Síntese da conjuntura - As raízes da crise

A difícil conjuntura econômica pode ser claramente visualizada pelo desequilíbrio fiscal e o déficit do balanço de pagamentos. No setor fiscal, temos um “rombo” de R$ 250 bilhões no déficit nominal e uma dívida bruta de R$3.132,1 bilhões (61,73% do PIB). No Balanço de Pagamentos, o déficit em T/C deve chegar a US$ 80 bilhões, no final do ano, coberto por crescente dívida externa, que atinge, hoje, US$541,4 bilhões.

Chama atenção o fato de que a dívida bruta vem crescendo assustadoramente. Em nove meses, de dezembro/13 a setembro último, a dívida cresceu R$ 384,1 bilhões. Somente no mês de setembro, houve acréscimo de R$ 97,4 bilhões. A dívida externa segue o mesmo caminho: de dezembro/13 até setembro/14, aumentou US$ 58,6 bilhões, chegando a US$541,4 bilhões. A balança comercial vem apresentando déficit nos últimos dois anos, com queda das exportações em 2012 (-5,3%), 2013 (-0,2%) e 2014, até outubro (-2,2%).

Se acontecer uma tragédia anunciada, e o Brasil perder o grau de investimento, poderá haver uma pesada saída de dólares, que irá complicar ainda mais a situação econômica.

Diz um economista meu amigo, de grande tirocínio, que na conjuntura atual vale o conselho do coelho da Alice: “quando não se sabe para onde ir, qualquer caminho serve.” Mas, uma coisa parece certa: na conjuntura atual, o Governo Dilma tem que salvaguardar a Petrobras. Restaurar a credibilidade da Petrobras é mais importante que a do Brasil.

 

A COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Há dois conceitos parabólicos que ajudam a entender o que está se passando na atual conjuntura econômica nacional: um deles diz que a economia está funcionando com o “freio de mão puxado” e que, por isso, não consegue deslanchar e ganhar velocidade. O “freio de mão puxado” é a excessiva carga tributária, associada a uma burocracia fiscal cara e asfixiante. O outro é a descrição de uma maratona internacional, no contexto da atual globalização, da qual participam o Brasil, ao lado de habilidosos e preparados concorrentes dos Estados Unidos, da Europa, do Japão, da China e da Coreia do Sul. A grande diferença entre eles, é que o brasileiro carrega às costas um saco de areia de 60 quilos. Não consegue competir, não pode correr, só pode caminhar e devagar. Por isso, o maratonista brasileiro está perdendo a competição. O saco de areia, no caso, como o freio de mão puxado, é a carga tributária que chega a 38% do PIB.

Assim, é fácil entender o que o Brasil precisa começar a fazer, para voltar a competir no mercado internacional, em igualdade de condições. Fácil, não?

AVANÇOS DA ESQUERDA

O mundo todo, principalmente os países em desenvolvimento e alguns países europeus, como a França, está vivendo uma verdadeira “guerra fria”, em que trabalhadores e jovens estudantes, doutrinados por numerosos intelectuais, abraçaram velhas teses socialistas e pretendem desenvolver uma pregação revolucionária contra o atual sistema capitalista. A tese básica é a de que o capitalismo burguês é injusto, concentrador de renda e responsável pela crescente desigualdade social.

O Brasil é um campo fértil para essas ideias e um objetivo apetitoso para os comunistas internacionais, desde os tempos em que a Internacional Comunista comandada pela antiga União Soviética decidiu conquistar o mundo subdesenvolvido. A exemplo do que acontecera nos países do Leste Europeu, a América Latina passou a ser o alvo visado, como aconteceu com Cuba, em 1956. Muito antes, no Brasil de Getúlio Vargas, foram desencadeados esses ataques, sob o comando de Carlos Prestes, assessorado por comunistas russos, que levaram à Insurreição de 1935, com a tomada de quarteis na Praia Vermelha, no Rio, e também em Recife. Frustrada essas tentativas, os comunistas voltaram a se organizar e conseguiram infiltrarem-se na política, com a criação do PCB, PC do B e outros partidos de esquerda, inclusive uma importante ala do PT.

