Classe média das favelas prospera, mas ainda enfrenta infra-estrutura ruim

Favelas cariocas movimentam R$ 13 bi/ ano, valor superior ao PIB de 13 capitais brasileiras

A casa que o técnico financeiro Marcelo Rios divide com a sua mulher, Cristina, e os três filhos no Morro do Turano, no Rio de Janeiro, não tem mais do que 50 metros quadrados, divididos em apenas três cômodos. Ali dentro, porém, tudo está recém-comprado: laptops, televisão de plasma, geladeira e fogão "zero quilômetros", conta ele. Foram adquiridos  em compras parceladas no carnê e cartão de crédito.

Com renda combinada de R$ 3,900, a família de Marcelo faz parte dos 40 milhões de brasileiros que chegaram à classe média nos últimos dez anos. Dentro deste número estão também os 66% dos moradores das favelas cariocas que ascenderam à "Classe C", famílias com renda de R$ 291 a R$ 1.019 por pessoa. 

Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto Data Popular, órgão que estuda o assunto há mais de dez anos, explica que a ascensão da Classe C foi realmente mais intensa nas favelas, onde se concentram as camadas mais pobres da população. "Esta melhora no Brasil aconteceu de baixo para cima, com os negros e mulheres ascendendo mais", afirma.

No Rio de Janeiro, o movimento foi ainda mais forte do que no resto do país. Eles eram apenas 29% há uma década. Além disso, o número de pessoas que pertencem à classe D caiu, de 59% para 20%. "A economia da cidade está aquecida, devido às obras da Copa e das Olimpíadas, o que sustentou esta aceleração mais forte", analisa.

Contradições aparentes

No entanto, na residência de apenas três cômodos de Rios, os móveis e eletrodomésticos recém-adquiridos contrastam com as ruelas sem asfalto e a falta de saneamento básico que circundam a região. "Nunca vi classe média morar nessa situação, mas se dizem que sou, então eu sou", ri. Segundo ele, é comum ratos entrarem dentro de sua casa, principalmente em épocas de chuva. A família despeja o esgoto em um fossa, já que as redes não chegam ao topo do morro. 

Condições ruins

Os moradores das comunidades atingiram a classe média através do consumo. A vida, contudo, continua difícil, relatam. "Agora temos mais acesso aos produtos, mas continuamos nessa situação de desamparo, não fazem nada pela comunidade", afirma Rios. No Turano, poucos caminhões chegam ao topo, e é comum ver homens carregando pesadas sacolas ou até eletrodomésticos nas costas. 

"Se você quer reformar sua casa, tem que carregar o cimento, tijolo, tudo lá pra cima, é pesado, acaba com a coluna. Se alguém fica doente, demora muito pra chegar no hospital. Toda vez que a gente faz compras é um problema", relata. 

Apesar das dificuldades, a classe C das comunidades continua consumindo. E muito. De acordo com o Data Popular, as favelas do Rio de Janeiro movimentam, sozinhas, R$ 13 bilhões por ano, valor que supera o Produto Interno Bruto (PIB) de 13 capitais brasileiras. Se juntas formassem uma cidade, seria a nona maior do país. 

Negócios

Um dos aspectos que mais prosperou com o aumento da renda são os negócios da região. Em matéria publicada no dia 24 de Agosto, o JB já havia mostrado a opulência do comércio local, principalmente nas comunidades onde as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) já estão implementadas. Para o diretor do Data Popular, os benefícios econômicos da nova classe-média atingiram os pequenos empreendedores de maneira geral.

"As grandes empresas demoraram a chegar, ainda demoram. Sendo assim, com o aumento da renda , quem tinha um negócio na favela conseguiu ampliar. Muita gente também montou seu próprio negócio. Eles acabaram suprindo a demanda dos moradores, de consumir", analisa. 

O cenário está mudando. Antes vistas como reduto de pobreza e marginalidade, as comunidades começam a atrair os grandes empresários. Prova disso, é a chegada da maior rede varejista do Brasil na Rocinha, além de outras redes que inauguraram recentemente suas lojas também no Complexo do Alemão. As favelas juntas somam mais de 130 mil habitantes.

Contradições "gritantes"

Eletrodomésticos, viagens de férias, acesso a internet e aparelhos eletrônicos. Todas são conquistas de consumo relatadas pelos moradores da Classe C das favelas. Mas as condições precárias de seus bairros atrapalham o sonho de ascensão social. 

As contradições são "gritantes", afirma Meirelles. Mas há perspectiva de mudanças futuras, principalmente no Rio de Janeiro. "As favelas não são periferia, elas estão inseridas na lógica da cidade. Têm uma história consolidada, uma noção de comunidade forte, isso é único e beneficia estes lugares", afirma.  

O diretor do Data Popular acrescenta ainda: a mudança definitiva para estes moradores virá apenas com a educação. "Eu acho que, como esta classe média está investindo muito em educação, eles estão tendo uma maior noção de seu papel como cidadãos. Acho que será assim que as pessoas começarão a demandar melhores serviços, melhores condições de vida. No mundo atual, sem consumo é difícil ter cidadania", conclui. 

O vascaíno Rios assina embaixo. "Estimulei meus filhos para que estudassem e eles só conseguiram bons empregos por causa disso", acredita. 

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