A agência de classificação de riscos Moody's emitiu um novo alerta sobre a crise econômica na Europa mudou de "estável" para "negativa" a perspectiva sobre a economia da Grã-Bretanha. Isso significa que o país pode perder a nota AAA, a mais alta no sistema de avaliação das agências de risco. Além dos britânicos, a França e a Áustria também receberam perspectivas negativas da agência.
A Moody's ainda rebaixou as notas soberanas de Itália (A2 para A3), Espanha (A1 para A3) e Portugal (Ba2 para Ba3) e manteve todas com perspectivas negativas, sinalizando para novas reduções.
O pessimismo fez o índice s&P 500, que engloba as 500 principais empresas dos Estados Unidos, cair 0, 09%. O Dow Jones e o Nasdaq, que concentra o setor de tecnologia, fecharam praticamente estáveis em 0,03% e 0,02% respectivamente. Entre os bancos, o Citygroup (-2,43%), Goldman Sachs (-1,45%) e Wells Fargo (-0,65%) tiveram as maiores desvalorizações.
Na Europa, o FTSEurofirst 300 caiu 0,18% (1.069 pontos) e o STOXX Europe 600 para bancos caiu 1,4%. Segundo o economista José Francisco Cataldo, da corretora Ágora, o impacto só não foi maior no Velho Continente porque o índice de confiança dos consumidores alemães teve recorde positivo.
"Além deste índice, o leilão da dívida da Itália e da Espanha foi bem aceito no mercado, com forte demanda e negociado com taxas de juro baixas. Isso ajudou para que as bolsas europeias não caíssem tanto", afirma.
Porém, números da economia americana acabaram contribuindo fortemente para a queda acentuada dos índices. Dados divulgados hoje mostraram que a venda no varejo americano subiu apenas 0,4%, muito longe dos 0,8% esperado pelo mercado. Além disso, os estoques das indústrias americanas subiram 0,4%, também abaixo da expectativa de 0,5% dos analistas.
"Apesar das boas notícias na Europa terem aliviado um pouco a pressão para baixo, os dados da economia americana fizeram com que as bolsas sucumbissem às notícias ruins", afirma Cataldo.
Contaminação além da Zona do Euro
Para a economista Lia Valls, coordenadora de Comércio Exterior do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a classificação reforça a perspectiva de que o contágio vai além dos países da Zona do Euro.
"A Grã-Bretanha está fora da Zona do Euro. É mais uma percepção da crise. A Inglaterra tem apresentado uma inflação muito alta e estava com a dívida alta também", apontou a especialista. Para ela, a reação das agências de risco dá a impressão de que a situação europeia é irrecuperável. "Essas agências influenciam a predileção do mercado. Se todos os agentes começarem a adotar esse ponto de vista, de que a Europa é impossível de ser financiada, a situação só vai ficar mais complicada".
O ministro das Finanças da Grã-Bretanha, George Osbourne, classificou a análise da Moody's como um choque de realidade para os políticos britânicos, relutantes em aceitar o contágio da crise no país.
"Isso mostra que nós temos que lidar com as nossas despesas, senão perderemos nosso crédito. Eu já disse, várias vezes, que sem crescimento ou empregos, não reduziremos o nosso déficit", sublinhou Osbourne.
Apesar do comunicado da Moody's, Lia Valls não vê a situação como pior ou melhor para a economia europeia. À BBC, a diretora da firma de investimentos William de Broe, Laura Lambie, também ressaltou que as classificações das agências de risco são bem relativas.
"Nós já vimos os Estados Unidos perderem a avaliação AAA deles no ano passado. Mesmo assim, eles se mantiveram relativamente seguros quando comparados com outros países afetados pela crise, como Espanha e Grécia. Acho que a Grã-Bretanha deve seguir o mesmo rumo", minimizou.
Entenda a crise econômica europeia
Os primeiros indícios da crise que assola a Europa surgiram antes da recessão de 2008. Desde 2002, o fácil acesso ao crédito e a estabilidade do mercado facilitaram transações arriscadas e o forte déficit sob o qual as potências europeias operavam colocava todo o sistema em risco. A bolha imobiliária nos Estados Unidos e a subsequente crise de crédito desencadearam diferentes reações nos países europeus, de acordo com a alocação dos seus investimentos.
Interligados pelo sistema bancário, as economias caíram uma após uma. Um dos exemplos de contágio está na forte ligação das economias francesa e italiana. A Itália pegou emprestado dos bancos da França cerca de U$ 360 bilhões, por exemplo. Neste cenário, um possível calote italiano derrubaria diretamente a economia francesa.
A primeira grande vítima foi a Grécia, cuja fragilidade foi exposta em 2010. Durante a década de 2000, o país operou com déficit superior a 100% empolgado com o otimismo econômico e foi pego de surpresa pela recessão global. Em situação semelhante, Portugal, França e Bélgica logo deram sinais de que também entrariam em crise. A dívida pública francesa alcançou U$ 2,1 trilhões em 2010, o que corresponde a 83% do PIB do país.
Apesar de semelhantes, as crises de crédito dos Estados Unidos e da Europa têm uma diferença fundamental: a moeda. A dívida pública norte-americana é quase toda em dólar, o que permite ao governo local emitir mais moeda e sanar as dívidas, apesar de sofrer com a inflação. Na Europa, os países da Zona do Euro não podem emitir dinheiro, já que a moeda única é regulada pelo Banco Central Europeu.
Outro ponto crítico do Velho Continente são as diferenças entre seus países. Enquanto os americanos podem adotar um pacote econômico universal que terá efeitos em toda a sua economia, as situações peculiares e legislações da cada país tornam o processo de reação e recuperação mais lento e menos eficaz.
Até agora, a principal razão pela qual as economias emergentes não sofreram tanto com a recessão europeia foi a economia chinesa.
"Os chineses estão sentados sobre 3 trilhões de dólares em reservas, e quando eles mandam seus bancos emprestarem, eles emprestam", disse o economista norte-americano Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel de Economia. "Se a economia chinesa precisa de estímulo, eles têm recursos e vontade política para isso. Também, ao contrário dos Estados Unidos, eles não têm metade do país comprometida com uma ideologia que diz que a forma de resolver os problemas é cortar gastos. Se a economia deles desacelera, eles gastam para continuar andando."
Contribuiu: Carolina Mazzi