Um movimento silencioso, de longa data, vem se desenvolvendo nas escolas brasileiras, onde muitos professores dedicam-se a semear ideias marxistas/gramcistas, com a ajuda de livros didáticos e revistas visivelmente impregnadas de subversão da democracia e contra o sistema capitalista.

 

ATIVIDADES ECONÔMICAS

A economia brasileira está estagnada, os empresários estão desanimados e o Governo perdeu o rumo. Segundo a FGV, o clima econômico e a falta de confiança no Governo, atingiram nível idêntico a janeiro de 1999, o pior patamar desde 1993 (Gov. Itamar). Em novembro, a intenção de consumo das famílias (ICF) teve queda de 0,8% ante outubro e de 6,1%, em relação a novembro/13. O consumo de energia elétrica, no 3º trimestre, cresceu 0,2% sobre igual período de 2013.

A crise da água agrava a situação econômica, mas o secretário do MME, Marcio Zimmermann, assegura que o risco é muito baixo e não há chance de racionamento em 2015.

De janeiro a outubro, os pedidos de falência caíram 3,1% (Serasa).

 

Indústria

Após dois meses de crescimento – 0,7% em julho e 0,6% em agosto – a produção industrial voltou a crescer 0,2% em setembro, ante agosto, mas com queda de 2,2% no acumulado dos últimos 12 meses. No ano, a indústria recuou -2,9%, o sexto resultado negativo seguido, com destaque para a indústria de transformação (-3,9%) e os segmentos de bens de capital (-8,2%) e de consumo durável (-9,6%). Houve aumento em 2014 nos setores de informática e produtos eletrônicos (+3,6%), ao lado da forte queda na indústria automobilística (-18,1%). Regionalmente, as maiores quedas ocorreram no Rio de Janeiro (-5,6%) e Recife (-2,2%). Em São Paulo, o INA subiu 0,1% em setembro.

De agosto para setembro, a indústria cortou 0,7% de seu quadro de pessoal, acumulando no ano 2,8% de demissões. Em São Paulo, o nível de emprego na indústria caiu 0,37% em outubro.

A indústria automobilística vem puxando para baixo o resultado geral. De janeiro a outubro, registrou queda de 16,0% na produção e redução de 29,9% nas exportações. A produção de petróleo e gás, em setembro, chegou a 2,92 milhões de barris, alta de 0,1% sobre agosto, sendo +1,4% em petróleo e -2,2% em gás. No pré-sal, foram produzidos 533 mil barris/dia de petróleo e 18,3 milhões de m3 de gás.

Pela 2ª vez no ano, o Grupo Gerdau reduziu seu plano de investimentos na siderurgia brasileira.

Comércio

Em setembro, ante agosto, as vendas do comércio varejista tiveram um aumento de 0,4%, confirmando a desaceleração do setor. No acumulado do ano, houve alta de 2,6% e, em 12 meses, de 3,4%. Destaques: móveis e eletrodomésticos (+1,8%), uso pessoal (+1,2%), combustíveis e lubrificantes (+0,7%) e material de construção (+0,5%). Houve queda nas vendas do comércio automotivo (-0,6%).

No corte regional, sobressaem Acre (+13,7%), Rondônia (+19,0%) e Amapá (+8,0%). O faturamento do setor atacadista caiu 2,38% em setembro, pelo 4º mês consecutivo e no acumulado do ano cresceu apenas 0,2% (FIA/Abad). No ramo seguros, as vendas de setembro sobrepassaram setembro/13 em 34,8%. Segundo a Fecomércio-SP, em agosto as vendas no varejo em São Paulo caíram 9,9% em relação a agosto/13.

