram em suas posições e acabaram recorrendo ao equivalente econômico da diplomacia do canhão e em seu momento disseram com clareza ao chefe de Varoufakis, Tsipras, que o futuro das negociações dependia de que se desfizesse de seu heterodoxo ministro, coisa que fez primeiro encarregando outra pessoa pela condução das negociações e depois nomeando um novo ministro da Fazenda.

Agora que já não ocupa seu cargo, Varoufakis está sendo culpado por muito mais do que não ter adaptado sua atitude à realidade política. Alguns o consideram o responsável pelo novo colapso da economia grega, o fechamento sem precedentes do sistema bancário e a imposição de controles de capitais asfixiantes. Outros pedem investigações penais, ao considerar equivalente a uma traição a labor que dirigiu sobre um plano B (pelo qual a Grécia introduziria um novo sistema de pagamentos paralelo ou substituto do euro).

Mas, amado ou odiado (e, ao que parece, poucas pessoas se mostram indiferentes), Varoufakis nunca foi o árbitro do destino da Grécia. É certo que deveria ter adotado um estilo mais conciliador e ter mostrado um maior apreço pelas normas que regem as negociações europeias e também que superestimou a capacidade de negociação da Grécia, ao supor erroneamente que recorrendo à ameaça de sua saída obrigaria seus sócios europeus a reconsiderar suas posições, muito arraigadas, mas, em relação à situação macroeconômica, essas questões são de menor importância.

Varoufakis não teve o menor controle do lío econômico que o Syriza herdou quando chegou ao poder, caracterizado, entre outras coisas, por uma taxa de desemprego que rondava 25% e um desemprego juvenil que havia ascendido a mais de 50% durante um longo período. Não pode influir em medida alguma nas opiniões que haviam lançado profundas raízes em outros países europeus e, por tanto, comprometer a capacidade desses países de modificá-los. Não pôde contrariar a opinião proferida por alguns políticos de que o êxito do Syriza encorajaria e fortaleceria outros partidos não tradicionais de toda a Europa.

Também teria sido irresponsável que Varoufakis não tivesse preparado, a portas fechadas, um plano B. Afinal de contas, o destino da Grécia na zona do euro estava em grande medida – e segue estando – nas mãos de outros (em particular, Alemanha, o BCE e o FMI) e ainda não foi demonstrado que Varoufakis tenha violado lei alguma ao preparar junto com seus colegas seu plano de contingência.

Na hora da verdade, Varoufakis enfrentou o difícil dilema de continuar com mais do mesmo, apesar de saber que fracassaria, ou tentar adotar uma nova abordagem. Optou corajosamente por esta última. A pesar de sua desenvoltura ter minado os resultados, seria uma verdadeira tragédia perder de vista seus argumentos (que expuseram também muitos outros).

Para que a Grécia tenha uma possibilidade realista de recuperação econômica a longo prazo e torne realidade as aspirações legítimas de seus cidadãos, as autoridades devem renovar totalmente seu programa de austeridade, combinar suas reformas em prol do crescimento com uma maior justiça social e conseguir um alívio suplementar da dívida e, para que a Grécia permaneça na zona do euro (coisa muito hipotética, ainda mais depois do último acordo), não só deve ganhar o respeito de seus pares, mas, além disso, estes devem tratá-la com maior respeito”.

>> In Defense of Varoufakis