‘FT’: Maduro anuncia reforma para conter recessão na Venezuela

Presidente diz que 'chegou a hora' de retirar subsídio para a gasolina de US$ 12 bilhões por ano

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou na quarta-feira uma reforma do complexo sistema cambial do país, enquanto faz preparativos para aumentar os mais baixos preços de petróleo do mundo e assim tentar oxigenar uma economia em recessão atingida pelos preços em queda do petróleo. É o que diz uma matéria do correspondente Andres Schipani, do jornal britânico Financial Times, publicada nesta sexta-feira (23/01).

Além de chamar um sistema com taxa única de câmbio como algo ‘inviável’ durante seu discurso anual no parlamento, o presidente disse que decidiu trabalhar em um sistema de três mercados enquanto reforça a taxa principal de 6,3 bolívares ao dólar americano para alimentos e medicamentos.

No entanto, ele acrescentou que os dois mecanismos complementares atuais, negociando a 12 e 50 bolívares por dólar respectivamente, convergiriam para importações não essenciais. Sem dar muitos detalhes, ele disse que o governo estabeleceria depois um novo terceiro sistema que ofereceria dólares via “brokerages” (corretagem).

“Esse modelo cambial é um sistema transitório para atender às necessidades do desenvolvimento econômico do país”, disse ele.

A possibilidade de taxas de câmbio oficiais mais fracas, em um país que está sem dinheiro, motivou comentários de analistas sobre essa ser outra desvalorização camuflada, já que autoridades têm improvisado com controles de moedas estrangeiras desde a morte do ex-presidente Hugo Chávez em março de 2013.

Muitos economistas acreditam que esses controles estão no centro dos problemas econômicos do país, o que inclui uma ampla escassez de bens básicos, e dizem que uma desvalorização aberta é necessária para impulsionar o valor da receita de petróleo da Venezuela denominada em dólar  para diminuir um déficit fiscal estimado em 20% do PIB.

“Em meio a uma situação econômica tão difícil, essas medidas são bastante tímidas,” disse Leonardo Vera, um economista na Universidade Central da Venezuela. “Ele nem disse como vamos enfrentar a queda das receitas do petróleo.”

O petróleo responde por 96% da receita externa da Venezuela. Desde que Maduro assumiu em abril de 2013, a inflação subiu para 64% em meio a um torpor político. Mesmo com as previsões econômicas de Alejandro Werner do FMI de uma contração de 7% este ano, o ex-motorista de ônibus que se tornou líder tem sido cauteloso em implantar duros ajustes de austeridade.

Em vez disso, o cada vez mais isolado presidente coloca a culpa pelos problemas do país rico em energia em uma “guerra econômica” empreendida por “inimigos da direita”, a quem acusa de tentar desestabilizar o país ao acumular bens básicos como papel-higiênico e fraldas para mantê-los longe das mãos de cidadãos pobres.

Entretanto, Maduro disse que chegou a hora de retirar um subsídio para a gasolina, com custo estimado de US$ 12 bilhões por ano. “Se vocês quiserem, crucifiquem-me, matem-me,” disse ele, acrescentando: “O preço é uma distorção.”

Analistas chamaram isso de um teste decisivo sobre até onde o presidente está preparado para ir para tentar restabelecer uma racionabilidade econômica em um país sacudido pelos preços do petróleo caindo pela metade, o que exacerbou temores de que Caracas poderia ser incapaz de arcar com US$ 11 bilhões de pagamentos de bônus devidos este ano.

Embora autoridades tenham prometido pagar os detentores de bônus, investidores acham que a Venezuela — que tem as maiores reservas de petróleo do mundo — foi pressionada até o limite. Seus rendimentos de bônus subiram, com o peso de uma dívida de 10 anos alcançando 29,9% na quarta-feira, comparado aos 6,8% bônus russos.

Maduro evitou cortes em programas sociais, apesar de economistas em Caracas dizerem que a Venezuela precisaria vender petróleo a um preço acima de US$ 120 o barril para equilibrar seu orçamento.

O presidente disse na quarta-feira que a cesta de petróleo da Venezuela caiu a US$ 38 por barril, e que os preços do petróleo bruto não vão voltar a US$ 100.

“Temos menos moeda estrangeira,” disse ele. “Mas Deus vai prover”, prometeu.