Só o Brasil acredita

Antonio Carlos Pannunzio *, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - A Rússia decidiu assinar, juntamente com os Estados Unidos e a França, o documento endereçado à Agência Internacional de Energia Atômica, que qualifica como totalmente injustificado o programa nuclear do Irã.

A atitude do governo de Moscou, que antes sempre se recusara a endossar a posição das potências do Ocidente face ao programa nuclear iraniano, deixa o Brasil ainda mais isolado em seu apoio a tais iniciativas.

Também coloca a projetada visita de Lula, em maio, a Teerã, para levar apoio ao presidente Ahmadinejad, numa condição antipática e censurável.

Qualquer pessoa pode, por acontecimentos fora e acima de seu controle, ver-se conduzida à indesejável situação de inimigo de um de seus vizinhos, seja ele o da esquerda, da direita ou da frente.

As coisas se invertem quando, num determinado quarteirão, temos um residente cujas relações com todos os demais moradores são ruins. Nesse caso, é inevitável que iniciemos a análise dos conflitos em que vive essa pessoa partindo da suposição de que tem dificuldades de cultivar relações construtivas com seus semelhantes.

É esse, sem tirar nem pôr, o caso do regime iraniano, desde a transformação do país numa República Teocrática. Outra coisa ele não tem feito, nesse meio tempo, que ampliar o número dos Estados soberanos com os quais vive a atritar-se. A longa relação de dissensos inclui uma longa, sangrenta e inconclusiva guerra com o Iraque, nos tempos em que o Ocidente via Saddam Hussein como um personagem confiável.

Adotando uma diretriz de tolerância zero ante qualquer divergência face à sua cúpula dirigente, parta ela de um cidadão ou de um país, negando um fato histórico como o Holocausto e anunciando sua decisão de, tão logo tenha forças para tanto, riscar Israel do mapa, o governo de Teerã agora anuncia que o aumento da velocidade e índice de enriquecimento do urânio processado em suas usinas objetiva combater o câncer e melhorar as condições de vida da humanidade. Considerados os precedentes, merece ser acreditado?

Ao converter-se na única democracia a ouvir e aceitar de boa-fé essa lenga-lenga, o Brasil se distancia da comunidade internacional, num momento grave para a história da humanidade, em que só a união de todas as forças pode barrar o desvario nuclear iraniano.

* Antonio Carlos Pannunzio, além de deputado federal, é membro da Comissão de Constituição e Justiça, e foi líder de bancada e presidente do diretório estadual do PSDB/SP.