'FT': fatores-chave por trás da queda do investimento da China 

Reação em cadeia cria fragilidade em ativos de mercados emergentes 

Grande parte da fragilidade econômica que vem sacudindo mercados emergentes é “made in China”. É o que diz um artigo de James Kynge, do jornal britânico Financial Times, publicado nesta quarta-feira (29/07).

Uma queda no crescimento do investimento chinês afundou a demanda global por commodities e alguns produtos manufaturados, provocando uma reação em cadeia que está prejudicando as exportações dos mercados emergentes, aprofundando as pressões deflacionárias e até mesmo minando a demanda dos consumidores.

As questões chave, portanto, são: o que está por trás da derrocada do investimento chinês e quanto tempo isso deverá demorar?

Em primeiro lugar, a magnitude da queda do investimento da China neste ano deve ter sido muito maior do que os números oficiais mostram.

A série de dados mensais oficiais de Pequim segue o “investimento em ativos fixos” (FAI), que cresceu em 11,4% no mês de  junho em relação ao ano anterior— não o tipo de número do qual se possa esperar que acione um alarme.

Mas as leituras da FAI estão infladas por vários elementos — como a venda de terrenos e outros ativos — que não acrescentam ao estoque produtivo de capital do país.

Uma medida mais clara sobre quanto as empresas estão investindo no estímulo de suas capacidades produtivas — e portanto em seus futuros — é a Formação Bruta de Capital Fixo (GFCF), que exclui itens estranhos para capturar a implantação de bens de capital.

Por esse critério, o investimento está robusto. O crescimento real anual na formação bruta de capital atingiu 6,6% em 2014, abaixo dos 10,2% em 2013 e um pico de 25 % em 2009.

Thomas Gatley, analista corporativo para a China na Gavekal Dragonomics, uma empresa de pesquisa, estima que até agora neste ano GFCF pode estar correndo em torno de 4 a 5%.

Em termos líquidos, tirando os custos da depreciação, “é muito provável que até agora em 2015  a formação bruta de capital fixo esteja em zero ou abaixo disso”, diz Gatley.

Quando visto a partir dessa perspectiva, a queda da demanda da China por minério de ferro, cobre, alumina e outras importações de commodities da América Latina, África e outros lugares é mais fácil de entender.

Mas quais são as principais causas da queda de investimento da China? A demanda de investimento deriva de três fontes essenciais — o setor imobiliário (25%), a infra-estrutura (22%) e a manufatura (33%), com os demais  20% formados por vários itens menores, de acordo com uma pesquisa da China Everbright Securities.

O investimento em imóveis tem sido moderado. O investimento em novos imóveis residenciais subiu 2,8 % na primeira metade deste ano, abaixo dos 5,9 % do primeiro trimestre, revelando um ritmo moderado.

Altos níveis de estoques deverão aparentemente manter a tampa do entusiasmo desenvolvedor, dizem analistas.

Os estoques totais foram o equivalente a 10,8 meses de vendas em julho, diminuindo em relação aos 11,4 meses de vendas em junho, de acordo com o FT Confidential Research, um segmento de pesquisa do Financial Times.

As perspectivas também são discretas para os investimentos em infra-estrutura.

Xu Gao, economista-chefe na China Everbright Securities, vê uma mistura de fatores que desestimulam governos locais a empreender novos projetos.

Veículos de financiamento dos governos locais (LGFVs) — agentes importantes de infra-estrutura de investimento no nível básico — estão colhendo uma rentabilidade média de ativos em projetos de infra-estrutura de cerca de 3%, comparada com uma taxa de juros média em empréstimos de cerca de 7%.

Além disso, uma nova emissão de títulos pela LGFVs continua com queda acentuada aos níveis do ano passado, apesar de ter começado a se recuperar.

Esses três fatores — uma queda na implantação de bens de capital por empresas, as perspectivas moderadas de novos projetos imobiliários e uma falta de incentivos de governos locais — parecem que vão pairar sobre a atividade de investimento da China pelo resto do ano, dizem analistas.

O primeiro-ministro Li Keqiang descartou qualquer volta a medidas de “forte estímulo”.