Livro digital emperrado na burocracia

Carolina Eloy, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - As editoras brasileiras precisam atualizar os contratos com autores para entrar na era do livro digital, com mercado potencial de 95 milhões de leitores no país. A Ediouro ainda está começando a adequar a burocracia, mas já tem a tecnologia de digitalização para leitura em e-books. O primeiro livro digital comercializado no Brasil foi o Cool-er, importado pela livraria online Gato Sabido, que vende o produto há três meses, com 950 obras em português e procura cada vez maior por novos títulos.

Nos Estados Unidos, o leitor eletrônico da Amazon, o Kindle, foi o item mais vendido no último Natal, e a comercialização de livros digitais já superou a de exemplares tradicionais. Estimativas apontam para a compra de mais de 600 mil unidades do aparelho de leitura digital.

A maioria dos contratos entre autores e editoras no Brasil não prevê a comercialização digital das obras, ressalta a presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros e do Instituto Pró-Livro, Sonia Jardim. Ela destaca que esta adequação pode demorar a ser feita, já que envolve a remuneração dos escritores.

Ainda é muito cedo para avaliar o mercado nacional para livros digitais. O momento é de alinhar preços para os autores. E assegurar que as obras não possam ser copiadas explica Sonia.

O publisher da Ediouro, Carlo Carrenho, acredita que os leitores digitais vão ampliar a venda de exemplares. Para ele, o momento é de adaptação ao formato, mas, nos próximos anos, ele prevê que de 12 livros vendidos, quatro serão digitais.

Não acredito que acabem os livros tradicionais, isso é só especulação. Mas o setor precisa se organizar para este novo formato completa.

O fundador da livraria digital Gato Sabido, Carlos Eduardo Ernanny, disse que fechou parceria com 16 editoras e busca outras para aumentar a oferta de obras para o e-book.

A grande dificuldade é a adaptação dos contratos entre editoras e autores, já que temos um sistema que garante a segurança contra a cópia da obra.

O livro digital Cool-er é vendido por R$ 750. Ernanny disse o preço do e-book ainda é um desafio. O e-book é o futuro dos livros, já que ele é um catalizador que vai impulsionar a leitura no país. Em 2015, as vendas de livros digitais devem ultrapassar os de papel , calcula.

Para Sônia, do Instituto Pró-Livro, as classes de maior poder aquisitivo que já têm o hábito de ler podem adquirir o equipamento, ampliando a leitura. Já o impacto nas classes mais baixas depende mais de esforço educacional de estímulo do que do formato do livro .

A livraria Cultura começa a vender livros no formato e-book no dia 30 de março. Os arquivos serão comercializados em formato PDF e ePub, reconhecido pela maioria dos e-Readers e também por PCs e Macs. Estamos indo com as tendências do mercado digital , diz o diretor de operações da Livraria Cultura, Sergio Herz.

O Grupo Editorial Record está oferecendo parte de seu conteúdo literário para os usuários de iPhone. Nesta versão gratuita do e-reader, o usuário tem à disposição um capítulo de cada lançamento escolhido para o projeto, opções de tamanhos de fonte para leitura, possibilidade de leitura horizontal ou vertical e acesso a um link para compra online dos livros em papel.

A média nacional de consumo de livros é de 1,2 exemplar por habitante ao ano. Entre os compradores, a média é de 5,4 livros adquiridos por ano, de acordo com a pesquisa do Instituto Pró-Livro. As vendas de 333,264 milhões de exemplares no país resultou em faturamento de R$ 3,3 bilhões em 2008.

Primeiro leitor nacional sai em junho para fins didáticos

Para o mercado didático, a Mix tecnologia vai lançar em junho o primeiro leitor digital fabricado no país, o Mix Leitor-d. O diretor da empresa, Diego Mello, destaca que o equipamento pode ser útil para alunos e professores, com livros didáticos e acompanhamento de notas e trabalhos.

Estamos desenvolvendo uma ferramenta educacional. O aluno pode fazer teste no Mix Leitor-d, que vai ter respostas comentadas. Além de poder trocar conteúdo com professor e audios explica.

Mello conta que a empresa está fechando contrato com dez instituições de ensino, entre colégios, faculdades e universidades. Outra vantagem para os alunos, segundo Mello, é a durabilidade da bateria que funciona para 8 mil trocas de páginas. O estudante tem a facilidade de ter os livros, textos, dicionário, agenda e calendário em um aparelho leve, com bateria longa .

Outra função para o leitor digital brasileiro, segundo Mello, é o uso jurídico. Ele contou que o e-book pode reunir as leis e, se for vinculado a um tribunal de Justiça, o magistrado pode consultar processos e arquivos.

Acadêmicos ganham e-book

Para o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marcos Vilaça, os livros digitais servem como mecanismo de aproximação dos jovens com a leitura, que gostam de tecnologia. Vilaça conta que cinco e-books foram sorteados em março para os acadêmicos conhecerem o equipamento.

Acho muito prático o livro digital. Para viagens é muito cômodo não carregar o peso de vários livros, mas sinto falta do cheiro do papel. Todo mês quero distribuir mais cinco unidades até que todos os 40 membros da ABL tenham o livro digital. Quero que eles usem e digam o que acharam.

Segundo Vilaça, há possibilidade de passar as obras dos acadêmicos para o formato digital, mas ainda é cedo para discutir isso. O momento é de adaptação à novidade, mas acho que é um ótimo aparelho, que deve atrair muito leitores , avalia.

No Brasil, cerca de 146,4 milhões de brasileiros (85% da população estudada) afirmam ter pelo menos um livro em casa.