Fitch: práticas de contratação da Petrobras podem impactar crescimento

Os recentes escândalos envolvendo as práticas de contratação na Petrobras podem ter implicação negativa na eficácia da companhia em negociar com fornecedores de equipamentos, já que seus executivos provavelmente terão maior cautela ao assinar ou aditar contratos, de acordo com a Fitch Ratings. Esta questão se mostrará mais relevante em caso de mudanças nas especificações de unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência (FPSOs) em construção — o que poderia gerar atrasos nas entregas e, por conseguinte, afetar o crescimento da produção a longo prazo. A curto prazo, os recentes e significativos aumentos de produção registrados em 2014 devem se manter no mesmo ritmo em 2015.  

A estatal brasileira afirmou, na semana passada, que não cumpriria o prazo final, em 14 de novembro, para publicar as demonstrações financeiras do terceiro trimestre de 2014, em face das denúncias de corrupção. A empresa anunciou seus planos de divulgar os resultados não auditados em 12 de dezembro. Segundo a agência Bloomberg, a PricewaterhouseCoopers informou, no último mês, que não assinaria os resultados reportados pela Petrobras e alertaria as autoridades dos Estados Unidos, caso uma medida apropriada não fosse adotada para investigar as acusações. Alguns contratos da Petrobras incluem covenants afirmativos, que requerem que a empresa reporte demonstrativos financeiros trimestrais não auditados até noventa dias após o fim de cada trimestre, excluindo o quarto trimestre, além de demonstrativos financeiros auditados referentes ao fim do ano fiscal até 120 dias após o término de cada exercício. A falha no cumprimento desta exigência deve gerar problemas para a Petrobras acessar dívida por meio dos mercados de capitais, nos quais a empresa se apoia para captar parte significativa de seus investimentos. Além disso, o escândalo expôs a fragilidade da governança corporativa da companhia, que falhou em impedir as práticas de contratação ora investigadas.   

A Fitch acredita que existem vários fatores que podem afetar o aumento da produção da Petrobras, e a maioria diz respeito a riscos de execução. O principal risco de execução para o aumento da produção está ligado à obtenção de equipamentos essenciais, incluindo FPSOs, sondas de perfuração offshore e navios de instalação de dutos (PLSVs). O perfil de crédito da Petrobras, no futuro, está fortemente vinculado à habilidade da companhia em aumentar a produção, a fim de impulsionar a geração de fluxo de caixa, diminuir a dependência de importações e reduzir as perdas de caixa no refino.

A qualidade de crédito da Petrobras se enfraquecerá se as investigações para apurar as denúncias de corrupção resultarem em penalidades monetárias e perda de ativos. A estrutura de capital e o agressivo plano de investimentos da companhia possibilitam pouco espaço para absorver cargas financeiras significativas adicionais, bem como para manter os ratings da empresa nos patamares atuais. Ao final do período de 12 meses encerrado em junho de 2014, a alavancagem da Petrobras, medida pelo índice dívida total/EBITDA, era de 5,4 vezes. Este indicador é alto para a categoria de rating e está acima do patamar adotado pela Fitch para realizar ações de rating negativas, baseado em índices sustentáveis de 5,0 vezes.

Os ratings da Petrobras incorporam o atraso de seis meses no início das operações dos FPSOs. Cada atraso adicional de seis meses reduz as estimativas para 2018 em cerca de 300 mil barris de óleo equivalente por dia (boed). Atrasos de, em média, 12 meses ou mais para tornar novas unidades de produção operacionais podem enfraquecer significativamente a qualidade de crédito individual da Petrobras e resultar em ações de rating negativas. No final de setembro de 2014, a companhia reportou, em comparação com o ano passado, aumento de 7,9% na produção — que passou para cerca de 2,78 milhões de boed, de 2,58 milhões de boed em 2013.