Gráficos indicam tendência de alta da Bovespa; entenda a análise

Para investir bem em ações é preciso ter algum conhecimento sobre as empresas nas quais você vai se tornar "sócio". Atualmente, são cerca de 460 empresas listadas na Bovespa, mas como escolher uma e não outra? Um dos métodos é a chamada análise técnica, que olha apenas para gráficos com linhas de preços, variações e médias para "prever" se uma ação deve subir ou cair. O Terra consultou os "grafistas" para interpretarem as linhas do principal índice do mercado brasileiro neste ano e o consenso foi de que o Ibovespa mostra uma tendência de alta, mas tem "resistências" (pontos de pico anteriores) que precisam ser rompidos para permitir uma evolução maior.

Entre diversos tipos de gráficos, o mais popular é o que utiliza os valores mínimos, máximos e de fechamento de determinado índice ou papel, formando barras verticais, que podem ser cheias ou vazias, coloridas, para indicar queda ou alta (no exemplo acima, as barras verdes mostram que o valor subiu e as vermelhas mostram perdas). Podem ser utilizados gráficos que mostram as variações de hora em hora, dia a dia, até de anos e décadas.

Basicamente, são identificados pontos máximos (resistências) e mínimos (suportes) para traçar uma linha de tendência e assim projetar como o mercado vai se comportar - quando os preços estão próximos ao nível do suporte, os investidores tendem a comprar mais do que vender, podendo elevar o valor do papel, e quando estão próximos das resistências tendem a vender, provocando desvalorização. No entanto, essas tendências podem ser revertidas e o gráfico precisa ser analisado constantemente.

De acordo com a observação de Régis Chinchila, da Gradual Investimentos, o Ibovespa apontou algumas mudanças de curto prazo ao longo de 2010, revertendo o avanço do final de 2009 em janeiro, com retomada de alta em março e nova queda até 57 mil pontos em abril. Desde junho, o gráfico apresenta um comportamento de elevação. "Trabalhamos dentro de um canal de alta, bem definido, com próximos objetivos em 71.800 pontos e principalmente a região de 75 mil pontos", afirma Chinchila (confira o gráfico na aba 'Fotos').

Segundo Marcio Noronha, analista da Link Trade, o índice está entre a máxima histórica de 73.920 (alcançada em maio de 2008) e o suporte de 57.633 pontos (atingido em maio deste ano). "O rompimento de um desses extremos dará o tom do médio/longo prazo. Se ultrapassar a resistência de 73.920 deverá seguir em frente, num primeiro momento, rumo aos 90.000/95.000. Se penetrar o fundo de 57.633 deverá seguir caindo rumo aos 30.000 pontos. É mais provável que o rompimento se dê para cima", afirma Noronha (confira o gráfico na aba 'Fotos').

Em alguns momentos, analistas montam figuras para mostrar comportamentos que se repetem constantemente nos gráficos. Angelo Larozi, da InvestBolsa/Spinelli, vê a formação de uma figura chamada "Ombro Cabeça Ombro Invertido", onde os "ombros" estão dentro dos dois círculos na mesma linha horizontal (ver imagem acima) e a cabeça é o círculo mais para baixo, como uma figura humana de cabeça para baixo.

Dentro desta análise, o círculo mais à direita servirá de base para um novo ciclo do indicador, que deverá subir proporcionalmente ao tamanho da distância entre a última "cabeça" e o "ombro" mais à direita na figura. Com base na análise "Ombro Cabeça Ombro", Larozi acredita que a tendência agora é que o Ibovespa suba na mesma proporção que caiu, projetando 71.600 pontos para a próxima semana possivelmente.

Análise Técnica x Fundamentalista
Embora seja relativamente recente no Brasil, a análise gráfica começou com os estudos de Charles Dow no final do século 19 - o jornalista foi um dos fundadores do Wall Street Journal e criador do índice Dow Jones da Bolsa de Nova York. De acordo com Noronha, estatísticas da última dos anos 1990 mostravam que 40% das decisões de compra e venda de ações nos EUA eram tomadas com base em análise técnica, enquanto no Japão a porcentagem atingia 60% e no Brasil apenas 4%.

