'Project Syndicate': A manipulação dos mercados passou a ser mundial

‘Quanto mais dependemos dos mercados, menos confiamos neles’, diz economista americano

O Project Syndicate publicou nesta segunda-feira (27/07) um artigo do economista americano Stephen S. Roach, ex-presidente do Morgan Stanley Asia e economista-chefe da empresa. Ele analisa o que considera uma tendência cada vez maior no mundo todo de intervenção nos mercados:

“A manipulação dos mercados passou a ser um procedimento operativo normal nos círculos normativos de todo o mundo. Agora todo o mundo tem a atenção fixada nas tentativas da China de enfrentar o colapso de uma importante bolha de ações, mas as medidas adotadas pelas autoridades chinesas de maneira alguma são excepcionais. As principais economias do ocidente estão fazendo o mesmo em grande medida: aplicando simplesmente outro disfarce a sua manipulação”, diz Roach, que é membro do corpo docente da Universidade de Yale.

Tomemos a flexibilização quantitativa, à qual o primeiro a recorrer foi o Japão no começo da década de 2000, seguido pelos Estados Unidos a partir de 2008, depois o Japão de novo em 2013 e agora a Europa. Em todos esses casos, foi essencialmente uma medida enérgica para manipular os preços dos ativos. Funciona primordialmente mediante compras diretas por parte dos bancos centrais de valores soberanos em longo prazo, com os quais são reduzidos os tipos de juros de longo prazo, o que, por sua vez, faz com que as ações se tornem mais atraentes.

É discutível afirmar que a manipulação dos mercados tenha conseguido seu objetivo: o de oferecer um estímulo às economias devastadas pela crise e dependentes dos ativos; no fim das contas, as atuais recuperações no mundo desenvolvido têm sido em geral excepcionalmente anêmicas, mas não por isso as autoridades deixaram de tentá-la.

Em sua defesa, os bancos centrais recorrem à tese infundada de que, se não tivessem recorrido à QE, a situação teria sido muito pior, mas, como os mercados de ativos manipulados estão começando a apresentar riscos de instabilidade financeira, o jurado segue deliberando também a esse respeito.

As medidas adotadas pela China para manipular os mercados não são menos evidentes. Como reação diante de um colapso de 31% de CSI 300 (índice composto de ações nas bolsas de Shangai e Shenzhen) em relação a seu ponto máximo do dia 12 de julho, depois de uma alta de 145% nos doze meses anteriores, os regulamentadores chineses reagiram energicamente para conter os danos.

As medidas oficiais abarcaram toda a gama, inclusive as seguintes: um freio ao mercado de ações em forma de 480.000 milhões de dólares, respaldado pelo governo com os auspícios da Corporação Financeira de Valores da China, um fundo comum de 19 bilhões de dólares de importantes intermediações internas e a promessa do Banco Popular da China (BPC) de recorrer sem limite a seu balanço para subsidiar os preços das ações. Além disso, foram suspensas as operações de 50 %, aproximadamente, dos valores cotados (mais de 1.400 dos 2.800 valores).

Diferente da manipulação dos mercados no ocidente, que funciona indiretamente mediante injeções de liquidez dos bancos centrais, a versão chinesa é orientada mais diretamente ao mercado com dificuldades: neste caso, o das ações. É significativo que seja em grande medida um método reativo, destinado a desencadear uma retomada dos mercados e as economias com dificuldades, depois que tenham despencado. O método chinês, mais proativo, é o equivalente normativo de tentar pegar uma faca que cai: deter um mercado em queda livre.

Há outras diferenças dignas de menção entre a manipulação dos mercados da China e a que se viu no Ocidente. Em primeiro lugar, as autoridades chinesas parecem menos centradas nos riscos sistêmicos para a economia real.  Faz sentido, tendo em vista que os efeitos de riqueza são muito menores na China, onde o consumo privado representa só 36 do PIB, a metade só da porcentagem correspondente a economias mais dependentes da riqueza, como a dos EUA.

