China de olho no minério brasileiro

Ubirajara Loureiro, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A temporada de caça está aberta, e vai continuar por muito tempo: de olho no suprimento de suas necessidades de matéria-prima, a China está em plena ofensiva de aquisição de mineradoras brasileiras. Assim, para manter suas taxas de crescimento econômico sem paralelo, partiu para garantir o suprimento nas fontes de origem, e já fechou pelo menos três grandes compras de jazidas de ferro no Brasil.

País que mais cresce no mundo, a China consome 1,3 bilhão de toneladas de minério de ferro por ano, mas tem uma produção de apenas 350 milhões de toneladas.

Com a crise que derrubou as cotações do minério de ferro no mundo em 2008, o país chegou a estabelecer contratos de preço fixo, com prazo de um ano, obtendo condições favorecidas para garantir o suprimento de um insumo estratégico.

Mas agora a China está sendo obrigada a renegociar preços, até 100% maiores, e prazos em condições mais difíceis. E enfrenta as três gigantes mundiais do ferro a Vale e as australianas BHP e Rio Tinto.

As três detêm nada menos do que 80% da produção mundial de minério de ferro, e, já fora do olho do furacão da crise, que deprimiu o mercado de commodities, com queda da ordem de 30% em volumes e preços, têm melhores condições para chegarem a cotações mais elevadas, e os reajustes já são trimestrais.

Nessas condições, a estratégia chinesa foi partir para a compra de mineradoras. Há meses, foi fechada com o grupo Votorantim operação que resultou no controle da Sul Americana de Metais (SAM), por US$ 390 milhões.

A SAM é detentora de reservas minerais da ordem de 2,8 bilhões de toneladas

O negócio foi fechado pela Honbridge, holding sediada em Hong Kong, representando o Xinwen Mining Group, grande produtora de minério de ferro, e a siderúrgica gigante Shandong Iron and Steel. O potencial é de produção de 25 milhões de toneladas/ano.

O projeto prevê a construção de unidade de beneficiamento em Grão Mogol (MG), e de um mineroduto de 500 km até Ilheus, na Bahia, com investimentos de US$ 2,58 bilhões.

A maior operação no Brasil, entretanto, ocorreu em março, com a compra de 100% da Itaminas Comércio de Minérios, empresa com mais de meio século de atuação, dona de reservas estimadas em 1,3 bilhão de toneladas, em Sarzedo, perto de Belo Horizonte. O preço foi de US$ 1,2 bilhão. O comprador foi o Birô de Exploração e Desenvolvimento Mineral do leste da China (ECE).

O plano é elevar a produção dos atuais 3 milhões de toneladas/ano para 25 milhões de toneladas anuais. Mas isto parece ser apenas uma fase inicial de operação que concorrerá com a produção nacional. Shao Yi, diretor do grupo ECE, admitiu que várias siderúrgicas chinesas estão interessadas em parceria no negócio. E que há planos para parcerias com outras empresas brasileiras do setor.

Na mesma linha, a siderúrgica Wuhan Iron and Steel Company (Wisco) anunciou a compra de 21,5% do capital da mineradora MMX, do empresário Eike Batista, por US$ 400 milhões. O negócio inclui a construção de uma usina de US$ 5 bilhões junto ao Porto do Açu, no Rio de Janeiro.

O apetite do Wisco não foi saciado com esta operação: estão em curso entendimentos com a Passagem Mineração S/A (Pamin), de Mariana, em Minas Gerais, dona dos ativos minerários da no Morro de Santana, com reservas de 750 milhões de toneladas de itabirito, com teor de 55% de minérios de ferro.

A negociação da jazida com o grupo Wisco deve ser concluída em três meses e envolverá a construção, pela Wisco, de uma usina de aços especiais nos arredores da cidade, o que tornaria os chineses concorrentes diretos da multinacional de origem indiana ArcelorMittal, que opera em Timóteo (MG).

País tem estratégia agressiva contra eventual alta de preços

O interesse dos chineses em verticalizar a cadeia produtiva minero-siderúrgica em Mariana, segundo Walter Rodrigues Filho, da Pamin, demonstra que a estratégia do país asiático vai além de aumentar a produção própria de minério.

A aquisição de ativos minerários em outros países prova que a preocupação deles é se proteger de eventuais altas no preço do insumo explicou.

Marco Polo de Mello Lopes, presidente-excutivo do Instituto Aço Brasil (que sucedeu o Instituto Brasileiro de Siderurgia) analisa a ofensiva compradora chinesa como decorrência natural da concentração de empresas, no Brasil e no mundo.

Num passado relativamente recente, explica Mello Lopes, no Brasil existiam grandes mineradoras, como Samarco, Samitri, Ferteco, Soicomex. Hoje, a grande mineradora é a Vale, que com a BHP e a Rio Tinto, domina o mercado mundial. Houve um processo de verticalização da produção, e a China não é diferente. Está buscando este tipo de ativo em todo o mundo para assegurar sua produção.

O presidente-executivo do Aço Brasil destaca ainda que, de um modo geral, os países desenvolvidos, em geral, estão migrando em direção das nações em desenvolvimento devido a questões trabalhistas e ambientais que oneram seus processos de produção. A busca pelo ativo mina é perfeitamente normal, piois quem precisa de matéria-prima estratégica fica muito inseguro diante das oscilações cíclicas no mercado internacional.

Analista de mineração e siderurgia da Corretora Geração Futuro, Rafael Weber encara que o movimento comprador chinês ajudará a valorizar os ativos nacionais.

Para Weber, as aquisições chinesas no Brasil restringem-se a minas de pouca capacidade. E opina que a expansão chinesa seria maior em minas situadas na África.

O analista destaca também que a localização de siderúrgicas próximas da costa chinesa é indício de que o país pretende suprir suas necessidades com minério do exterior.

A estratégia expansionista chinesa na mineração de ferro além de suas fronteiras é confirmada por Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China.

As empresas chinesas vão continuar comprando minas de minério no Brasil, como forma de suprir as gigantescas necessidades de matéria-prima da China. A demanda chinesa contribuiu para o crescimento do Brasil, ajudou o país a acumular riquezas e divisas. Além disso, a compra de empresas ou de participação em grupos brasileiros fortalece o mercado interno com empregos e o lucro é taxado quando enviado para a China diz Tang.