Bolsas chinesas se recuperaram, mas quedas recentes merecem atenção, diz economista

O intervencionismo do governo fez as bolsas chinesas se recuperarem, mas as fortes quedas merecem atenção, segundo o diretor do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais da Unicamp, Giuliano Contento de Oliveira. Mesmo o mercado financeiro da China não tendo tanto peso em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) como em outros países, o sistema financeiro da segunda maior economia do mundo não é compatível com seu tamanho. 

A recuperação das bolsas chinesas forçada pelo governo é mais uma prova do forte intervencionismo presente na economia do país. As medidas entraram em ação para evitar problemas mais do ponto de vista da governança corporativa do que pelo lado do consumo, até porque o investimento em ações não é algo muito disseminado entre os cidadãos chineses. 

Segundo dados da China Securities Depository and Clearing, instituição financeira do país, 90 milhões de chineses compram e vendem ações, aproximadamente 6% da população. No Brasil, esse número é menor ainda, e corresponde a 0,26% da população, segundo dados da BM&FBovespa. Já nos Estados Unidos, em 2011, esse número já era de 54%, de acordo com o Gallup Poll,  empresa de pesquisa de opinião americana. Para Giuliano Contento de Oliveira, as intercessões na bolsa foram "pouco convencionais", mas por causa da centralização do governo, movimentos inesperados tendem a ser enfrentados dessa maneira. 

As quedas ocorreram dias antes da divulgação da desaceleração do crescimento do país, que registrou expansão de 7% do PIB no segundo trimestre do ano. Comparado à situação do Brasil, que já faz projeções de retração de 1,49% neste ano, o número pode parecer alto, mas deixa clara a diferença da China de menos de uma década atrás, que atingiu taxas de crescimento acima dos 10%. 

As reservas internacionais do país estão entre as maiores do mundo e são consideradas um "porto seguro" dos chineses, que podem recorrer a um valor que gira em torno de US$ 3,69 trilhões, em caso de problemas financeiros, segundo dados do site Trading Economics. A reservas brasileiras correspondem a 10% desse montante, mas desde o início de 2014, já pode ser observada a primeira queda da quantidade de dólares que o país asiático possui, e que chegou a somar os US$ 4 trilhões. 

"O nível de reservas da China oferece uma blindagem externa bastante representativa do que diz respeito às oscilações nos fluxos internacionais de capital, mas não é uma blindagem plena a problemas que podem decorrer da própria dinâmica interna do capitalismo chinês", diz Giuliano Oliveira. 

Uma das vulnerabilidades da China é seu sistema financeiro, que é muito fechado e fortemente regulamentado, mas não é compatível com o tamanho do país, na opinião de Giuliano. Ele destaca que o que garante uma "triangulação financeira" entre o país e os mercados externos é Hong Kong, que é um dos maiores centros financeiros do mundo.