Argentina é forçada a evitar guerra comercial com Brasil

O freio do Brasil às exportações de automóveis da Argentina obriga Buenos Aires a negociar as restrições aplicadas a mercadorias brasileiras para evitar uma guerra comercial, afirmaram nesta sexta-feira analistas argentinos.

A presidente Dilma Rousseff travou a entrada de veículos e autopeças argentinos em represália pelas licenças não-automáticas alfandegárias impostas contra eletrodomésticos, maquinaria agrícola e calçados, entre outros produtos brasileiros, ordenadas pela presidente Cristina Kirchner.

"A Argentina não tem outro caminho a não ser negociar. Kirchner não aceitava se sentar para discutir suas licenças não-automáticas e isto desencadeou uma situação relativamente severa", disse à AFP Mauricio Claveri, analista da Abeceb.com.

O grande impacto causado pelo Brasil na Argentina deve-se ao fato de que 80% das exportações de veículos argentinos (447 mil unidades) se dirigiram ao Brasil em 2010, assim como 65% das autopeças, negócios que representam cerca de 7 bilhões de dólares, segundo a Abeceb.com.

"O Brasil atingiu a Argentina onde mais dói", comentou à AFP um empresário argentino que pediu o anonimato, à espera de um pronunciamento da União Industrial Argentina (UIA).

A dolorida reação argentina foi expressada nesta sexta-feira pela ministra de Indústria, Débora Giorgi, em uma carta pública ao ministro brasileiro, Fernando Pimentel, ao afirmar que "as medidas do governo argentino estão incluídas nos acordos da Organização Mundial de Comércio (OMC)".

As licenças não-automáticas a cerca de 200 produtos que Kirchner impôs "não têm como destino nenhum país em particular e menos ainda o Brasil, que consideramos um sócio estratégico", afirma Giorgi em sua carta.

Kirchner e Dilma se viram pela primeira vez em Buenos Aires no dia 31 de janeiro passado, na primeira visita da presidente brasileira ao exterior após sua posse, momento no qual reafirmaram uma aliança estratégica chave para o equilíbrio na região sul-americana.

"Argentina e Brasil devem evitar os descumprimentos recíprocos. É inexplicável que existindo um tratado que proíbe as licenças não-automáticas no Mercosul, elas tenham sido aplicadas", comentou Enrique Mantilla, presidente da Câmara de Exportadores da Argentina, ao assinalar a necessidade de uma negociação.

Mas Giorgi reafirmou sua postura com números, ao indicar que "os dados oficiais para o primeiro trimeste do ano de 2011 indicam que as compras argentinas cresceram 33%, alcançando 4,7 bilhões de dólares neste período, com saldo positivo a favor do Brasil de 730 milhões de dólares".

"Cerca de 2 mil carros argentinos estão presos na fronteira. Isto afeta a Toyota, a General Motors e a Mercedes Benz. Mas há embarques em trânsito que logo prejudicarão a Ford, a Citroën e a Peugeot", disse uma fonte automotora que pediu para não se identificar.

No entanto, fontes empresariais brasileiras sustentam que mais de 800 mil pares de sapatos de 19 fábricas do país estão retidos na alfândega argentina, assim como 1.200 equipamentos para maquinaria agrícola.

Empresas citadas pela imprensa brasileira também mencionam equipamentos de eletrônica, computadores, celulares e têxteis, além de geladeiras, telefones e máquinas de lavar roupas parados na fronteira dentro de dezenas de caminhões. "O que Dilma fez é um aviso com o objetivo de disparar uma atuação imediata da diplomacia. Buscou uma medida contundente. Não vejo guerra comercial porque ninguém deseja isso. São sócios muito importantes", refletiu Claveri.

O Brasil tem na Argentina seu terceiro sócio comercial em ordem de importância, atrás de China e Estados Unidos, com um volume bilateral de trocas que somou 33 bilhões de dólares em 2010, com um déficit de pouco mais de 4 bilhões para a Argentina, segundo números oficiais.