Além disso, grande parte da forte valorização das ações chinesas durou muito pouco. Quase 90% da alta durante doze meses do CSI 300 se concentrou nos sete meses posteriores ao começo das correntes de investimento trans-fronteiriças por meio da chamada Conexão Bursátil Shanghai-Hong Kong em novembro de 2014. Como consequência disso, os especuladores tiveram pouco tempo para que os ganhos de capital fossem sentidos e repercutissem nas esperanças de melhora do estilo de vida.

Em segundo lugar, no Ocidente as reformas posteriores à crise têm sido táticas em geral: destinadas a consertar as falhas dos mercados estabelecidos, em lugar de promover novos mercados. Em troca, na China as reformas posteriores à bolha apresentam uma orientação mais estratégica, em vista de que os problemas do mercado de ações têm importantes consequências para as reformas do mercado de capitais do governo, consideradas decisivas para sua estratégia de reequilíbrio estrutural. Por ter dependido durante muito tempo de um sistema de intermediação de crédito centrado na banca, o desenvolvimento de alguns mercados de bônus e de ações estáveis e seguros é uma máxima prioridade para o imperativo da China de fomentar um programa mais diversificado de financiamento dos negócios. O colapso da bolha das ações compromete esse empenho.

Por último, ao insistir num sistema regulamentador e, portanto, manter o tipo de juros oficial de referência muito acima do temido limite zero, o BPC está, na realidade, em melhores condições que outros bancos centrais para manter o controle da política monetária e não ficar preso num fornecimento de liquidez sem limite, que é tão viciante para os mercados com bolhas incipientes e, diferente do que ocorre no Ocidente, as medidas específicas adotadas na China em matéria de ações reduzem ao mínimo o risco de contágio financeiro causado por efeitos indiretos da liquidez em outros mercados de ativos.

Como grande parte do mercado interno de ações da China segue fechada, é difícil saber quando se esgotou o espírito animal em matéria de correção. Embora o governo tenha armazenado uma munição considerável para limitar o desenvolvimento de uma bolha espetacular, o excesso de uma demanda especulativa muito alavancada é desconcertante. De fato, no período de doze meses que se concluiu no último mês de junho, o financiamento marginal das compras de valores quase se triplicou como porcentagem da capitalização do mercado interior de ações comercializáveis.

Embora as ações chinesas tenham subido no início 14% a partir do ponto mais baixo do último dia 8 de julho, o colapso de 8,5% ocorrido no dia 27 de julho indica que talvez fosse uma trégua passageira. A probabilidade de uma desalavancagem forçada das coberturas complementares enfatiza a possibilidade de um novo colapso, quando todas as operações forem retomadas.

De forma mais geral, exatamente como no Japão, nos EUA e na Europa, não cabe a menor dúvida sobre o que foi que provocou a manipulação na China: os perigos de bolhas de ações desmesuradas. Uma e outra vez, os regulamentadores e as autoridades – para não falar dos dirigentes políticos – fecharam os olhos para os excessos dos mercados. Num mundo globalizado, onde os salários da mão de obra estão submetidos a uma pressão constante de baixa, o canto da sereia dos mercados de ativos como elixir do crescimento acaba sendo tentador demais para que o corpo político resista.

As bolhas especulativas são as manifestações visíveis dessa tentação. Quando as bolhas estouram – e isso sempre acontece –, se revela a falsa prosperidade e as táticas defensivas de manipulação dos mercados são urgentes e aparentemente lógicas.

Nisso reside a grande ironia da manipulação: quanto mais dependemos dos mercados, menos confiamos neles. Estamos longe da 'mão invisível' da qual depende a eficiência dos mercados. Afirmamos, como Adam Smith, que os mercados impessoais garantem a divisão mais eficiente de um capital escasso. Mas, na verdade, queremos que funcionem só de acordo com nossos interesses.