Obsolescência da governança global

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - À medida que importantes atores do cenário internacional vão opinando sobre o assunto, mais claro fica o acerto da posição tomada pela diplomacia brasileira na questão do programa nuclear iraniano. A entrevista exclusiva, publicada ontem pelo Jornal do Brasil, com o ex-diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o egípcio Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz em 2005, é esclarecedora.

ElBaradei afirmou que o documento obtido por Brasil e Turquia significa que o Irã decidiu finalmente estender a sua mão e dizer que está pronto para negociar . Disse que prosseguir com as sanções mesmo depois deste acordo seria totalmente contraproducente . Lembrou que esta insistência em se conseguir tudo antes de começar a negociar é a razão pela qual desperdiçamos seis anos na questão iraniana . E considerou totalmente exagerada a ideia da possibilidade de o Irã desenvolver armas nucleares, pois não havia evidência neste sentido, pelo menos até sua saída da AIEA, há apenas seis meses. Ou seja, ElBaradei, um profundo conhecedor do imbróglio, referenda a política externa brasileira. Entende como extremamente saudável que potências emergentes como Brasil e África do Sul exerçam seu soft power.

É verdade que alguns setores da sociedade ainda insistem no caminho das críticas o que só revela uma visão míope, colonizada ou simplesmente partidarizada. Mas estas já começam a se tornar minoritárias. Quem viu na condução do episódio pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ingenuidade ou puro viés ideológico em detrimento do bom senso ou do interesse nacional precisará elaborar explicações mais consistentes e menos panfletárias.

O caso do Irã envolve dois planos. O primeiro é o diplomático-principista. A posição do Brasil é defensável; seus métodos e argumentos são justos? A outra dimensão é a político-instrumental: qual o impacto da intervenção brasileira para o prestígio de sua diplomacia no concerto das nações; o país sai fortalecido ou enfraquecido?

Ora, quanto ao primeiro plano, se o ceticismo empedernido das grandes potências pautar a diplomacia em relação ao Irã, as sanções ao país persa não passarão de profecias autorrealizáveis. Se o argumento for sempre o de que o Irã é pouco confiável, nada resta a fazer.

A posição brasileira poderia ser justa, porém ingênua, diante da correlação de forças e as estratégias de inserção no cenário internacional. Neste ponto, obviamente há algo de instrumental. O episódio é reflexo tanto de um novo Brasil, mais ousado que não se contenta com a histórica posição subalterna, de quem assiste a tudo em cima do muro quanto de um novo mundo, mais multipolar, que põe cada vez mais em evidência a obsolescência da governança global.