A mais utilizada por enquanto é a "fundamentalista", que leva em conta os resultados de balanço, perspectivas econômicas e uma serie de premissas para projetar um valor "alvo" para as ações da empresa. Os "grafistas" têm foco mais no curto e médio prazo, e seriam mais matemáticos do que interpretativos, enquanto as operações dos "fundamentalistas" seriam mais para médio e longo prazo, com um ingrediente subjetivo um pouco maior do analista. No entanto, a escolha de um ou de outra dependerá de sua própria estratégia.

Atualmente, entre os analistas existe um pouco de tudo, desde os mais radicais, que só seguem um tipo de análise e falam de modo pejorativo da outra, até os que misturam as duas, como é o caso de Adriana Feijó, que atua no mercado há 6 anos e fundou o site Mulheres de Valor. "Procuro empresas sólidas, ou seja, com bons fundamentos e após a seleção espero para realizar uma entrada através de um ponto gráfico interessante. Para isso utilizo um gráfico de periodicidade mais longa", diz.

Já para Noronha, o potencial de ganhos da análise técnica é superior. "Na análise fundamentalista você compra uma ação e permanece com ela até o momento em que ultrapassar o seu valor justo. Na análise técnica pode-se ganhar na mão e na contra mão, comprando-se quando a tendência é de alta e vendendo com aluguel de papel quando a tendência for de baixa. Ou seja, a análise fundamentalista só aproveita 50% do potencial de lucro que o mercado proporciona enquanto a análise técnica aproveita 100%", afirma.

O "fundamentalista" José Valder Nogueira Junior, analista do banco Santander, defende seu método escolhido de análise e diz que o fluxo de notícias sobre determinada empresa pode funcionar como um "gatilho" para que a tendência apontada pelo analista ocorra de fato.

"A turma entra afoita para ganhar dinheiro logo, mas não é assim. É preciso namorar para depois pegar na mão. Não sai pegando, abraçando, beijando. Tem que ter disciplina com o objetivo do investimento. Pode olhar gráfico ou fundamento, mas o mais importante é seguir o fluxo de notícias sobre o papel, onde você encontra os catalisadores. Quanto mais educado o investidor está para tomar a decisão, mais certa ela tende a ser. Nos bancos de investimentos, os dois tipos de análise sempre andaram de mãos dadas. Tem mais fundamentalista porque o número de setores é muito maior", afirma Valder.

Exatamente pela impossibilidade de conhecer profundamente todos os setores da economia é que Odir Andrade Aguiar, da Novinvest Corretora e sócio fundador da consultoria Doji Star Four, migrou para a análise técnica. "Como pode alguém entender de todos os ramos? Ou é superficial ou você vai ter conhecimento de um determinado setor. Não é viável, a não ser que seja para uma instituição que pode ter dezenas de analistas o tempo inteiro disponíveis", disse.

Do mesmo modo, Noronha afirma que é preciso ter bom conhecimento de contabilidade para analisar os fundamentos de uma empresa e por este motivo a análise técnica seria mais fácil de ser compreendida pelos iniciantes. "Acho muito mais importante saber quando comprar do que o que comprar e, nesse sentido, a análise técnica dá um banho na fundamentalista. O principal erro dos principiantes, bem como dos veteranos, é a indisciplina na hora de encerrar uma operação quando ela não está evoluindo de acordo com o esperado", afirma.

Para saber mais, diversas corretoras oferecem mini cursos gratuitos de apresentação e intensivos pagos para quem já decidiu por observar o mercado pelos gráficos - mesmo dentro da análise técnica, é possível utilizar diversas "linhas" para interpretação. "É importante que fique claro que não existe o certo ou o errado e sim a melhor estratégia para o perfil do investidor que está montando a sua carteira", afirmou Adriana.