Brasil-Espanha: Valência prepara parcerias com o Rio

Ricardo Gonzalez , Jornal do Brasil

RIO - Um país com mais de 200 milhões de habitantes/consumidores; que registrou em 2008 um superávit comercial na casa dos US$ 23 bilhões (em torno de 30 bilhões de euros); que pode vir a se tornar no futuro um emirado do petróleo; e que será palco de dois megaeventos mundiais: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Motivos mais do que suficientes para que o governo da cidade espanhola de Valência coloque o Brasil no topo de sua lista de interesses estratégicos. Assim, um grupo de espanhóis, comandado pelo Presidente da Generalidad Valenciana (equivalente ao cargo de governador), Francisco Enrique Camps, 47 anos, está no Brasil prospectando negócios e fechando parcerias. Quarta-feira reuniram-se com o governador de São Paulo, José Serra, quinta-feira foram a Brasília e sexta-feira serão recebidos no Rio pelo governador Sérgio Cabral e pelo prefeito Eduardo Paes.

Elegemos quatro focos de possíveis ações de intercâmbio, em que Valência tem interesses. Primeiro, fomos aos Estados Unidos. Depois, à China. Posteriormente, focamos a própria Europa, mais especificamente Alemanha e França. E agora estamos no Brasil , explica Camps, que comanda sua região desde 2003 reelegeu-se em 2007, sempre pelo Partido Popular (PP). O país de vocês é hoje, sem dúvida, uma das cinco nações referência no mundo , completa.

Interesses variados

Em São Paulo, Camps participou da inauguração do escritório do Instituto Valenciano de Comércio Exterior (Ivex), para os empresários e câmaras de comércio de Valência e também do resto da Espanha que decidam investir na capital econômica do Brasil , disse o político. O escritório de São Paulo é o 28º do Ivex, o quinto na América Latina e o primeiro no Brasil. Além disso, foi assinado um convênio entre a Feira de Valência e o Parque Anhembi, discutidas parceiras no setor de transporte principalmente a expansão do metrô paulista e no mesmo dia os espanhóis foram a Santos para tratar de questões comerciais.

Queremos, é claro, que a Feira de Valência receba empresários brasileiros. Quanto a Santos, é o porto mais importante do Brasil e Valência é o principal porto do Mediterrâneo. É uma parceria quase natural , comenta Camps.

Depois de um dia em Brasília tratando de convênios na área de saúde, a delegação espanhola chega sexta-feira ao Rio, estado que, a despeito da reconhecida pujança paulista, tem para Francisco Camps um interesse tão importante quanto São Paulo.

Todos querem ir para o Rio de Janeiro. É uma cidade conhecida mundialmente, e para onde qualquer pessoa quer ir . Quando se trata de Rio de Janeiro, o turismo é um tema inevitável, e sem dúvida estará na pauta dos negócios a serem pesquisados pelos espanhóis no estado. Mas o chefe do executivo de Valência garante que não é neste setor o único foco da delegação.

Evidentemente que o turismo é um aspecto sobre o qual temos muito a aprender com o Rio, que é um destino de muitos visitantes. Mas temos bastantes interesses em áreas do setor produtivo da cidade também. Posso dizer que o Rio é tão importante para nós quanto São Paulo , garante Camps.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas não passarão em branco na visita valenciana. Mas Camps deixa claro que, apesar do know-how espanhol na organização de eventos esportivos, a delegação chefiada por ele vem também com o intuito de aprender com o país que, afinal de contas, foi percebido pela Fifa e pelo COI como plenamente capaz de organizar grandes competições.

É claro que Valência tem experiência em eventos esportivos. Já fomos sede na Copa do Mundo de 1982, da Fórmula-1, do motociclismo, da America's Cup (iatismo). E estamos à disposição dos governantes do Rio para passar o que for necessário. Mas não vamos ao Rio com essa postura. Estaremos aqui para aprender também , conclui Francisco Camps.

Próximo passo será a criação de um 'hub' tecnológico

Além do potencial de cooperação em entretenimento e turismo, Valência e Rio terão algo mais em comum. Ambas deverão se converter num 'hub' tecnológico. O conceito significa um polarizador de conexões que concentra tecnologias, serviços e conhecimentos. O Vale do Silício, nos EUA, e a região de Bangalore, na Índia, são alguns dos mais conhecidos hubs tecnológicos do mundo, onde atuam empresas gigantes como Microsoft, Dell e Oracle.

A Wisekey, empresa líder mundial em tecnologias de segurança para transações eletrônicas, está trabalhando com Valência para a criação de um pólo tecnológico no Mediterrâneo a partir da cidade. Modelo semelhante na geração de inovações tecnológicas e produtos de alto valor agregado será apresentado ao governo e setor privado no Rio de Janeiro. O presidente mundial da Wisekey, o suíço Carlos Moreira, explica porque deseja criar um hub no Brasil.

Todos sabemos que o Brasil é um gigante em território, matérias-primas, com grande potencial para a tecnologia e o futuro. A existência de um hub no Rio de Janeiro traria integração mais acentuada, e por acréscimo, mais eficaz, de possibilidades de inovação, de desenvolvimento e de acesso a serviços privados, municipais, estaduais e federais, aumentado a riqueza local. A aposta da Wisekey na criação de um hub na Espanha, em Valência, como no Rio, terá esses objetivos. Geograficamente, são pontos matriciais, no caso do Rio, além do aspecto da criação de melhores práticas em tecnologias limpas, o projeto a ser apresentado trará repercussão positiva em toda a América Latina , afirmou.