Análise de mercado: Bancos nas entranhas do cassino cambial

Sidnei Nehme*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O mercado de câmbio sinaliza falsa repercussão da crise predominante na União Europeia, com foco mais centrado neste momento na Grécia e Espanha, ao operar a moeda americana com preço apreciado em relação ao real.

Em realidade, não há pressões de demanda fomentando esta apreciação do dólar, mas sim pontual e preciso movimento especulativo de vendas a descoberto pelos bancos, que se valem do psicológico que alimenta a crença de que o país esteja sendo afetado, ainda mais quando a nossa Bovespa não consegue reagir e derrete os preços das ações, num comportamento de deterioração muito acima do razoável.

Há um Brasil muito melhor posicionado hoje do que em crises passadas, mesmo a iniciada em agosto/setembro de 2008 ainda não bem superada pelas principais economias, que, todavia, não consegue afastar-se de uma espécie de síndrome de pequenez , e que transparece no curto prazo deformações na formação de preços dos seus ativos, que, a rigor, não deveriam ter a expressividade presente.

Quando se observa os números do mercado de câmbio brasileiro constata-se, claramente, que há uma distância abismal da sensação que leigamente é admitida de pressões presentes com a realidade que os números do mesmo revelam de forma contundente, sinalizando que o que ocorre na formação do preço da moeda americana nada tem a ver com repercussões efetivas da crise externa, e que as causas estão localizadas pontual e internamente.

As tesourarias dos bancos têm sabido habilmente explorar o lado psicológico que induz a admitir-se que o país está tendo uma fuga de capitais, a partir do comportamento da Bovespa, e que este fato pressiona o preço do dólar, e acabam até influenciando os hedge funds que passam a montar posições compradas no mercado futuro de dólar.

Os números do mercado de câmbio brasileiro futuro em dólar, disponível a quem quiser conferir, evidenciam na BM&FBovespa posição líquida vendida de US$ 8,8 bi, e, a última divulgação de fluxo cambial divulgada pelo BC na última quarta-feira, apontava com base nos números da autoridade monetária que os bancos detinham no segmento à vista posição líquida vendida em torno de US$ 5,5bi. No total as vendas a descoberto dos bancos ultrapassam US$ 13,0 bi.

Especular, vendendo a descoberto ativos, é uma forma comum nos mercados financeiros globais quando há a certeza de que os preços cairão na sequência, não há nada de novo e aqui está sendo praticado sem qualquer empecilho por parte dos bancos que aproveitando o lado psicológico do mercado que acredita que em tempos de crise o dólar no Brasil dispara, visão antiga, mas ainda muito presente, intensificam suas vendas a descoberto, formando posições vendidas , com a absoluta convicção de que os preços da moeda americana não se sustentarão no curto prazo. O preço é puxado no vazio com bate bola entre os mesmos.

É isto que temos instalado no mercado de câmbio brasileiro, tendo os bancos já insinuado algumas tentativas de iniciar a dinâmica de apreciar o real, mas estão encontrando resistência dos hedge funds que, acreditaram na alta, e formaram outra vez posições compradas no mercado futuro de US$ 4,1 (posição de quinta-feira), e já tendo arcado com o mico no início do mês quando montaram posição semelhante e, posteriormente, quando os bancos depois do movimento altista apreciaram o real se desfizeram das posições compradas detidas naquela oportunidade com prejuízo, relutam em ter que assumir nova rodada de prejuízo.

Este quadro de disputa sugere que a volatilidade predominará por um certo período, já que fatos novos como os problemas no setor bancário na Espanha e até a crise entre as Coréias servem para os bancos elevar um pouco mais o preço da moeda americana, mas inquestionavelmente a apreciação do real ocorrerá por obra e arte dos bancos.

O que é contraditório é o fato do BC continuar com seus leilões diários de compra de dólares no mercado à vista, de forma puramente mecânica, quando tanto ou até melhor que nós tem a visibilidade do que está ocorrendo, o que sugeriria que se retirasse temporariamente, até porque atuando esta fomentando o movimento especulativo, pois expande as posições vendidas dos bancos. Não interferir inibindo a especulação no mercado de câmbio pode ser uma opção para evitar desgastes, a exemplo do que ocorreu na Alemanha, mas participar não é recomendável para a autoridade monetária, até porque este movimento é estimulante a pressões inflacionárias decorrentes do preço da moeda americana.

Cabe até uma interpretação de que este movimento especulativo instalado acaba por determinar uma taxa cambial atraente para os exportadores internarem o volumoso estoque de dólares que estão mantendo no exterior. Mas nada, nem isto, justifica o BC ativo com leilões de compra neste momento.

No cenário mundial as perspectivas são de novo dia dramático para as bolsas e para o euro. No ambiente predominante tudo vale para estimular a desorganização e agora, afora a Grécia, o foco é a fragilização do sistema bancário espanhol e a tensão entre as Coreias do Sul e do Norte. Fortes baixas generalizadas.

Efetivamente o conflito entre as Coreias é só um fato de oportunidade e sem efeito nenhum, caso contrário o preço do petróleo não estaria caindo 2% cotado à US$ 68,13 o barril.

A comunidade européia continua acreditando que prover de recursos e ameaças de punições aos países integrantes que não cumprirem seus programas de austeridade é suficiente, mas é crescente a percepção de que, cada vez mais, cada um está olhando para seus próprios interesses diretos e menos o da comunidade.

A nossa Bovespa deve perder mais alguns preciosos pontos, já que cai mais do que as demais bolsas.

*Veterano operador do mercado, através de sua corretora, a NGO, Sidnei Nehme nasceu em Bertioga (SP), em 1945, é economista, pós-graduado em administração, com especialização em câmbio, comércio exterior e finanças Internacionais na City Londrina e em New York. Trabalhou em grandes bancos e corretoras internacionais. Seus informes diários à clientela, em tom tranquilo, mas contundente, falam de um mercado cambial que tem 80% de seu volume controlado por meia dúzia de bancos, que, por meio de operações artificiais de compra e venda, denominadas Zé com Zé , apostam, e quase sempre ganham, num jogo que, agora, envolve comissões da ordem de US$ 400 milhões.