Custo Brasil e gastos de brasileiros aumentam déficit na balança do Turismo

Gasto de brasileiros no exterior em um mês foi metade dos estrangeiros aqui no acumulado do ano

Agosto foi mais um mês de recorde nos gastos dos brasileiros em viagens ao exterior, foram US$ 2,354 bilhões em despesas de acordo com registro do Banco Central, divulgado nesta semana. O valor equivale a um pouco menos da metade do que os turistas estrangeiros gastaram no Brasil de janeiro a agosto, US$ 4,935. Mesmo a Copa, um dos "megaeventos" que eram apontados como a chance do país atrair maior movimentação turística, garantiu um acréscimo de apenas 8,7% no acumulado deste ano nos gastos dos visitantes, em relação ao ano passado. 

De janeiro a agosto, o déficit chegou a US$ 12,319 bilhões, ante US$ 12,073 bilhões em igual período do ano passado. Na última semana, o BC revisou a projeção para o déficit na conta de viagens internacionais de US$ 18 bilhões para US$ 18,5 bilhões, este ano.

>> Gastos de brasileiros no exterior em US$ 2,354 bi são recorde para agosto

O comportamento dos brasileiros em relação às compras, comparado com os hábitos de pessoas de outros países como os europeus, não ajuda muito a reduzir esse déficit na balança comercial de Turismo brasileira. O Custo Brasil, no entanto, que garante que uma viagem por aqui possa ser muito mais cara do que uma viagem pelo Caribe, por exemplo, atrapalha ainda mais. 

Trata-se de uma disparidade bem difícil de se reverter no médio prazo, acredita Mário Beni, professor titular aposentado de Turismo da USP e professor do curso de Pós-Graduação da UnB. Para ele, a esperança atual para o mercado de Turismo brasileiro vem muito mais do mercado interno, ou seja, do fluxo dos brasileiros pelo próprio país, do que de um aumento da movimentação ou dos gastos de estrangeiros por terras brasileiras. 

Além do perfil do turista que visita o Brasil ser diferente do comportamento do brasileiro, o do turista que visita o país pela Copa é ainda ainda mais específico, conforme explica Beni: "Quem vem para uma Copa não gasta muito. Ele é o turista com outro perfil, não é o perfil daquele que gasta, pelo contrário, ele economiza. O comportamento de gastos é muito diferente dos hábitos do turista de lazer, é mais baixo", explica.

Beni acredita que o déficit na balança deve permanecer e lembra que a conta do receptivo é deficitária há mais de 15 anos, "aliás, nunca foi positiva", e só se amplia. No ano passado, 9 milhões de brasileiros realizaram viagens internacionais, enquanto o país atraiu em torno de 6 milhões de estrangeiros. Mas o que os brasileiros gastam lá fora é muito mais expressivo.  "O estrangeiro é mais controlado do que o brasileiro, não é um 'gastador'", comentou.

Para ter uma ideia da contribuição dos gastos dos brasileiros para o déficit, vale notar o alto fluxo em Miami, destino de compras que substituiu o que já foi o Paraguai com o barateamento das passagens aéreas. O Brasil foi o primeiro mercado em emissão de turistas para Miami em 2012, pelo segundo ano consecutivo, e também o maior em geração de receita para o destino norte-americano.

"O brasileiro entra numa loja e gasta, vai nos melhores restaurantes. O perfil do turista europeu não é de consumismo. O americano gasto um pouco mais e o europeu menos, até por uma questão de formação cultural, eles viveram duas guerras. Mas esses turistas, a lazer, gastam muito mais do que aquele que vem especificamente para a Copa. Este, então, não gasta nada, só o necessário para dormir e comer", ressalta Beni. 

Segundo o professor, uma perspectiva de melhora no Turismo do país vem muito mais do Turismo interno, pois a característica do externo é determinada, principalmente, pela competitividade do mercado internacional.  

"O Brasil é um destino caro, um dos mais caros do mundo, e depende de uma série de providências, algumas delas do governo federal, por exemplo a desoneração fiscal dos hotéis, restaurantes. Tem que baixar o Custo Brasil, que é muito elevado. Se você compara um fim de semana em qualquer país do Caribe, com o que se gasta em uma semana no Nordeste (brasileiro) você fica um mês no Caribe ou vai para a Europa."

