Copom eleva taxa de juros para 12,25% ao ano

Com o reajuste, a Selic chega ao maior percentual desde agosto de 2011

Pela terceira vez consecutiva, o Banco Central (BC) reajustou os juros básicos da economia. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou nesta quarta-feira (21) a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 12,25% ao ano. O órgão manteve o ritmo do aperto monetário. Na reunião anterior, no início de dezembro, a taxa também tinha sido reajustada em 0,5 ponto.

Com o reajuste, a Selic chega ao maior percentual desde agosto de 2011, quando estava em 12,5% ao ano. 

Em comunicado, o Copom informou que a decisão levou em conta o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação. A reunião durou cerca de três horas e começou por volta das 16h15, uma hora antes do habitual, por causa da viagem do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, ao Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça).

Embora ajude no controle dos preços, o aumento da taxa Selic prejudica o reaquecimento da economia, que ainda está sob efeito de estímulos do governo, como desonerações e crédito barato. De acordo com o boletim Focus, analistas econômicos projetam crescimento de apenas 0,38% do Produto Interno Bruto (PIB, a soma dos bens e serviços produzidos pelo país) neste ano. 

A taxa é usada nas negociações de títulos públicos no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) e serve como referência para as demais taxas de juros da economia. Ao reajustá-la para cima, o BC contém o excesso de demanda que pressiona os preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Quando reduz os juros básicos, o Copom barateia o crédito e incentiva a produção e o consumo, mas alivia o controle sobre a inflação.

A Fecomércio RJ, em nota divulgada à imprensa, destacou que o aumento dos juros é mais um dos muitos preços pagos por empresários e consumidores brasileiros pela condução da política econômica nos últimos anos, criticando uma suposta prática de improvisos, metas de última hora e ações localizadas. "A conta chegou. E nessa hora, as medidas têm seguido o caminho mais fácil: aumentar os já elevados custos na produção e no consumo – impostos e juros. Como resultado, instituições como o Fundo Monetário Internacional já preveem resultado próximo a zero para o crescimento da economia doméstica neste ano, assim como apurado no cenário recente."

A entidade reforça ainda que seria mais importante "aprimorar a eficiência do gasto público, oxigenar as engrenagens produtivas", para ampliar a capacidade de produção e a margem para crescimento sem maiores pressões inflacionárias. 

Rogério Amato, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por sua vez, vê a medida como "equivocada", considerando o "baixo nível" da atividade econômica e a "forte desaceleração" do consumo. Para ele, mais importante seria cortar gastos para controlar a inflação. "Deve-se ressaltar que a elevação do IOF para as pessoas físicas, bem como o aumento de tributos e tarifas - o que drena parcela importante da renda da população - poderão agravar a desaceleração em curso. Além disso, os custos das empresas e os investimentos serão afetados negativamente, comprometendo ainda mais o crescimento da economia." 

José do Egito Frota Lopes Filho, presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados (ABAD), também criticou a elevação da taxa, dias depois do anúncio de aumento de impostos. A medida, acredita, mostrou uma sintonia entre Banco Central e Fazenda, mas também aponta que o "o setor produtivo continuará a ser penalizado". 

"Mesmo reconhecendo que ajustes são necessários, é preciso lembrar que a atual situação de alta inflação e baixo crescimento resulta dos erros da gestão do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. E, até agora, os tais ajustes não tocaram nas questões estruturais que prejudicam a competitividade do país. Fazer o ajuste no lado do contribuinte é sempre mais fácil", comentou Lopes Filho. "Difícil, e necessário, é colocar os gastos do governo em ordem e saber tomar as medidas seletivas que garantam  a saúde da economia real, aquela que gera empregos e preserva o consumo das famílias."

O coordenador do curso de Ciências Contábeis da Faculdade Santa Marcelina, Reginaldo Gonçalves, acredita que o aumento é mais um reflexo do cenário "difícil" projetado para 2015. "A decisão impacta diretamente a dívida pública e amplia a restrição ao crédito como forma de conter o consumo e a inflação. Por outro lado, não se vê nenhuma movimentação para o esperado corte de gastos do governo", avalia. 

"A decisão do BC trará ainda mais dificuldades para as empresas financiarem suas atividades, golpeando qualquer tentativa de aumento de competitividade. O governo espera frear o consumo doméstico até que se recuperem a força do real e a confiança do investidor externo no país. Para isso, entretanto, arrisca-se a aumentar o desemprego e a reduzir ainda mais o PIB".

Para o presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), Levi Ceregato, contudo, apesar das dificuldades que a indústria atravessa, a alta da Selic, anunciada hoje pelo Copom, não surpreende. "Entendemos que o momento é de acreditar e que os ajustes realizados serão acompanhados do correspondente esforço governamental para diminuir os gastos públicos e sanear o déficit fiscal. Esperamos que venha daí a confiança necessária por parte do mercado para retomar os investimentos produtivos que permitirão ao Brasil, país com imenso potencial de recursos naturais,  a retomada do crescimento sustentável em favor da nossa competitividade."