Freada econômica força reformas na América Latina

Região precisa de melhorias em educação e infra-estrutura.

O jornal espanhol El País publicou nesta quarta-feira (3/12) um artigo sobre a influência do atual cenário econômico mundial na América Latina e as mudanças que estão ocorrendo ou devem ser adotadas. “Poucas vezes o diagnóstico sobre o que uma região precisa é tão unânime como agora a respeito da América Latina, "apesar de que generalizar com uma região com tantas diferenças é arriscado", lembra Carlos Malamud, investigador da América Latina do Real Instituto Elcano e professor de História da UNED”, escreve a jornalista Alicia González. 

Ela prossegue: “A tese respaldada pela maioria dos especialistas é que a América Latina precisa adotar uma agenda audaciosa e confiável de reformas estruturais, focalizada na melhora da educação, as infra-estruturas e o clima de negócios. Seriam as reformas de segunda geração, as reformas 2.0, longe do viés liberal daquelas dos anos 90 e adaptadas a economias que abandonaram os últimos postos em desenvolvimento econômico mas que ainda estão longe de dar resposta às demandas de sua crescente classe média”.

Isso apesar da América Latina ter superado com nota a maior crise financeira desde a Grande Depressão, quando as economias da região se beneficiaram muito da forte demanda asiática de matérias primas e bens básicos industriais e da grande entrada de capital estrangeiro, como consequência das políticas de tipos de interesses zero dos principais bancos centrais. "A complacência de ter respondido bem ao choque de 2008 pode ser o maior risco", sustenta Jorge Sicilia, economista chefe do Grupo BBVA.

De fato, segundo dados da BBVA Research, a economia latino-americana crescerá 0,9% este ano e 1,8% em 2015, devido à desaceleração da demanda interna e um cenário externo menos favorável, onde se destaca a freada da economia chinesa e a menor demanda global por matérias primas. "Na média da região é provável que já se tenha deixado para trás o pior da desaceleração", diz a entidade em seu último informe de conjuntura regional, onde se constata, aliás, a brecha crescente entre a Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile), que vai registrar um crescimento de 2,8% e 3,8% em 2014 e 2015, respectivamente, e o Mercosul (Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Venezuela e Bolívia), cujo PIB vai encolher 0,5% este ano e crescer apenas 0,4% no ano que vem. Contudo, a região fica longe do crescimento médio entre 2003 e 2011 —4,5%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI)— e dos ritmos de outras economias de renda similar, como as asiáticas, que vão registrar um crescimento médio este ano superior a 7%.

"A freada que ocorreu em economias como a do Brasil e o efeito dominó da situação na Europa e na China faz com que os governos latino-americanos tenham que tomar medidas tanto de ajuste como de reformas para poder afrontar de uma forma adequada os próximos tempos", afirma Javier Santacruz, economista e pesquisador na Universidade de Essex, no Reino Unido. Os governos terão que abordar essas reformas em um cenário muito menos favorável, como apontam fontes financeiras internacionais, e que passa pelas "consequências que terá sobre o investimento a normalização da política monetária nos EUA, a necessidade de voltar a empreender ajustes para reduzir os déficits exteriores e um cenário de menores preços das matérias primas".

É certo que os economistas do FMI lembram a importância "de que a região tenha políticas fiscais prudentes, baixa inflação e tipos de câmbio flexíveis para melhorar sua capacidade de resposta frente a eventuais choques", mas além das políticas macroeconômicas, também reconhecem que é hora de aplicar reformas destinadas a elevar a baixa produtividade da região e subir na cadeia de valor; de corrigir a escassez de infra-estrutura de transporte e melhorar o clima para fazer negócios. "É necessário passar das reformas que permitem o crescimento, as dirigidas à estabilidade macroeconômica, às reformas que promovem o crescimento, que exigem investimento no capital físico e humano e uma redução da economia submersa", aponta Sicilia. "O problema não é o diagnóstico, é a vontade e a capacidade para implantar as reformas".

É aí que já aparecem as primeiras fendas. O México aprovou a maior bateria de reformas estruturais e só a violência e a fragilidade do Estado diante do crime pode colocar em risco a agenda reformista, uma abordagem que não ocorre e nem está sendo esperada na Argentina, onde o déficit fiscal não deixa de crescer e a política monetária se dedica a financiar o gasto público. "A mudança política costuma ser a impulsora das novas iniciativas de reformas, como aconteceu na Índia, ou no México com a eleição de Enrique Peña Nieto em 2012", explica Geoff Dennis, estrategista da UBS.

Não aconteceu assim de forma majoritária na região mas, segundo Malamud, "já há sinais de que a desaceleração econômica repercute na política". "As últimas eleições não provocaram grandes alternâncias de governo mas têm propiciado resultados muito apertados que já não são tão cômodos para o oficialismo como antes". As consequências na agenda política dependem muito dos países. "Ali onde as instituições têm mais peso, como no Chile ou inclusive no Brasil a julgar pelas últimas nomeações da presidenta Dilma Rousseff, a agenda política está mudando em função da conjuntura atual, mas em outros países não é o caso, como se pode comprovar na Argentina ou na Venezuela".

As primeiras consequências já podem ser sentidas, na forma de fluxos de investimentos, com notáveis exceções, como o México. "As recessões nunca ajudam demasiado a estabilidade política e social", assinala o banco suíço de investimento Lombard Odier, em uma recente nota a clientes. "Não é surpreendente que os fluxos de capital para os mercados emergentes já estejam dando as costas para a América do Sul a favor da Ásia, exacerbando com isso a deterioração da conta corrente, a depreciação das divisas e a ampliação dos diferenciais da dívida soberana em toda a região latino-americana", arremata.