Corte de € 27 bilhões na Espanha é um "grande equívoco", afirma economista 

Apesar da reação positiva do mercado, medida beneficia "apenas a minoria" no país, diz especialista

O corte orçamentário de cerca de 27 bilhões de euros anunciado nesta sexta-feira, 30, pelo governo espanhol animou o mercado financeiro europeu. A redução será feita mediante o congelamento dos salários dos funcionários públicos e a diminuição no montante enviado aos ministérios, de 16,9% em média.

Se os investidores das bolsas comemoraram a decisão, a população espanhola não ficou satisfeita com a austeridade da medida, que reduzirá gastos sociais, afetando a educação e saúde do país. Na quinta-feira, 29, cerca de 100 mil pessoas se reuniram em Madrid para protestar. Em Barcelona, a revolta gerou conflitos com a política, que chegou a disparar balas de borracha para dispersar a multidão.

Os principais beneficiados pelo plano são os bancos, os credores da dívida espanhola e a Troika (membros da Zona do Euro), que esperam que a resolução permita ao país pagar seus compromissos financeiros e assim, reduzir a relação entre a dívida e o PIB (Produto Interno Bruto), que atualmente está em 68,5%. 

Corte é um "equívoco" afirma economista

O orçamento para este ano ainda prevê aumento de impostos em cerca de 6 bilhões de euros. Para o professor Fernando Sarti, diretor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), as medidas são “completamente equivocadas”.

“Esta resolução foi feita para agradar os bancos e os credores, porém a sociedade espanhola perde muito com ela, pois ignora as questões sociais do país. Não é por menos que os espanhóis se revoltaram”, acredita.

O grande equívoco do governo espanhol, segundo o especialista, é não investir no país para gerar demanda e crescimento. A pouca competitividade das exportações espanholas, o alto nível de desemprego (que chega a 40% entre os jovens) e o baixo consumo nacional, devido à falência das famílias, continuará rebaixando o PIB e adiando o fim da crise.

“Este governo, extremamente conservador, está dando um tiro no próprio pé. Quanto menos investimentos, maior será a retração do PIB. Se esta relação se prolongar, o país entrará numa grande recessão, com alto custo da rede de proteção social que a Europa demorou muitos anos para construir”, explica.

Consequências 

As conseqüências afetarão futuras gerações de espanhóis, que terão suas garantias sociais diminuídas. A austeridade da medida, segundo Sarti, reflete uma política de um governo que pensa apenas nas garantias da minoria.

"Se a Espanha passar a gastar e investir não será bem vista, com certeza, por estes mercados, o FMI, a troika e as instituições financeiras como um todo. Porém, o governo precisa agir para o bem da sociedade espanhola", reforça. 

Segundo o economista, estas medidas "unilaterais" terão reflexo em reivindicações populares, como as últimas manifestações que aconteceram na Espanha. Os governos terão que respeitar e ouvir as necessidades da sociedade.

"Esta vontade de mudar da população influenciará os governos e as decisões políticas. Já se vê uma mudança com a oposição vencendo, por exemplo, as eleições em Andaluzia, na Espanha". 

Apesar de "extremamente complicada", a crise é um momento favorável para a Europa rediscutir suas políticas orçamentárias e cambiais e repensar a estrutura da Zona do Euro, acredita Sarti. 

Apuração: Carolina Mazzi