Indústria: Altos impostos pesam no setor e Brasil perde posto mundial

Adriana Diniz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A alta carga tributária nos produtos e processos de produção é apontada por especialistas como responsável pela perda de competitividade da indústria brasileira. Esse processo teria levado o Brasil a perder uma posição no ranking mundial de produção industrial, conforme divulgou a ONU esta semana. Embora a crise tenha seu papel na queda do desempenho das indústrias brasileiras, o declínio já vem ocorrendo há cerca de dez anos.

De acordo com a pesquisa estatística da Organização de Desenvolvimento Industrial da ONU, o Brasil foi ultrapassado pela Índia, que conquistou a nona posição do ranking dos maiores parques industriais do mundo em 2009. O país asiático dobrou sua participação no mercado mundial em dez anos, subindo de 1,1% em 2000 para quase 2% no ano passado e deixando o Brasil em décimo lugar.

Tem o fator conjuntural, que é o fato de as economias asiáticas terem mantido forte crescimento durante a crise. esses países foram mais imunes às turbulências que o Brasil. Mas culpar a crise por essa mudança no cenário industrial é muito irresponsável, porque a trajetória de queda vem acontecendo há uma década destaca Frederico Araújo Turolla, professor do mestrado em gestão internacional da ESPM e sócio da Pezco Consultoria. A perda de competitividade que o Brasil vem experimentando ao longo dos anos tem nome: carga tributária.

Turolla ressalta que a carga de impostos sobre os produtos industrializados tem sido crescente nos últimos anos, fazendo com que os produtos brasileiros percam produtividade. A cada ano que passa o produto brasileiro vem se tornando mais caro, não só lá fora, mas aqui no Brasil também. Isso se deve, principalmente aos altos impostos, que não páram de aumentar , explica.

Segundo o gerente executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, a crise pode ter antecipado a queda do Brasil no ranking, mas não é a principal responsável pela perda de competitividade do setor.

O ranking reflete a tendencia que vinha se delineando nos ultimos anos. Crescemos muito pouco nos anos 80 e 90. Nos anos 70, o Brasil crescia até 10% ao ano, mas não sustentamos isso. O que precisamos é sustentar um longo ciclo de investimentos observa.

Branco ressalta que o setor publico precisa gastar menos para tributar menos, além de adotar um conjunto de políticas e ações para estimular o crescimento do setor. Ele destaca que o Brasil precisa melhorar o sistema de tributação e logística, ampliar investimentos em infraestrutura e diminuir o custo do capital (taxas de juros) para criar ambiente mais propício de investimentos.

Temos consciência de que o país precisa de investimentos, mas é difícil, porque é preciso que o Estado poupe mais. O diagnóstico é conhecido a questão é implementar comenta Branco.

Frederico Turolla ressalta que os países da Ásia têm um nível de investimento muito mais alto que o do Brasil. O Brasil desperdiça volumes enormes de dinheiro na máquina pública, e o reflexo disso é a perda de produtividade. O Brasil gasta em vez de investir. A redução de gastos do governo, portanto, é fundamental , afirma.

De acordo com previsões da Pezco Consultoria, o déficit público no Brasil deve chegar 8% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano. Segundo Turolla, o déficit público na Índia também é um problema, mas os gastos públicos por lá se traduzem muito mais em investimentos. Na Índia, o percentual de investimento é muito maior do que o que temos aqui , aponta.

Professor de economia internacional da Universidade de Brasília e membro da Comisão Econômica da América Latina e Caribe (CEPAL) da Organização das Nações Unidas (ONU), Renato Baumann, lembra que a Índia tem mantido crescimento econômico acelerado nos últimos dez anos e destaca que a população do país também é bem maior que a do Brasil, o que influencia o desempenho do setor industrial.

Tamanho conta muito. Só a classe média da Índia tem 300 milhões de pessoas, mais que toda a população do Brasil explica.

Segundo Baumann, este ano é esperado um forte crescimento industrial, por fatores como aumento do emprego e da renda, demanda aquecida, reposição de estoques, mas não significa que o país irá ter uma melhora no ranking. Deveremos ter um resultado bem expressivo da indústria este ano, mas a retomada de uma posição no ranking dependerá muito do desempenho dos outros países , observa.

Flávio Castelo Branco, da CNI, afirma que, apesar de o Brasil estar numa trajetória positiva no setor industrial, é preciso mais esforços para se atingir um crescimento mais proximo da Índia. Nossa taxa de investimentos é muito baixa e tem ainda a questão de qualificação da mão de obra e educação. A qualidade e quantidade de educação evoluiu muito pouco. Isso reflete nos índices de produtividade , destaca.

Segundo Branco, o Brasil ainda corre o risco de perder mais uma posição no ranking, para outro país asiático. A Coréia nos anos 70 tinha metade da renda per capta do Brasil e tamanho da industria era muito inferior. O Brasil era a China daquele tempo. Daqui a pouco a Coréia no passa , comenta.

Para os especialistas, a parcela de culpa da crise nas mudanças no ranking do setor industrial está no fato de os países asiáticos terem sido menos afetados que o Brasil e terem conseguido manter forte ritmo de crescimento.

O Brasil exporta produto de maior valor agregado para a América Latina e Estados Unidos, e commodities, de menor valor agregado, para países da Ásia explica Turolla.