‘El País’: Portugal, à venda

Queda do Espírito Santo e venda da operadora PT colocam em questão poder econômico do país

Um artigo do El País publicado nesta segunda-feira (10/11) fala sobre as dificuldades enfrentadas pela economia portuguesa. “Portugal não pode ser desarmado. Os órgãos da soberania devem interpretar fielmente a busca do bem comum que é propriedade da Nação”. Ainda que pareça, Portugal não está sendo agredido belicamente, mas, ao que parece, desarmado economicamente. Hoje é a Portugal Telecom, um pilar do país, transformada em moeda de troca da brasileira OI, ontem os hospitais, anteontem a rede elétrica e a rede de água”, alerta a matéria de Javier Martín.

Políticos, economistas, acadêmicos, da direita do país (CDS) até a esquerda (Bloco de Esquerda), assinaram um manifesto para deter a desertificação empresarial. “A gravidade da situação da PT é incompatível com silêncios e omissões”, continua o Apelo para o Resgate da PT. “Está em jogo o interesse nacional em sua mais genuína interpretação. Está em jogo a busca do bem comum e a defesa estratégica da soberania nacional. Por isso exigimos das autoridades políticas e públicas uma atuação intensamente ativa”.

A PT é o último caso de perda de tecido industrial, acelerada nos últimos anos com o programa de privatizações exigido pela troika, e nos últimos meses com a derrubada do Banco Espírito Santo (BES), que não se pode imputar ao FMI, nem ao Banco Central Europeu, nem a Bruxelas. Agora Portugal está à venda.

“Detesto os investimentos chineses”, exclamou Alexandre Soares dos Santos, um dos ícones empresariais nacionais, no fórum Exame de Portugal. “Não trazem know how, não trazem gestão, não trazem nada”. O grande empresário dos supermercados Pingo Doce esqueceu de citar o que a China está trazendo para Portugal: dinheiro.

Portugal não tem dinheiro; as empresas não têm dinheiro, as pessoas não têm dinheiro (a alta taxa de poupança de 14% significa medo, embora o desemprego tenha caído para 13,1%). “Neste país, as empresas não são criadas com o dinheiro do empresário, são criadas com crédito”, sempre lembra António Costa, diretor do Diário Econômico. Se há benefícios, eles vão para fora; se a empresa fracassa, fica com o banco e, agora, quem vai à falência é o banco que os abrigava, o BES.

A presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, confirmava recentemente o mal: “A falta de capital das empresas é um problema crônico. O problema da dívida portuguesa não é apenas do Estado, é também das empresas.”

“A falta de capital é um drama”, explicava no mesmo fórum de empresários, o presidente da construtora Mota-Engil, Gonçalo de Moura. “As empresas não podem crescer só com financiamento bancário.”

Salvador de Mello, que dirige o grupo de saúde privado José de Mello Saúde, é o mais otimista. “Acho que é possível crescer ao redor de 3% anuais”, embora nem o próprio Governo acredite nisso, ao prever 1,5% para 2015 (a CE aposta em 1,3%). Para De Mello, a fórmula passa por reduzir o gasto público e o peso do Estado. “Temos que abandonar de uma vez o conceito de Estado-empresário em favor do Estado-regulador.” O executivo coincidia, em parte, com a crítica de Soares de Santos ao dinheiro que está entrando. “Gostaria que fosse produtivo e não apenas transferência de propriedade, como está ocorrendo.”

O ex-ministro das Finanças, Medina Carreira, é mais pessimista sobre o futuro de Portugal. “Neste panorama europeu, com a incapacidade para atrair investimento e a incapacidade para reduzir gasto público, estamos a caminho de uma grande crise financeira pública. É muito provável que em um prazo relativamente curto, Portugal tenha que pedir ajuda internacional a seus credores.”

“Depois de três anos de vigilância, a troika foi embora de Portugal em maio. Na semana passada, voltou para ver como estava o país sem eles. Seu informe, publicado na quarta-feira, não deixa lugar a dúvidas: “(...) o esforço para reduzir o déficit estrutural orçamentário diminuiu claramente. O empenho nas reformas estruturais ficou debilitado.”

O ex-ministro lembra que o ajuste devia ser feito, segundo o compromisso contraído com a troika, 2/3 pela via da redução de gasto público e outro 1/3 pelo aumento da arrecadação. A realidade é que o corte de gastos, em lugar de ser 66% do ajuste, só significa 22%, por isso o peso dos impostos subiu de 33% para 78% do ajuste, com o consequente estrangulamento do consumo das pessoas, que precisam pagar 2,85 euros (9 reais) para subir no trem ou 15 euros (47,88 reais) para ser atendido em emergências.

Não é estranho, por isso, que esta semana os auditórios portugueses tenham lotado para ouvir Patxi Andion cantar ‘vão nos mandar a conta e você terá que pagar, e eu, terei que pagar também; será preciso pagar’.”, conclui o artigo do El País.