A intenção de consumo das famílias (ICF/CNC) sofreu queda de 0,8% em novembro, ante outubro, e de 6,1% sobre novembro/13. O índice de confiança do empresário do comércio caiu 1,6% em outubro. As vendas da Walmart no Brasil tiveram queda de 0,7%, no período julho a setembro. Nos Estados Unidos, no mesmo período, as vendas do Grupo aumentaram 3,4%.

Agricultura

Apesar do câmbio, dos juros, da burocracia, da seca e do Governo, a agricultura vai bem. A alta dos preços no início do ano deu um forte alento aos produtores rurais para plantar e investir. A safra 2013/14 está avaliada em 193,5 milhões de toneladas de grãos e promete seguir crescendo, apesar da ligeira retração do mercado internacional e queda nos preços das principais commodities. A CONAB baixou a previsão da safra de trigo de 7,67 milhões de tons. para 7 milhões. A moagem de cana até meados de novembro registrou um pequeno crescimento de 0,47% em relação à safra anterior. As incertezas em relação aos preços levaram à queda de 20% nas vendas de tratores e colheitadeiras, no período de janeiro a outubro.

A pecuária cresceu 2,5% em 2014.

 

Mercado de Trabalho

Segundo o IBGE/PNAD, a taxa de desemprego em junho ficou em 6,8%, contra 7,1% no primeiro trimestre.

O mercado formal de trabalho registrou, em setembro, saldo negativo de 30.283 empregos, o pior resultado dos últimos 16 anos, com queda de 11.849 na indústria, 33.556 na construção civil e 19.624 na agricultura; registram alta de 32.771 o comércio e de 2.433 os serviços. A Caged informa que nos últimos 12 meses foram criadas 473.796 vagas com carteira assinada. De janeiro a outubro, a indústria acumula perdas de 2,8% nos postos de trabalho. O HSBC demitiu cerca de 1.000 funcionários.

O reajuste salarial médio resultante das negociações coletivas de setembro foi de 7,7%, com ganho real de 1,39%.

 

Setor Financeiro

Aumentaram a especulação e as incertezas no mercado financeiro, em decorrência da decisão do Governo de enviar ao Congresso Nacional projeto que elimina a meta de superávit primário. Depois de recuar em setembro, a taxa média de juros para pessoa física subiu ligeiramente em outubro. Os empréstimos bancários subiram 7,4% em setembro.

Muitas empresas estão com problemas de caixa e atrasando pagamentos aos bancos. O Santander Espanha adquiriu 13,65% do capital do Santander Brasil. O Itaú Unibanco, o Bradesco e o Santander lucraram mais 26,9% em nove meses, comparado com o mesmo período de 2013.

 

Inflação

Assim como a economia, a inflação também está estagnada. Cresceu muito no primeiro quadrimestre, mas desde maio vem registrando clara tendência de queda. Nos últimos seis meses, os preços perderam força, tanto no varejo, como no atacado e o IPCA/IBGE subiu 0,42% em outubro, com alta média mensal de 0,35% no ano. Os preços no atacado registraram acentuada baixa de maio a setembro, mas voltaram a crescer em outubro. O IGP-DI/FGV subiu 0,28%.

Ao que tudo indica, os índices de preços das principais commodities, em 2014, vão permanecer dentro do teto superior da meta, mesmo após os reajustes da gasolina, da energia elétrica, das tarifas urbanas e da taxa de câmbio.

O grupo alimentação vem contribuindo com apenas 15% para a inflação, contra 40% em 2013. Estão em queda, nos últimos meses, os preços básicos do minério de ferro, do petróleo, da soja, do milho, do trigo e do algodão. Sobem mais fortes os preços das carnes e do café.

Setor Público

O setor público registrou em outubro déficit primário de R$ 25,5 bilhões, na contramão de toda a lógica administrativa. Mas os investimentos federais cresceram 20% após três anos parados. No último leilão de pré- fixados, a venda de LTN para 2018 foi feita com juros de 13,04%.

