"FT": Estagnação na zona do euro é inevitável

Alívio quantitativo deverá ter força limitada e há pouco dinheiro no cofre

O Financial Times publicou nesta quarta-feira (12/11), um artigo onde analisa com pessimismo a situação econômica europeia. "A rentabilidade nos mercados da dívida soberana da zona do euro caiu a níveis tão baixos que está, de fato, indicando recessão e uma incipiente japonização da região. Ao mesmo tempo, as taxas de rentabilidade nos títulos corporativos da zona do euro seguiram passivamente as quedas das taxas de rentabilidade deste ano, apesar do fato de que a recessão normalmente implicaria num maior risco do crédito, mais falências de empresas, queda dos preços de títulos de empresas e aumento da rentabilidade. Como essa aparente contradição pode ser racionalizada?", escreve o jornalista John Pendler.

"Uma possível explicação é que pelo fato de muitos observadores do mercado esperarem que o Banco Central Europeu aumente seus ativos comprando para incluir os títulos de empresas, ou até mesmo títulos soberanos, os investidores acreditam que o banco central está prestes a se tornar um comprador de última instância de depósitos IOUs superfaturados. Nesse caso o risco de crédito no setor corporativo se torna irrelevante. Estaríamos caminhando na direção de um mundo de empresas-zumbi no melhor estilo japonês. Empresas falidas mas que estão sempre sobrevivendo graças ao Banco Central Europeu e onde os bancos desaprendem a disciplina do risco de crédito. Nesse cenário os mercados de dívidas soberanas e corporativas caminham na mesma sintonia.

Apesar disso, é possível presumir muita sofisticação no comportamento do mercado. Uma história mais plausível é que os investidores têm simplesmente buscado rentabilidade independente do risco e a possibilidade de compra de títulos corporativos por parte do Banco Central Europeu surge como um bônus inesperado. Em ambos os casos, seria imprudente presumir que o aumento proposto do balanço do Banco Central Europeu implicaria necessariamente  num movimento na direção de um alívio quantitativo (QE) total, ao estilo americano ou que o comunicado do Conselho do BCE afirmando ser “unânime em seu comprometimento em usar instrumentos adicionais não convencionais no seu mandato” automaticamente implica em compra de títulos corporativos", diz o artigo do Financial Times.

"Na realidade o alcance dos planos do BCE de compra de ativos continua incerto. Enquanto Mario Draghi, o presidente do banco, indicou que gostaria de aumentar o balanço em um trilhão de euros, ninguém sabe ainda como esse número será alcançado. E aí persistem algumas questões legais sobre se a compra de títulos corporativos e soberanos se está dentro dos limites do mandato. O BCE é afinal de contas modelado a partir do Bundesbank. Se o presidente do Bundesbank Jens Weidmann se sentisse capaz de assinar embaixo do comunicado sobre recorrer a medidas não convencionais adicionais, deve ser porque ele não quer ou não espera incluir qualquer coisa que tenha grandes implicações fiscais em potencial.

Tão importante quanto isso, o “quantitative easing” (QE) agiria de forma bem diferente na zona do euro. Nos EUA o crescimento foi substancialmente estimulado através de um efeito-riqueza resultante do aumento dos títulos e ações. Já na zona do euro, os mercados de títulos desempenham um papel bem menor na intermediação financeira. Enquanto o aumento nos mercados de ações nos EUA esteve intimamente ligado à expansão do balanço do Federal Reserve com o QE, não se nota essa correlação na Europa. O Instituto de Finanças Internacionais, clube que reúne os maiores bancos do mundo, indica que o índice Euro Stoxx perdeu cerca de 20% quando o balanço do BCE cresceu 60% entre julho de 2011 e meados de 2012. Desde então, o índice do mercado de ações subiu 35% enquanto o balanço do BCE encolheu mais de um trilhão de euros", prossegue Pendler.

"Na realidade a zona do euro já sofreu um efeito-riqueza baseado na repercussão vinda dos EUA: há uma correlação muito mais íntima entre os índices Euro Stoxx e o S&P 500 do que com o BCE. A questão então é como o QE poderia provocar estímulo quando as rentabilidades de títulos estão tão baixas e as ações já subiram diante de uma economia da zona do euro em estagnação e como  exatamente aumentaria os mercados imobiliários visados pelo BCE e  impulsionariam os empréstimos?

A probabilidade é que, como muitos do conselho de administração do BCE acreditam, o QE terá um poder limitado e que não há muita coisa sobrando no cofre monetário. A chave para lidar com a fraca demanda na zona do euro reside na política fiscal. Claro, o BCE pode fazer qualquer coisa. Compras de ativos são quase orçamentais na medida em que elas expõem os contribuintes europeus ao risco de perda de capital e inadimplência. Com os baixos níveis de rentabilidade de hoje, perdas de capital parecem quase uma certeza. Isso é um elemento central no caso de ceticismo sobre um QE total.

No final das contas, o problema da zona do euro é político. Até a Alemanha ser levada a considerar uma política fiscal mais expansiva, a estagnação é inevitável. Pode ser que leve um tombo, com níveis até mais altos de desemprego na zona do euro, para implantá-la", conclui o artigo.