Crise europeia: arrocho fiscal para a zona do euro

Jornal do Brasil

BRUXELAS - Os líderes dos 16 países da zona do euro começaram sexta-feira, em Bruxelas, uma reunião excepcional de cúpula para discutir a crise financeira que abala a união monetária, dispostos a adotar medidas suplementares destinadas a reduzir seus déficits públicos, segundo um projeto da declaração a ser divulgado ao fim do encontro, informaram fontes diplomáticas.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy definiu a reunião de cúpula como mobilização geral para defender a zona do euro e falou de uma crise sistêmica na região, que abre necessidade de dotá-la de uma verdadeira governança na área econômica.

A chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que os países do euro enviarão um sinal muito claro aos especuladores, colocando em prática um mecanismo comum de apoio aos países confrontados a dificuldades.

A declaração da chanceler provavelmente refere-se à criação de um fundo para ajuda dos países europeus que enfrentem dificuldades adicionais com especulação no mercado de capitais, diante de eventual agravamento da turbulência atual.

A reunião começou por volta das 15h25, (horário de Brasília), com quase uma hora e meia de atraso em razão ao grande número de encontros bilaterais preparatórios entre os dirigentes.

A cúpula convocada em regime de urgência visa, em parte, a aprovar definitivamente o plano de ajuda de 110 bilhões de euros (US$ 146 bilhões) em três anos concedido à Grécia e, também, preparar uma contenção do contágio da crise a outros países da zona do euro, somando esforços para disciplinar o orçamento comum.

Assim, os líderes presentes prometem endurecer o Pacto de Estabilidade, que enquadra a vigilância orçamentária europeia, e fazer economias suplementares se necessário , para reduzir seus déficits nos próximos anos, segundo o projeto do texto.

Trata-se de interromper o contágio da crise grega e tranquilizar os mercados, que se inquietam na medida em que os déficits públicos aumentam em muitos países da zona do euro.

Os líderes devem também insistir na necessidade de melhorar a coordenação das políticas econômicas e reforçar a regulamentação financeira.

Paralelamente, o parlamento holandês autorizou o governo a emprestar à Grécia 4,7 bilhões de euros. O partido democrata cristão chamou o socorro de um mal necessário , que beneficiaria a Holanda por prevenir um colapso na moeda comum europeia.

Os partidos de esquerda e oposição da Holanda, no entanto, se opuseram ao socorro, argumentando que a Grécia vai falir de qualquer jeito.

Mais cedo, Alemanha, Itália, França e Espanha aprovaram suas partes na ajuda financeira à Grécia. A Alemanha será o maior provedor da ajuda aos gregos, com 22,4 bilhões de euros.

Entidades bancárias e companhias de seguros germânicas anunciaram sexta-feira que concederão voluntariamente 8 bilhões de euros à parcela alemã de ajuda à Grécia.

As mesmas entidades da área financeira comprometeram-se ainda a sustentar até 2012 suas linhas de crédito para o governo de Atenas e seus bancos e a não saírem de operações com títulos da dívida grega.

Toda a mobilização, entretanto, não foi suficiente para acalmar o mercado financeiro europeu: as bolsas de valores tiveram fortes baixas, puxadas por Paris, que caiu 4,6%. O pregão de Londres fechou em queda de 2,62% e, em Frankfurt, o recuo médio de preços foi de 3,27%, mesmo índice de queda ocorrido na bolsa de Milão. Em Madri, a baixa foi de 3,28%.

Mantega anuncia auxílio brasileiro à Grécia

O Brasil vai colaborar com o pacote de auxílio financeiro à Grécia elaborado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela União Europeia (UE), informou sexta-feira o ministro da Fazenda, Guido Mantega. A ajuda será de US$ 286 milhões e os recursos sairão das reservas internacionais do país.

Usaremos os recursos das reservas, mas é uma conversão em direito especial de saque (a cota de cada país no FMI) que vai para a reserva. A reserva não muda em função disso. É uma troca de aplicação, pois o direito especial de saque rende também juros explicou Mantega.

De acordo com o ministro, o nervosismo no mercado financeiro com a Grécia deve se dissipar em algumas semanas, com a ajuda de de 110 bilhões de euros acertadas pelos países da União Europeia, o que cobrirá as necessidades do país para honrar compromissos com credores nos próximos três anos.

Para Mantega, houve uma demora por parte da União Europeia para se entender com a Grécia sobre o pacote de ajuda e que isso acabou agravando a situação. O ministro também disse que a crise atual é desdobramento da crise financeira de 2008 e que não há risco para o Brasil.

O Brasil é uma economia sólida, possui mais de US$ 245 bilhões de reservas e não será afetado pela crise na Europa afirmou o ministro.