O PMDB está atuando para aprovar, até início de dezembro, o projeto de LDO que elimina a meta de “superávit primário”. Para reforçar o caixa do Tesouro, o BNDES repassou R$ 4,8 bilhões no 1º semestre e R$ 4,3 bilhões no 3º trimestre, a título de dividendos e juros sobre capital próprio. Também para gerar caixa, a Petrobras vendeu para a China National Petroleum, por US$ 2,6 bilhões, 100% de suas ações na Petrobras Energia, no Peru.

O Congresso Nacional aprovou Projeto de Lei que reduz em R$ 59 bilhões as dívidas dos Estados e Municípios com a União e aumentou seus limites de endividamento de 120% para 200% da Receita.

A recente queda no preço do petróleo, de US$ 100/barril para menos de US$ 80, vai reduzir os repasses advindos da produção do pré-sal, para a União, Estados e Municípios. Segundo analistas, o Governo está pensando seriamente em aumentar a carga tributária – Cide, PIS/COFINS, CPMF.

 

Setor Externo

A balança comercial encerrou outubro com déficit acumulado de US$1,87 bilhão, resultado de US$ 191,9 bilhões de exportações e US$ 193,8 bilhões de importações. As exportações de produtos básicos cresceram 8,9% em volume, mas caíram 6,3% em preços. Caíram 10% as exportações de manufaturados e 3,8% de semimanufaturados. As exportações de minério de ferro caíram 20%, devido à queda de 40% nos preços. Houve ligeira redução no comércio com a China que perdeu para os Estados a posição de principal parceiro do Brasil. No início de novembro, houve déficit de US$747 milhões.

Em outubro, sobre setembro, as exportações de carne e de frango passaram de 331,4 mil tons. para 328,7 mil, as de carne bovina subiram de 90,4 mil para 113,4 mil e as de suíno de 36 mil para 43,6 mil. De janeiro a setembro, a balança comercial da indústria de transformação teve déficit de US$ 49,2 bilhões.

O Brasil sofre com a queda dos principais produtos de exportação: o minério de ferro, que chegou a cerca de US$ 150/tons., caiu em novembro para US$ 75/ton., o petróleo Brent de US$115/barril, em junho, caiu a US$ 77 em novembro, e a soja caiu de US$12,50/bushel em junho para US$9,20 em setembro, subindo a US$10,50 em novembro.

As contas cambiais registraram entrada líquida de US$ 6,9 bilhões em outubro, acumulando em dez meses US$ 8,3 bilhões.

 No cenário internacional, há sinais positivos. A Índia e os Estados Unidos assinaram acordo tarifário que destrava as negociações na OMC e pode injetar US$ 1 trilhão na economia mundial. A OCDE reduziu a previsão de crescimento global de 3,4% para 3,3%, em 2014, com alta da inflação.

Nos Estados Unidos, o mercado de trabalho melhora e o PIB cresceu a uma taxa anualizada de 3,5% no 3º trimestre. A taxa de desemprego é a menor desde 2008. Mas o déficit comercial aumentou em setembro.

Na Zona do Euro, o PIB cresceu 0,2% no 3º trimestre, com previsão de chegar de 0,8% a 1,3% no final do ano, inflação de 0,5% e taxa de juros do BCE de 0,05%.

A Rússia, que atravessa difícil situação econômica e ameaça de crise financeira, adotou a livre flutuação do rublo e fechou importante acordo para vender gás à China.

Na China, a atividade industrial em outubro atingiu o maior nível em três meses. O País assinou um acordo tarifário de US$ 1 trilhão, com os Estados Unidos. O PBOC (o BC chinês) injetou US$ 126 bilhões no sistema bancário. Algumas siderurgias suspenderam atividades para reduzir a poluição atmosférica. Com a redução da demanda e o aumento das ofertas da Vale, da BHP e da Rio Tinto, o preço do minério de ferro caiu a US$ 75,84 a tonelada.

O Japão continua estagnado e planeja mais estímulos para acabar com a deflação e retomar o crescimento. 

*Ernane Galvêas - Consultor Econômico da Presidência