Nível de emprego cresce mesmo com crise internacional

Mas produtividade da mão de obra precisa aumentar

A crise econômica internacional de 2008 não afetou o nível de emprego no Brasil que vem apresentando crescimento desde aquela época até o momento e, ao que tudo indica, dá sinais de que essa tendência será mantida. Os estímulos dados pelo governo, como isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para diversos setores e aumento da oferta de crédito aos consumidores, cumpriram seu papel mantendo a economia aquecida e, principalmente, sustentando o nível de emprego no país.

O resultado dessa política foi a criação média anual de 1,66 milhão de empregos nesses cinco anos e sete meses, conforme os dados disponíveis no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Nos anos de 2010 e 2011 esse crescimento ultrapassou a casa dos dois milhões atingindo 2,6 milhões e pouco mais de 2 milhões, respectivamente. Os principais setores responsáveis pela criação de novos postos de trabalho foram, na ordem decrescente: serviços, comércio e indústria da transformação. Esses bons resultados, no entanto, não abrandaram as críticas de analistas econômicos que continuam enxergando crises sem precedentes para o país.

Para o ex-ministro Delfim Neto, há, na verdade, um pessimismo muito maior do que a realidade que temos. Segundo ele, não há desequilíbrio econômico como muitos vêm alardeando, o risco da inflação também não corresponde ao que se fala e o risco cambial está sendo corrigido. “Existe um exagero muito grande”, afirma Delfim referindo-se aos comentários catastróficos. Para ele, é necessário aumentar a produtividade da mão de obra com investimentos governamentais em educação, capacitação, entre outras frentes.

Os números também contestam as opiniões pessimistas e mostram um mercado de trabalho robusto que surpreende vários economistas. A taxa de desemprego caiu de 5,6% em julho para para 5,3% em agosto, conforme divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE) na quinta-feira (26/9). Além disso, o levantamento mostrou ainda que o rendimento médio do trabalhador teve alta de 1,7% no mesmo período, passando para R$ 1.883,00.

CRESCENDO NA CRISE

Em 2008, com o início da crise desencadeada nos Estados Unidos, foram criados no Brasil 1,7 milhão de postos de trabalho, sendo que, desse total,  760 mil foram no setor de serviços, 450 mil no comércio e 200 mil na indústria de transformação. No ano seguinte, já com as medidas tomadas pelo governo, a criação de postos de trabalho foi de 1,4 milhão, sendo 663 mil em serviços, 400 mil no comércio e 51 mil na indústria de transformação. Este último setor foi o mais afetado pela crise.

Em 2010, com a retomada do desenvolvimento e o Produto Interno Bruto (PIB) apresentando um crescimento de 7,5%, a criação de empregos foi  de 2,6 milhões de postos de trabalho, sendo que na indústria de transformação houve a criação de 554 mil vagas, o que representou um crescimento de mais de dez vezes de comparado com o ano anterior. No setor de serviços foram um milhão de postos e o comércio foi de 636 mil.

Em 2011, ainda no embalo do crescimento, foram criados 2 milhões de empregos puxados pelos serviços, com 958 mil, seguido do comércio, com 477 mil, e a indústria de transformação, com 224 mil.

O ritmo da criação de empregos em 2012 apresentou uma queda, mas ainda assim com crescimento de 1,3 milhão sendo a indústria de transformação o setor com menor número de novos postos, somando apenas 92 mil. O setor de serviços com 700 mil e o comércio com 400 mil. Neste ano, até agosto, já foram criados um milhão de novos postos devendo fechar o período com um resultado próximo do ano passado. Mas, a indústria de transformação teve uma boa recuperação com 213 mil postos já criados no período, 464 mil no setor de serviços e 55 mil no comércio.

A possibilidade deste ano apresentar o mesmo nível de criação de empregos verificado no ano passado poderá suscitar novas análises catastróficas, mas certamente não se poderá negar que,  ainda assim, haverá crescimento dos postos de trabalho. E, as perspectivas para o próximo ano, só deverão sinalizar para algum horizonte a partir do resultado de indicadores econômicos internacionais a partir do primeiro trimestre de 2014.

Para o professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Luis Saboia, a base de sustentação do crescimento do emprego nesse período se deve ao comércio e serviços onde os salários são menores. “São setores com grande capacidade de absorção de mão de obra”, afirmou ele. A indústria de transformação, segundo Saboia, onde os salários são melhores há uma retração.

CRESCIMENTO ECONÔMICO

Caso a economia não volte a crescer, ressalta João Luis, haverá uma maior dificuldade de se manter esse ritmo de crescimento do nível de emprego.  No entanto, de acordo com a perspectiva do próprio mercado, o crescimento do PIB, que vinha apresentando uma redução, ficou estável. De acordo com o Boletim Focus do Banco Central, que mostra a expectativa das instituições financeiras em relação aos indicadores econômicos, no início do mês os analistas previam um crescimento do PIB de 2,20% para este ano. No final do período, essa expectativa aumentou para 2,40%.

Para o ex-ministro Delfim Neto, o desempenho da economia daqui por diante vai depender muito dos investimentos em infraestrutura. “Um produtor de soja de Mato Grosso chega a pagar o equivalente a cerca de 400 Kg do produto para entregar no Porto de Paranaguá (PR). Isso é uma absurdo. Com as concessões que estão sendo feitas há possibilidade de se chegar a um custo de 200kg para essa mesma operação”, afirmou ele. Delfim discorda das críticas em relação aos ajustes que o governo vem fazendo nas concessões e leilões públicos em infraestrutura. “Se havia erro e está sendo corrigindo, graças a Deus! O que eles queriam? Que o erro continuasse? Errar é humano, persistir no erro é para políticos”, afirmou ele.