De acordo com dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), o Caribe teve receita cambial de US$ 24,8 bilhões no ano passado e teve 21,2 milhões chegadas de turistas internacionais, no ano passado -- valores quase quatro vezes maiores que os do Brasil e também maior do que a receita da América do Sul inteira, de US$ 23,9 bilhões, o Brasil sendo responsável por 28% deste montante, com US$ 6,7 bilhões. 

Regiões com ofertas turísticas mais consolidadas como América do Norte registraram receita de US$ 489,3 bilhões e US$ 171 bi, respectivamente. Em fluxo de turistas internacionais, Europa e América do Norte receberam 563,5 milhões e 110,1 milhões, e a América do Sul ficou com 27,4 milhões - o Brasil com 5,8 milhões (21%). Estados Unidos, Espanha e França tiveram uma receita de US$ 139,6 bi, US$ 60,4 bi, e US$ 56,1 bi, respectivamente. 

Beni alerta que o Custo Brasil inviabiliza o receptivo internacional, com tarifa aérea, restaurantes e hotéis, entre outras coisas, com preços muitos altos. O quadro, sugere o professor, deve permanecer desta forma enquanto não houver reforma tributária, desoneração da hotelaria, dos restaurantes. A fusão de empresas aéreas brasileiras com outras internacionais, todavia, pode dar maior competitividade às tarifas. 

"Se essas empresas realmente trabalharem com uma política tarifária menor, eu até começo a acreditar que essa realidade pode mudar um pouco", disse. "Para reverter esse quadro só existe uma forma, a América do Sul começar a fazer um processo de multidestinos, para tentar competir com a tarifa aérea do Atlântico Norte (Estados Unidos e Europa). A tarifa aérea do Atlântico Sul é muito cara -- 75% do tráfego aéreo mundial é na Europa e nos Estados Unidos. Está crescendo muito também o tráfego turístico do Sudeste asiático, eles estão com um fluxo de 45 milhões. Se você for comparar, a América do Sul tem 21 milhões, só o México recebe 22 milhões de turistas".

A contribuição da América do Sul para a receita cambial do Turismo no mundo era de 2,61% em 1999 e hoje corresponde a 2,06%. Já a contribuição do Brasil para a da América Latina avançou consideravelmente, de 14% há 15 anos para 23% no ano passado.

A Copa do Mundo, mesmo assim, foi uma ajuda importante para o setor em fluxo de visitantes e também para a receita cambial, conforme destaca José Francisco Salles Lopes, diretor do departamento de estudos e pesquisa do Ministério do Turismo, em conversa com o Jornal do Brasil por telefone. Beni concorda: "Até que a Copa surpreendeu." 

Considerados apenas os meses de junho e julho, os turistas injetaram US$ 1,5 bilhão na economia brasileira, crescimento de quase 60% na comparação com igual período do ano passado. José Francisco salienta que a alta da receita brasileira no acumulado deste ano foi ainda um pouco acima do esperado e que, para o ano, a expectativa é "muito favorável", com o Brasil alcançando, pela primeira vez, a cifra de US$ 7 bilhões em gastos de turistas estrangeiros. Os gastos dos brasileiros no exterior, ele esclarece, devem ser examinados sob uma ótica diferente, devido a uma parcela muito grande que não corresponderia ao Turismo, mas a compras. 

"No dado brasileiro, há um componente muito grande de compras que não se refere a Turismo, então é difícil avaliar. Muita coisa também vem de gasto com cartão de crédito, que não é muito fácil de examinar exatamente o que foi. Se considerar que, normalmente, o turista que viaja -- tirando o brasileiro e o chinês, que também gasta muito -- gasta em média U$ 1.200 dólares, o brasileiro, individualmente, gasta acima de US$ 3 mil dólares, foge ao padrão do gasto do turista internacional, foge muito", salienta José Francisco. 

Em 2003, quando foi criado o Ministério do Turismo, a receita cambial do país estava em US$ 2,479 bilhões.