"Desonerações são bem-vindas", diz Orlando Diniz em entrevista ao JB

Marta Nogueira, Jornal do Brasil

RIO - O comércio no ano de 2009 começou com fortes dificuldades, causadas pela crise econômica internacional iniciada em setembro do ano passado, que fez com que houvesse piora das condições de crédito, quedas expressivas da confiança do consumidor e baixa nas vendas com as demissões em massa. Mas, de acordo com Orlando Diniz, presidente da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), o setor conseguiu se manter como principal instrumento anticrise . Segundo Diniz, a massa salarial resistiu bem e favoreceu as vendas de produtos de primeira necessidade. O crédito normalizou-se e, com as desonerações fiscais, como no caso do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o consumidor se viu mais confiante para retomar as compras de produtos de maior valor agregado.

Quais linhas de produtos que tiveram melhor desempenho de vendas? Por quê?

Podemos destacar os produtos mais relacionados ao dia a dia das famílias, notadamente de supermercados e farmácias, em função do crescimento da massa de rendimento real e da estabilização dos preços do setor, em meio a uma conjuntura de crise que inibia a aquisição de financiamentos de maior prazo.

Destaque o desempenho de vendas dessa linha de produtos (comparação em relação ao ano passado)?

De acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio, da Fecomércio-RJ, em outubro de 2009, as vendas de bens não duráveis apuraram alta de 4,3% frente igual mês do ano passado, quando haviam registrado avanço de 1,9% contra outubro de 2007.

Que produtos saíram do mercado ou foram prejudicados? Por quê?

No final do ano passado e início deste ano, a crise levou uma parcela do mercado consumidor a adiar a compra de produtos de maior valor agregado, que, em geral, dependem de financiamentos. Entretanto, os incentivos do governo, especialmente no caso da redução do IPI, contribuíram para reverter esse quadro adverso e aquecer as vendas.

Quais as perspectivas para o comércio do Rio de Janeiro em 2010?

Os efeitos do avanço da massa salarial, com crescimento da renda em termos reais e recuperação gradual do emprego devem continuar a influenciar o consumo. O fim de incentivos fiscais, por sua vez, tendem a impactar negativamente, mas serão compensados pela retomada do crédito e da confiança do consumidor, pela sensação de que a crise passou e de que 2010 será melhor que 2009, especialmente no que se refere ao mercado de trabalho.

Que produtos devem ter melhor preço e procura/desempenho?

A tendência é de retomada do crescimento da economia após um ano de estabilidade, o que influenciará positivamente o desempenho do conjunto dos setores. Com relação aos preços, a conjunção de real valorizado, nível de atividade global ainda por se aquecer e juros reais acima do padrão internacional permitem um ambiente benigno.

Como estão os pedidos para a indústria?

De acordo com dados recentes da Fecomércio-RJ, em setembro e outubro deste ano os pedidos aos fornecedores comportaram-se em linha com os observados nos mesmos meses de 2008: avanços mensais de 1,2% e 2,8%, respectivamente.

A indústria está conseguindo atender à demanda, por exemplo, por produtos da linha branca?

Os incentivos fiscais aqueceram a demanda de consumidores neste final de ano e, consequentemente do comércio à produção, mas esse movimento era esperado, e muitas empresas já chegaram a cancelar férias de funcionários. Problemas pontuais podem existir, mas, no geral, um ciclo virtuoso e fluído já está em andamento.

Por favor, comente as medidas de desoneração do governo para material de construção, linha branca e computadores.

A economia brasileira lida com uma carga tributária de aproximadamente 40% do PIB (Produto Interno Bruto), de modo que as desonerações são bem-vindas. No entanto, é preciso ressaltar que, ainda que bastante positivas, as desonerações fiscais não podem ser meramente pontuais. Precisamos combater problemas estruturais, como carga tributária elevada, muita burocracia e juros destoantes do patamar internacional.

Houve repasse da redução fiscal para o consumidor, com preços mais baixos?

Sim. O resultado das desonerações anteriores simbolizou a redução de impostos como uma via importante para o aquecimento da economia, uma vez que permitiu a retomada na geração de empregos e surtiu o efeito desejado sobre os preços, que caíram na ponta em resposta ao IPI mais baixo.

Alguns especialistas dizem que o efeito é psicológico já que muitos comerciantes não reduzem os preços apesar dos incentivos fiscais. Por favor, comente por setor.

Não se trata de efeito psicológico. Em um ambiente de concorrência acirrada, como é o caso do comércio, não compensa manter um sobrepreço diante do risco de perder parte do mercado para o concorrente. Os incentivos fiscais foram repassados, prova disso é que, do contrário, as vendas dos segmentos favorecidos não teriam respondido tão bem quanto o observado.

Qual a sua visão em relação à possibilidade de a inflação subir em 2010?

Em 2010, a inflação tende a ficar dentro da meta do governo, principalmente por conta da capacidade produtiva no país ainda a ser explorada, o dólar a favor dos preços domésticos e juros reais elevados, se comparados ao padrão internacional.

Acha que há uma bolha de consumo?

O problema não é exatamente uma possível bolha. Ocorre que o governo tem privilegiado o gasto corrente ao investimento, a folha de pessoal à infraestrutura, o que retarda nosso crescimento e pode mesmo estancá-lo no médio prazo. A boa notícia é que o mesmo governo tem condições de inverter essa estratégia, esperamos que brevemente.

Se os juros subirem para conter a inflação, pode haver um aumento de inadimplência nos crediários e financiamentos.

Não vemos necessidade de elevação dos juros para frear uma inflação de demanda, face à capacidade produtiva do país ainda a ser explorada, o dólar a favor dos preços domésticos e juros reais elevados se comparados ao padrão internacional. Se ocorrer, pode ter efeitos, sim, sobre a inadimplência, mas esta nos indicou seu pico no auge da crise e não chegou a comprometer a retomada do crédito, dado o amadurecimento do consumidor brasileiro.