Poupança perde recursos para renda fixa

Adriana Diniz, Jornal do Brasil

RIO - A poupança registrou queda de cerca de 50% na captação líquida (depósitos menos retiradas) em março, segundo dados divulgados quarta-feira pelo Banco Central. O resultado foi de R$ 538 milhões, ante R$ 1,089 bilhão em fevereiro. O principal motivo, segundo analistas, seria a fuga de investidores para aplicações em fundos de renda fixa, que cobram as menores taxas de administração do mercado, e para o Certificado de Depósito Bancário (CDB), contrato com remuneração preestabelecida pelos bancos.

As instituições estão pagando taxas mais atraentes no CDB desde o aumento do depósito compulsório garantia concedida ao Banco Central. A remuneração chega a 120% do CDI (taxa interbancária baseada na Selic). Além disso, o retorno deve ser impulsionado pela expectativa de aumento da taxa básica de juros, a Selic, hoje em 8,75%, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em 27 e 28 de abril.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que, em março, os fundos de renda fixa tiveram captação líquida de R$ 6,35 bilhões, classificação que inclui aplicações em CDB. Segundo a entidade, a taxa de administração média dos fundos de renda fixa é a menor do mercado, de 0,9% ao ano, seguida da dos fundos DI, de 0,93% ao ano. Além disso, muitos fundos investem parte dos recursos em CDB.

Segundo Bernardo Moneró, analista da SLW, o CDB com Depósito à Prazo com Garantia Especial do Fundo Garantidor de Crédito (DPGE), tem rentabilidade maior e vem sendo oferecido de forma cada vez mais agressiva pelos bancos, com o objetivo de compensar o aumento dos compulsórios e gerar caixa para os bancos.

Vantagens

A aplicação é bem mais vantajosa que a poupança. Não tem taxa administrativa e rende entre 107% e 120% do CDI, que pode levar a um rendimento de 9,89% ao ano, sem considerar qualquer aumento dos juros. Já a poupança tem rentabilidade de pouco mais de 6% ao ano explica Moneró.

Segundo o analista, há ainda outra vantagem para grandes investidores: enquanto na poupança o governo garante saldos até R$ 60 mil, no CDB com DPGE, a garantia é para aplicações é de até R$ 20 milhões.

Segundo o analista de da Mercatto Investimentos, Paulo Veiga, o CDB não é tão atrativo para o pequeno investidor, por conta da falta de liquidez, já que as aplicações só podem ser resgatadas em prazos de um, dois ou cinco anos. Mas, segundo ele, apesar de um grande número de poupadores com aplicações modestas, grande parte dos recursos da poupança está concentrado nas mãos de grandes investidores, que mudam de investimentos de acordo com a melhor proposta de rentabilidade.

O grande investidor sabe fazer conta. Então, começa a perceber que é mais vantajoso aplicar em CDB. Quando este investidor migra da poupança para outro investimento faz toda a diferença na captação líquida ressalta Veiga.

Segundo o analista, a perda de captação da poupança é uma tendência que deverá ser alavancada pelos aumentos de juros previstos para este ano.

As retiradas da poupança em março foram as maiores dos últimos três meses: R$ 95,975 bilhões frente R$ 79,518 bilhões em fevereiro. Os depósitos totais da poupança somaram R$ 96,513 bilhões em março, o maior volume desde dezembro de 2009 (R$ 112,23 bilhões).

Para o especialista em finanças, Luiz Carlos Ewald, muitos investidores esperavam aumento da Selic na reunião do Copom de março e aproveitaram para sacar seus investimentos na data de vencimento da aplicação, para não perder rentabilidade.

As pessoas retiraram o dinheiro da poupança, na expectativa de aplicar em investimentos medidos pela Selic. Mas como a alta da taxa de juros não veio, boa parte do dinheiro retornou para a poupança, o que explicaria a alta nos depósitos destaca Ewald.

Segundo Bernardo Moneró, se confirmada a alta da Selic para 9,25%, na reunião do Copom deste mês, uma aplicação CDB com DPGE pode passar de 11% ao ano, quase o dobro do rende a poupança hoje.

Saldo no trimestre

Quando comparado com o desempenho de março de 2009, o resultado da poupança de agora foi melhor, já que no auge da crise houve uma saída líquida de R$ 846,803 milhões. Segundo o BC, o saldo da poupança no mês passado foi de R$ 327,885 bilhões, ante R$ 274,69 bilhões em março de 2009. No primeiro trimestre de 2010, o saldo é de R$ 4,246 bilhões o maior desde 1997 (R$ 4,643 bilhões).

Para o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas Silvio Sales parte da retirada da caderneta deve-se ao endividamento maior, típico dos meses de março e abril. As pessoas fazem muitas compras parceladas em dezembro e ainda têm os gastos de fim e início de ano com impostos, mensalidade e material escolar. Acabam se enrolando e precisam retirar dinheiro de aplicações para honrar dívidas e pagamentos extras , observa.