A máquina de guerra de Pequim para restabelecer a ordem na Bolsa

Artigo do jornal 'Le Monde' lista políticas adotadas na China após forte queda no início do mês

Na manhã de sábado, 4 de julho, quando o fim de semana mal havia começado, os dirigentes das 21 principais corretoras na Bolsa da China são convocados em Pequim ao escritório da comissão de regulação bursátil. Em Shanghai, o mercado acaba de perder 30% de seu valor em três semanas depois de um ano de alta surrealista. Como alunos de escola convocados à sala do diretor, esses grandes financeiros da segunda economia mundial não têm direito à palavra, não podem negociar. Os reguladores bursáteis lhes dizem o que eles terão que fazer, até a segunda-feira 6 de julho, o mais tardar às 11 horas, um montante acumulado de 120 bilhões de yuans (17,8 bilhões de euros) para uma estrutura chamada China Securities Finance Corporation (CSF), para que esta possa investir, se necessário, nos grandes valores chineses para estabilizar seus cursos nas praças de Shanghaï e Shenzhen.

Essa cena é contada por uma das revistas econômicas chinesas de referência, a Caixin, num momento em que a amplitude das medidas implantadas pelo governo chinês para evitar que o grande crash comece a se revelar.

Mudança radical de política

É a prática dos pagamentos de margem, que permitem aos investidores de tomar emprestado junto aos corretores para investir, que, em grande parte, tem conduzido a uma alta vertiginosa do índice de Shanghai nesses últimos meses (150% em um ano). O montante disponibilizado na Bolsa graças a fundos tomados emprestados de corretores passou assim de 400 bilhões de yuans em julho de 2014 a 2 200 bilhões um ano depois, sem contar os prováveis 2 000 outros bilhões pegos emprestados pelo intermediário de outros setores, não deixam dúvida alguma sobre a origem bastante artificial da impressionante ascensão da Bolsa chinesa, apesar da desaceleração do crescimento do PIB.

Pequim tendo tentado, na primavera, enquadrar fortemente essa prática do investimento pela dívida, é exatamente essa restrição que suscitou a violenta queda dos mercados. As autoridades chinesas mudaram então de estratégia, priorizando apoiar o mercado ”a arma pesada”. Além de sua nova contribuição ao CSF, os investidores financeiros tiveram que se comprometer, após a reunião do dia 4 de julho, a não vender suas ações até que a Bolsa de Shangai, então com  à 3 600 pontos, chega a 4 500. Um financeiro ousou propor que um comitê representando essas sociedades de Bolsa tome as decisões de investimento. Sem chances!, lhe retrucou o regulador, bem decidido a assumir sozinho as coisas.

Remédio de cavalo

Publicamente respeitada por sua independência, a Caixin compara o esforço das autoridades chinesas para ter certeza que o mercado se estabilize e uma reunião de generais estabelecendo uma estratégia no campo de batalha. Depois dessa reunião do dia 4 de julho, cada dia depois do fechamento, as principais oficiai encarregados de seguir o mercado se reuniram em torno de Xiao Gang, o presidente da comissão de regulação bursátil, um mandarim que chefiava o Banco da China.

O «esforço de guerra » não para aí. Aos olhos de Pequim, a violência da reviravolta no mercado de ações colocou diretamente em perigo a economia e correu o risco de provocar a insatisfação dos 90 milhões de pequenos investidores do país. O ministério da seguridade pública abriu inquéritos sobre os traders que apostam de maneira «maliciosa», um termo sujeito a interpretações que pode tanto visar práticas ilegais tais como o delito de iniciado ou apenas o fato de não querer apostar na recuperação do mercado esperada por Pequim.

Para o governo chinês, a solução é clara: é preciso ter certeza de que a CSF disponha dos meios suficientes para sustentar o mercado se fosse necessário. É usado hoje como seu “remédio de cavalo” se a Bolsa voltar a cair. Os grandes bancos do país, cujo acionista majoritário é o Estado e os patrões, que seguem ordens do partido único também foram convidados a colocar a mão no bolso. Na sexta-feira, 17 de julho, uma outra revista respeitada, Caijing, contou que 17 bancos emprestaram nessas últimas semanas cerca de 1300 bilhões de yuans, mais de 190 bilhões de euros, ao fundo CSF encarregado de estabilizar o curso das duas grandes praças da China continental, Shangai e Shenzhen.

Alta de 12 % desde o dia 8 de julho

Os cinco maiores estabelecimentos do país, entre os quais o Banco industrial e comercial, forneceram mais de 100 bilhões de yuans (15 bilhões de euros) o prêmio indo para o sexto banco do país, o Merchants Bank, que emprestou cerca de 28 bilhões de euros. "Certamente nada que possa tranquilizar o mercado sobre o fato que a falta de liquidez, como vimos com as enormes flutuações há algumas semanas, não vai ressurgir tão cedo", afirma Chen Jiahe, diretor de estratégia na Cinda Securities.

O mesmo CSF também tem acesso a financiamentos do banco central chinês. De maneira que esse fundo tem, segundo fontes citadas pela agência Bloomberg, potencialmente à sua disposição até 3000 bilhões de yuans (446 bilhões de euros) à emprestar às sociedades de bolsa em caso de necessidade para fazer voltar aos grandes índices do país. Esta soma corresponde a 25 vezes o montante deixado de lado como resultado da reunião para a qual seus patrões foram convocados, no dia 4 de julho.

Estamos bem longe do compromisso assumido pelo secretário do Partido comunista, Xi Jinping, de deixar sob seu mandato, o mercado desempenhar um papel decisivo. Mas, de fato, a Bolsa de Shangai se recuperou em 12 % desde chegou ao seu nível mais baixo, no dia 8 de julho.

Segunda-feira, dia 20 de julho, a Bolsa de Shanghai fechou em alta de 0,88 %. Por sua vez, a de Shenzhen subiu 1,82 %.