'El País': Investidores já pagam por emprestar a 10 países europeus

Tipos de juros a dois anos são negativos para sete estados na eurozona

"Os mercados financeiros se movem às vezes por diretrizes tão distantes da lógica econômica que podem levar ao absurdo de que os investidores não só não obtenham benefícios por emprestar dinheiro, ou seja, por comprar bônus ou letras, mas que inclusive cheguem a perder uma parte por isso e, ainda assim, continuem colocando mais e mais dinheiro nesses pedaços de papel. Isso está acontecendo agora: a fome por dívida soberana é tal, o volume de dinheiro em circulação é tanto, que já há uma dezena de países europeus cujos bônus a dois anos são partilhados no mercado com juros negativos". É o que diz um artigo do jornal espanhol El País nesta quinta-feira (22/01)."A Espanha ainda não está nesse clube, mas também aproveita a onda positiva: esta terça-feira colocou uma emissão sindicada de 9 bilhões ao menor custo da história. Alemanha, França, Holanda, Finlândia, Áustria, Bélgica e Eslováquia são os sete países da zona do euro que ganham dinheiro por tomá-lo emprestado a dois anos e, fora da moeda única, Suíça, Suécia e Dinamarca. O patamar vai de -1,03% dos bônus suíços, os menos rentáveis, até os suecos, próximos de zero (-0,017%). O fenômeno alcança também a dívida a cinco anos no caso dos bônus dinamarqueses, alemães, finlandeses e, sobretudo, os suíços. A Suíça, de fato, é o único país europeu que consegue juros negativos inclusive a 10 anos. Seu banco central suprimiu o limite com o que tentava evitar a apreciação excessiva do franco diante do euro. A Dinamarca respondeu baixando os tipos de juros sobre os depósitos de -0,05% a -0,20%", escreve a jornalista Amanda Mars.

O Tesouro colocou nesta terça-feira 9 bilhões de euros mediante uma emissão sindicada de uma nova referência a 10 anos a um cupom de 1,60%, o mais baixo da história com esse sistema e este prazo. A demanda duplicou a oferta ao chegar perto dos 23 bilhões. A rentabilidade se situou em 1,656%, quando na última operação do mesmo tipo foi 1,14 pontos percentuais superior.

Um investidor está disposto a perder dinheiro em títulos de dívida quando busca um investimento sem risco e, dentro de todas as possibilidades, prefere um produto cuja rentabilidade, ao menos, ainda que negativa, não vai variar. A França passou a fronteira de tipos a dois anos positivos a negativos em meados de dezembro, depois que o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, deu a entender que, no início do ano, o plano de compra massiva de dívida pública seria aprovado, a chamada Quantitative Easing (QE), operação que pode rebaixar ainda mais esses juros. Se a demanda sobe por um bônus, seu preço aumenta, o que significa que a rentabilidade baixa.

“Há um efeito de batata quente entre os bancos: se você tem que depositar seu dinheiro em um ativo sem risco e o deixa no BCE, que gravou os depósitos com juros negativos, perde mais dinheiro que se o colocassem em bônus alemães”, aponta Justin Knight, estrategista de tipos de juros da UBS, em Londres.

O caso da Suíça se mostra especialmente singular, porque os juros negativos de sua dívida é maior que o de dois depósitos. Para Prem Thapar Martínez, diretor de investimentos do BNP Paribas na Espanha, “os investimentos propõem como escolher uma hipoteca a juros fixos ou variável: optam pelo bônus, ainda que lhes custe mais (seus juros a dois anos são de -1%) porque assim se asseguram como vão ser esses juros negativos de forma permanente, enquanto que o tipo de depósito, ainda que agora seja de -0,75%, pode ir a pior se o Banco Central de Suíça assim decidir para enfraquecer o franco”. As Bolsas entraram em uma fase de grande volatilidade.

Nunca tantos países ao mesmo tempo tinham pago tão pouco por endividar-se e o que ninguém se atreve a estimar no mercado é qual margem de baixa fica depois da reunião da próxima quinta-feira do BCE e a esperada compra massiva de bônus. Uma boa parte da correção dos mercados já foi adiantada desde dezembro.

Blanchard acredita que a expansão monetária do BCE já tem efeitos. É o que também manifestou, nesta terça-feira em Pequim, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, para quem os efeitos que essa iniciativa quer gerar “já ocorreram, em grande medida”. Os investidores já contavam com a colocação em prática desse plano sem precedentes. “Isso  levou a uma suavização do diferencial do euro na zona da moeda comum, indicando uma antecipação das medidas de QE, e se encontra provavelmente atrás de muito da depreciação do euro, assim que em certo modo a QE já funcionou”, apontou Blanchard, ao apresentar a revisão das previsões do FMI sobre a economia mundial.

Mas para que seu efeito continue, advertiu, Draghi terá que anunciar um programa alinhado com as expectativas dos investidores, para evitar que eles se decepcionem e se perca muito do que foi conseguido até agora. “Minha expectativa é que o BCE fará algo mais ou menos consistente com o que os investidores anteciparam e portanto os efeitos que temos visto até agora continuarão”, afirmou.

É o que nem todo mundo vê claro. Segundo umas declarações publicadas pelo Financial Times de Athanasios Orphanides, ex-membro do comitê executivo do BCE, o sistema pode terminar por parecer mais ao que queria a Alemanha do que ao que reivindicavam outros estados como Itália, e os países do euro não vão compartilhar o risco dos bônus adquiridos. Segundo Orphanides, Draghi cedeu às pressões de Angela Merkel e isso restará efeito ao plano.

A questão é se além dos mercados financeiros, a grande ação do BCE tem impacto na economia real, Knight acredita que “o canal através do qual vai funcionar mais é que o euro vai baixar”, enquanto que se tornará menos efetivo na hora de animar o crédito bancário porque “os juros oficiais já são muito baixos”. Além disso, quanto ao efeito que esta expansão quantitativa terá para as emissões de bônus de empresas, Knight recorda que 80% do financiamento das companhias europeias é através dos bancos e não de emissões de dívida", conclui o artigo do El País.>> Los inversores ya pagan por prestar su dinero a 10 países europeos