Redução de liquidez na economia internacional é desafio para o Brasil   

Rio de Janeiro - O cenário futuro aponta para mudanças nas condições da economia internacional, mas isso não significa que o quadro será pior no médio prazo, avaliou hoje (17), em entrevista à Agência Brasil, o coordenador da Área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Armando Castelar. “Significa que alguns preços na economia vão mudar, como o câmbio vem mudando”, disse o economista, que participa da segunda edição do ano do Seminário de Análise Conjuntural, organizado pelo Ibre.

O desafio, acrescentou, será administrar essa transição de um mundo que tinha muita liquidez, muito dinheiro entrando no Brasil, com exportações mostrando bons resultados, para um mundo em que esses elementos vão ser diferentes. Ele advertiu que o problema é que essa transição ocorre em um momento em que a economia do país já estava com seus fundamentos abalados, com inflação em alta e uma política fiscal “bastante esticada”.

Há uma situação que o economista definiu como “esquisita”, na medida em que o Banco Central está elevando os juros para conter a demanda e, ao mesmo tempo, o Ministério da Fazenda vem fazendo uma política fiscal expansionista, com o argumento de que é preciso acelerar a economia. “O Banco Central está esfriando a economia e o Ministério da Fazenda está esquentando. É difícil entender. O resultado, muito provavelmente, vai ser uma inflação relativamente alta e pouco impacto sobre o nível de atividade”.

Para Castelar, a redução do consumo das famílias reflete o fato de que a renda do trabalhador não está crescendo de forma tão rápida como se observava no ano passado. O mesmo ocorre em relação ao emprego. “O crédito ao consumo parou de crescer. Está estável em termos reais, se você desconta a inflação”. Ele ponderou que a elevação dos juros vai reforçar esse movimento de estabilidade do consumo e que os estímulos fiscais vão implicar aumento da inflação.

Indagado sobre a taxa de investimento com relação ao Produto Interno Bruto (PIB), que apresentou uma recuperação importante no primeiro trimestre deste ano, Castelar admitiu que poderá até subir mais um pouco, mas advertiu que o ambiente não é propício para uma expansão muito alta, devido não só à retração do consumo mas também ao não crescimento da demanda. “Eu acho que uma recuperação mais ampla não está muito presente. Os indicadores de confiança de empresários em vários setores estão em queda. Não parece haver uma percepção de que há necessidade de investir porque vai ter muita demanda”.

Outro fator importante, disse Castelar, é que uma parte significativa dos investimentos é feita em máquinas importadas. E a desvalorização do real encarece esses investimentos. Chamou a atenção, ainda, para outro elemento importante que poderia dar um alento extra para os investimentos, que é a questão das concessões que, a seu ver, está muito atrasada.

“Ainda que exista a perspectiva de que algum leilão [de concessão] aconteça nos próximos meses, o investimento em si é improvável que ocorra com alguma significância este ano”, avaliou. Dentro desse cenário, a expectativa é a recuperação do investimento este ano, sem continuidade porém do crescimento em um ritmo forte para frente. Para isso, faltam os fundamentos da confiança empresarial, que justificariam um aumento dos investimentos muito forte, disse Castelar.