‘Clarín’: Brasil em meio ao ‘corralito’ argentino

Argentina tem importado menos do país vizinho, provocando insatisfação. Agora busca reaproximação

“A equipe econômica está a ponto de quebrar uma longa década de hegemonia brasileira no comércio bilateral. Segundo dados do INDEC, entre janeiro e outubro a Argentina acumulou um superávit de US$ 145 milhões, fraco mas enorme comparado com o déficit de US$ 4,8 bilhões de 2011, há apenas três anos”, é o que diz uma matéria do jornal Clarín, publicada nesta terça-feira (2/12).

“Não foi um milagre das políticas oficiais nem ocorreu nada que tenha alterado substancialmente as causas que explicavam os déficits passados. Há algo muito mais simples: as compras feitas no Brasil sofrem como nenhuma outra o torniquete do governo”, escreve o jornalista Alcadio Oña.

Ele prossegue: “Em números do INDEC, nos dez primeiros meses do ano as importações dessa origem caíram 24% – nada menos que 37% as de automotores e peças–, contra uma média geral de 11%. É um número alto comparado com os 14% que registrou a hoje opaca União Europeia e enorme respeito do 2% da China, ainda que aqui pesem os trens e o material ferroviário previstos em um acordo oficial direto.

Tais diferenças são terreno fértil para as reclamações de funcionários e industriais brasileiros, que se sentem descriminados pelo governo argentino e denunciam que seus produtos são substituídos por bens similares de outros países; entre eles, alguns chineses que não são exatamente trens. Na realidade, Dilma Rousseff colocou faz tempo sua amizade com Cristina Kirchner na geladeira”, escreve o jornalista.

“Num contexto assim, as reuniões que Jorge Capitanich e Axel Kicillof mantiveram na semana passada, em Brasília chamam atenção: com o assessor presidencial, Marco Aurelio Garcia, o chefe de Gabinete, Aloizio Mercadante, e o chanceler Luiz Alberto Figueiredo.

Tão chamativo quanto isso foi a quantidade e a transcendência dos temas que abordaram, segundo um comunicado de Kicillof. Desde “trabalhar no fortalecimento da agenda bilateral” até “a integração produtiva”e o desenvolvimento conjunto da indústria automotriz, naval, siderúrgica e aeronáutica, a energia e o comércio. Tudo isso é impossível resolver numa viagem relâmpago e logo quando Dilma estava ocupada com a nomeação dos novos ministros da Fazenda e de Planificação e começava a pôr um selo econômico em seu segundo mandato”.

“Melhor seria pensar, então, que outros motivos mobilizaram Capitanich e a Kicillof. E deles o que parece mais a mão é, justamente, a possibilidade de que ambos tenham ido pedir tolerância com o trato comercial frente às dificuldades que a Argentina enfrenta. A questão é que, vistas as diferenças com outros países, a paciência brasileira já tenha passado do limite.

O Brasil também tem dificuldades com suas exportações e o mercado argentino era peça central para sua produção industrial. Além disso, o próprio Kicillof negou que o processo com os fundos abutres tenha figurado na agenda.

O definitivamente certo é que aqui as exportações estão há catorze meses consecutivos em queda. E isso que em qualquer lugar seria muito, se torna muitíssimo quando a falta de divisas incentiva: só entre 2013 e 2014 foram perdidas vendas ao exterior por US$ 7,7 bilhões, equivalentes a quase a quarta parte das reservas”, observa Oña.

Ele acrescenta: “Falta dizer que na ausência de investimentos e créditos externos, as exportações são de longe a maior fonte de dólares com que conta o governo. Também, que não é um argumento inteiramente apropriado colocar a culpa da baixa na crise internacional. Dados da Cepal correspondentes ao primeiro semestre revelam que outros países da região aumentaram suas vendas ao exterior, como Uruguai, Paraguai, Equador e Bolívia, e que entre aqueles onde caíram, nenhum iguala os 11% acusado pela Argentina. A média registra um recuo de apenas 0,3%.

Ocorre, na realidade, que as políticas oficiais ou a falta delas descolocaram até produções nacionais antes muito competitivas, como a carne e o trigo, onde temos perdido mercados para vizinhos e países não tão vizinhos. Algo similar acontece com as economias regionais: no caso, os exemplos do vinho e as frutas”.

“A decisão de fixar o tipo de câmbio como única estratégia anti-inflacionária, quando os custos internos crescem a uma velocidade diferente e no mundo o dólar se revaloriza, não é exatamente um bom incentivo. Tampouco, travar importações de insumos essenciais para elaborar bens destinados ao mercado internacional ou demorar a reembolsar impostos. E tudo coroado por sérios déficits de infraestrutura: “Às vezes, os que podem saem pelo Pacífico para fugir do problema com nossos portos”, afirma um especialista em comércio exterior.

Assim é possível encontrar nas gôndolas dos supermercados produtos que haviam sido pensados para exportar. Cada vez mais pequenas e médias empresas ficam fora do jogo e os grandes vencedores são aquelas empresas em condições de conseguir financiamento de fora, o que é um modo de concentrar os negócios.

Nas estatísticas da Cepal também custa dar com países que apliquem suas importações torniquetes parecidos com o da Argentina. Em vários cresceram, como Uruguai, Bolívia, Colômbia e México, mas ali onde caíram ninguém iguala os 11% registrado pela Argentina. A média da América Latina e do Caribe mostra um retrocesso de 0,6%”, diz o artigo.

“A questão é que nem isso basta para melhorar o saldo comercial, quando as exportações vão deslizando numa ladeira que não encontra chão. Basta um dado: o superávit de janeiro-outubro foi o mais baixo desde a convertibilidade. 

Os desacertos em frentes chave, como a inflação e o atraso cambial, o forte desequilíbrio fiscal e a perda de competitividade das exportações, não serão resolvidos no tempo que resta à gestão kirchnerista. Isso é certo, e parece bem razoável que as equipes dos candidatos presidenciais já estejam pensando nas maneiras de enfrentá-los”, conclui o artigo do Clarín.