Estudo revela que gestores projetam recessão na Europa

 Os principais gestores de fundos do globo projetam um quadro de recessão na Europa, diz um estudo divulgado nesta terça-feira pelo Bank of America Merrill Lynch, que aponta uma desconfiança sem precedentes ante o setor bancário da região. Cerca de 55% dos gestores de fundos europeus, interrogados pelo banco em setembro, esperam dois trimestres consecutivos de contração da atividade no continente, ante 14% em julho.

Nos Estados Unidos, no entanto, apenas 9% dos consultados pelo banco esperam uma recessão na região. "Os desafios que constituem a dívida soberana e o setor bancário dominam os principais riscos identificados pelos responsáveis por esses ativos no mundo", explicaram os analistas do Bank of America Merrill Lynch.

O estudo destaca que a confiança ante os bancos europeus se encontra em seu nível mais baixo desde que começou a ser elaborado o relatório, em janeiro de 2003 (65% dos investidores interrogados estão ligados ao setor). A maioria dos consultados (57%) acredita que o Banco Central Europeu (BCE) reduzirá sua taxa de juros antes do final do ano, diferentemente do que tem sido feito desde o começo do ano, quando a taxa foi elevada duas vezes, em abril e em julho.

"O estudo mostra que a confiança está tão baixa na Europa que a expectativa de risco de um contágio do resto do mundo aumentou de forma significativa", advertiu o responsável pela estratégia em ações da Europa do banco, Gary Baker. O estudo considerou a opinião de 286 gestores de fundos de investimento, responsáveis por US$ 831 bilhões em ativos. A pesquisa foi realizada entre os dias um e oito de setembro.

A primeira a entrar em colapso foi a Grécia, cuja dívida pública alcançou 340,227 bilhões de euros em 2010, o que corresponde a 148,6% do PIB. Com a luz amarela acesa, as economias de outros países da região foram inspecionadas mais rigorosamente. Portugal e Irlanda chamaram atenção por conta da fragilidade econômica. No entanto, o fraco crescimento econômico e o aumento da dívida pública na região já atingem grandes economias, como Itália (120% do PIB) e Espanha.

Um fundo de ajuda foi criado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Central Europeu (BCE), com influência da Alemanha, país da região com maior solidez econômica. Contudo, para ter acesso aos pacotes de resgates, as nações precisam se adaptar a rígidas condições impostas pelo FMI. A Grécia foi a primeira a aceitar e viu manifestações contra os cortes de empregos públicos, programas sociais e aumentos de impostos.

Os Estados Unidos atingiram o limite legal de endividamento público - de US$ 14,3 trilhões (cerca de R$ 22,2 trilhões) - no último dia 16 de maio. Na ocasião, o Tesouro usou ajustes de contabilidade, assim como receitas fiscais mais altas que o previsto, para seguir operando normalmente. O governo, então, passou por um longo período de negociações para elevar o teto. O acordo veio só perto do final do prazo (2 de agosto) para evitar uma moratória e prevê um corte de gastos na ordem de US$ 2,4 trilhões (R$ 3,7 trilhões). Mesmo assim, a agência Standard & Poor's retirou a nota máxima (AAA) da dívida americana.

Entenda

No auge da crise de crédito, que se agravou em 2008, a saúde financeira dos bancos no mundo inteiro foi colocada à prova. Os problemas em operações de financiamento imobiliário nos Estados Unidos geraram bilhões em perdas e o sistema bancário não encontrou mais onde emprestar dinheiro. Para diminuir os efeitos da recessão, os países aumentaram os gastos públicos, ampliando as dívidas além dos tetos nacionais. Mas o estímulo não foi suficiente para elevar os Produtos Internos Brutos (PIB) a ponto de garantir o pagamento das contas.