‘FT’: QE do Japão é política de iene barato disfarçada

Escolha dos instrumentos é infeliz já que aumenta preços de ativos mas não ajuda a economia real 

O Financial Times publicou nesta quarta-feira (3/12) um artigo sobre “O iene tem perdido valor num ritmo mais acelerado ante o dólar desde que o Banco do Japão lançou sua última rodada de quantitative easing há um mês, e estava operando a mais do que Y118 ante a moeda americana no ultimo registro”, diz a matéria de Henny Sender.

“A flexibilização quantitativa, primeira flecha do Abenomics, sempre foi a mais eficaz na aljava de Tóquio. Mas seu propósito é só em parte o compromisso que o Banco Central costuma vociferar, que é de levar a inflação para cima e abandonar uma mentalidade deflacionária, uma mentalidade que os políticos insistem que é responsável pelo consumo fraco e a expansão tímida de capital. Essa primeira flecha na realidade não é nada mais que desvalorizar o iene e estimular exportações. Todo o resto está mais para agulhas do que fleches”, prossegue Sender.

“Essa política de iene barato disfarçada significou que no terceiro trimestre, as exportações subiram 5,3% em um mundo onde o comércio está basicamente estagnado e assim esteve nos últimos dois anos. Esse dado foi o único saudável naquele que foi um período de desânimo – até mesmo para os padrões japoneses. O consumo privado subiu a um escasso 1,5% depois de uma queda de 18,6% no trimestre anterior e as despesas de capital registraram um negativo 0,9% depois de uma queda de 17,9% no segundo trimestre. Em outras palavras, num período durante o qual o PIB também foi negativo, o comércio colaborou para o crescimento com um percentual positivo de 0,4%.

A flecha japonesa não foi despercebida pelos concorrentes. No meio de novembro, o Banco Popular da China cortou a taxa de juros. Em parte isso se deu porque o custo de capital na China estava muito alto para muitos mutuários. Mas também porque a moeda chinesa  subiu 10% deixando suas baixas do início deste ano. “O PBOC não teria se movido tão rápido quanto na última sexta-feira se não fosse por causa do Kamikaze Kuroda,” notou Chris Wood da CLSA, unidade da Citic Securities se referindo ao presidente do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda. O Banco da Coreia já cortou taxas duas vezes, mais recentemente em outubro”, diz a matéria do Financial Times. 

“Isso sugere que o mundo está entrando numa nova fase onde o quantitative easing, que uma vez foi o instrumento escolhido para estimular economias adoecidas dos países desenvolvidos será cada vez mais implantada nos países emergentes também, o QE se tornou a última – embora aparentemente indireta – arma para provocar quedas de moedas. Guerras cambiais são especialmente intensas quando o comércio mundial está estagnado e os ganhos de um país ocorrem em detrimento de seus rivais.

“Um enfraquecimento sustentado do iene terá consequências regionais. A depreciação do won coreano e do dólar do Taiwan deverá acelerar, fazendo com que a queda regional pareça aquelas trimestrais que levaram à crise asiática de 1997,” alerta Stephen Jen, da research boutique SLJ Macro, em Londres”.

“O corte da China, em especial, pegou os economistas de surpresa. “Diferenciais das taxas reais positivas e superávits de contas correntes contínuos na China só tornam mais difícil projetar uma tendência de depreciação sustentada no renminbi,” avisam estrategistas do Morgan Stanley. “No cenário em que o Banco Popular da China enfraquece o mercado de câmbio como uma ferramenta política, podemos esperar que as correntes deflacionárias globais se tornem mais visíveis.” Esses analistas também afirmam que entre as moedas mais vulneráveis nesse cenário estão o euro, o franco suíço, o iene, o dólar de Singapura e o baht tailandês.

Enquanto isso, espera-se que o BCE finalmente se comprometa com políticas cambiais menos convencionais, que farão que o valor do euro possa enfim declinar. Lembrando que a Alemanha compete diretamente com o Japão pelo terceiro maior mercado, seja pelos bens de equipamento que a maioria dos fabricantes precisam para a própria produção, ou por carros de luxo.

Ao mesmo tempo, o dólar americano está em seu nível mais alto dos últimos cinco anos e mais uma vez os economistas estão baixando suas previsões de crescimento nos Estados Unidos para o ultimo trimestre do ano (de 3% para 2,3%, no caso da Barclays). Isso realça o fato de que o QE não parece fazer muito para transformar o ritmo do crescimento econômico nos dois lados do Pacífico”, escreve o jornalista.

“A recorrência ao QE como tática para baixar o valor de uma moeda é duplamente infeliz porque a combinação de QE e baixas taxas estimula preços de ativos e engenharia financeira muto mais do que despesas de capital e melhorias na economia real. É o estímulo fiscal que pode  contribuir para o crescimento na economia real. 

Quaisquer ganhos provenientes das desvalorizações competitivas, embora disfarçados de política cambial, deverão se mostrar fugazes. Infelizmente, os ganhos de hoje, que trazem com eles um artificial senso de vantagem comparativa duradoura, virá em detrimento do crescimento potencial de amanhã”, conclui o artigo do Financial Times.